17 de março de 2008
Nota
In the Privacy of Our Love
- Vermelho continua despertando muita violência.
- Vermelho é amor. É a igualdade, todos somos vermelhos, independente da pele que o sol queima.
- Bonito, bem bonito! E tem razão! Mas eu acho que vermelho continua despertando muita violência. E não é a cor do amor, é da paixão, e paixões são violentas.
- É verdade. Tudo recai na violência.
Meu amor, ... Meu amor violento, minha paixão pela violência. Rabisco desejos em seu corpo. Ela retribui, e desenha minha costa inteira com suas unhas compridas e sem esmalte. Me deseja dentro dela com seu colo desnudo, com suas vergonhas a mostra, de tom almagre, e ao mesmo tempo, nobre.
Morde com força até sentir o gosto enferrujado do sangue. Eu misturo toda saliva com seu suor agridoce. Seu perfume creme. Seu rosto denunciava gemidos presos na garganta, aqueles que ela insistia emudecer. Meus cabelos emaranhados em suas garras me faziam vulnerável. Eu era todo seu e você me fazia mais homem com seus beijos e toques. Me fode, garota, já não depende mais de mim.
Enrosco seu brinco em meus dentes. Passeio minha língua pelo teu corpo. Pintas espalhadas em pontos estratégicos faziam meu mapa. – Posso ligar os pontos? - E lá estava. Papilas rosadas calavam as vozes do meu prazer, e faziam gritar as suas. Entre telefonemas e o barulho da TV, era só nós dois. Se contorcia e não se segurava mais. Minha mão de encontro ao teu ventre, rosáceo e quente. O seu suor agridoce, o seu cheiro creme... Ali eu mergulhava e sabia nadar muito bem. Um sutil sorriso seu, um malicioso meu.
Arranco teus medos e tensões. Agora somos um só, introjetados em espelhos que não refletem a própria imagem, mas sim, àquela que desejamos. Meu reflexo é você, meu desejo é teu. E você agora é minha. Dentro tudo é melhor. Mergulho mais fundo e te faço mais mulher.
Minhas mãos e minha boca só fazem sentido no teu corpo. Se te queria hoje, amanhã te quero mais. Boa-noite, mon amour.
16 de março de 2008
hOJE
Como você tá levando as coisas, garoto? - disse ela, a de maiores desavenças, textos gigantes e poucas conversas. Que pergunta!... Como vou levando...? Ora, como dá. Carregando caixas pesadas de cerveja em sacolinhas de supermercado. Estou às avessas e as cervejas estão caindo, você-que-tenta-me-ajudar... Ahhhh não sei. Não sei... Nada mais importa. Nada mais importa. Nunca mais. Nunca importou.
Conhaque e dores de garganta. Insônias e frio. E é claro, meu peito a implodir algumas várias veias por sua causa. Mas não tive seu calor por hoje, nem tomamos chuva. E hoje é o pra sempre, é a sensação que eu tenho... de agora, de toda hora agora, pra sempre. Amanhã estarei morto, não entende?? Me aproveite agora e hoje! Meu sonho de todas as cores.

nossa, eu to meio bêbado hein... e com uma dor no peito de foder.
12 de março de 2008
See You on the Other Side
- Eu não sou filho de ninguém. - Desab(af)ei ali, enquanto procurava forças em suas mãos, naquele banco de praça que parecia tão conveniente. - Eu sou seu pai - continuei. Ela só me olhava e ria de todo aquele colorido, como se toda cor representasse beleza. Ria de minha aflição aguda e desafinada. Se não sabe, o choro invertido também é desespero.
- Olha, eu sou seu pai, mas posso ser seu irmão. O que acha? - Olhava fixamente em seus olhos, enxergando por trás da pessoa que é. As pessoas estão contidas por detrás do olhar¹. Sem dizer uma letra sequer, me abraçou e me selou o rosto. Agora era minha mãe.
Fechei seus olhos e tudo desaparecera. Não enxergávamos nada, e o nada era tudo ali. Mas tudo era escuro.
.Ela não ria mais, tampouco se mexia apavorada por aquele vazio negro. - Ah, eu sempre acabo aqui... Logo a gente sai. Já estou acostumado, essa cegueira acontece sempre, a gente é que nunca percebe. - ...Sempre acontece. Então passeio minhas mãos pelo ar e retomo as suas. A conforto e faço promessas de te tirar da escuridão. Guio em vão, também nunca soube onde era a saída. Nunca quis sair de verdade.
Não havia passos a guiar, sombras a seguir, não havia você em minhas mãos. Não. Não podia crer em meus olhos. Te seguro mais forte porque sei que está ali, sem rosto e chorando, mesmo que se faça muda, mesmo que se esconda no preto. Eu te ouço mesmo sem querer, eu sinto seu choro. Estamos cegos, mas temos um ao outro. Vou ao teus olhos e seco teu sumo.
Minha tentativa só fez com que você enxarcasse mais e mais os olhos. Os seus e os meus. Chorou em meus braços pois era o que tinha ali, o que te segurava e protegia. Eu era o que era sólido. Derreta minha amiga, em mim, sabe que pode confiar. A abraço mais forte e mostro a saída.
Eu continuo preso aqui. E você continua chorando.
¹. Frase original de Mariela. ;)
10 de março de 2008
Where Do You Go To (My Lovely)
- Alô?!
Neuilly Park Hotel, 23, rue Madeleine Michelis. É para onde ela está indo. Exatamente onde eu estou. Paris nunca pareceu tão bela. Tão bela e injusta.
Termino de escrever uma baboseira ou outra em rascunhos mais perdidos que eu, coloco uma música e vou tomar banho. Não sabia quanto tempo fazia que não tomava um banho. Minha barba também não está apresentável. Já não sabia quanto tempo fazia que eu não saia na janela. O cheiro da França nunca tinha sido tão suave.
A campainhia avisa que só a porta nos separa.
- Feliz Natal - ela esparrama as palavras que dividem atenção com os gestos de suas mãos. E o mesmo sorriso de antes.
- Você fez luzes no cabelo.
- Estou aqui. Gostou do presente? - Meu presente... Meu passado. Gostava do meu presente sem ela. Mas dela eu gosto muito mais.
- Não vai me convidar para entrar? - Ela já estava entrando, e sabia que não precisava de convite algum. Na verdade, ela nunca havia saído.
Um abraço. Nós ainda encaixamos perfeitamente. É como se tocasse sua pele baunilha sob suas roupas, como seu eu fosse seu próprio cheiro. Sentia seu coração inseguro como se sussurrasse segredos com o meu pedindo abrigo em mim. Aqueles segundo pareciam eternos. E se pudesse, diria sim.
Cigarros. Nunca mais havia fumado desde que ela foi embora. E lá estávamos.
- Que flores lindas!
- É. É mostarda. Você sempre duvidou delas.
- São lindas.
Você é linda.
Nos beijamos exilando a tensão que nos cercava. Ela passava segurança, mas suas mãos não. Suas mãos suavam pelo meu corpo enquanto eu a despia e a cercava de dentes. Uma marca de cigarro que antes não tinha. Um olhar triste que eu não conhecia. Ela respirava em cima de mim.
- Você não deveria ter me encontrado.
- Você não deveria ter vindo para um lugar tão óbvio.
- Talvez no fundo eu quisesse...
- Pensei que fosse ficar em Champs-Élysées¹. Combina com você.
- Pensei em ficar lá. Mas combina com você.
- Sabia que iria te encontrar por aqui.
- Viva la résistance!
Uma longa pausa. Um longo beijo. Ela diz o óbvio:
- Eu vou embora.
- Pra onde?
- Pra longe.
- Eu acho que também vou. Alemanha ou Amsterdã, ainda não sei... Fiquei tempo demais aqui.
- A Alemanha engorda. E vai te partir o coração.
- Mais do que você eu acho que não.
Ela levanta. Pego três flores de mostarda e coloco em seus cabelos. Ela fica perfeitamente bela vestida só com flores. Como Paris. Eu não queria deixar a França, e não queria deixá-la. Mas que escolhas eu tenho? Ela sabe porquê estou aqui, que escolhas eu tenho?...
Silêncio.
- Quer ver a visão que eu tenho de Paris? - Ela concorda com a cabeça. Pego em sua mão e caminho em direção à sacada. Então, no meio do caminho, coloco-a em frente a um espelho e a abraço por trás. Dançamos a noite inteira. A última de várias outras últimas.
¹. Champs-Élysées é uma larga avenida em Paris. É também uma das ruas mais famosas no mundo. O nome refere-se aos Campos Elísios, que na mitologia grega significa o Reino dos Mortos, onde só entrava as almas dos heróis, santos sacerdotes, poetas e deuses.
5 de março de 2008
Absorva
"vai, me absorve que hoje eu quero ser só seu
Made In the Dark
Sinto passear lentamente formigas construindo o formigueiro em mim. Sou tua estrada mal-criada, inacabada. in acabada. Beija-me, sinta o gosto do meu café pela última vez. Lembre-se, será a última vez. Feitos no breu, olhos fechados encontram suspense, muitas vezes murros, muitas vezes muros. As últimas xícaras são sempre mais saborosas, e as bocas no escuro, do que somos feitos. Não deixa esfriar, beba-me.
Anda, bebi tudo, agora lê meu futuro! No fundo, borrões descrentes. Mas eu não sei ler borra de café, não vejo nada. Exatamente! Enxergo tudo embaixo do negro mar. Negro. Na superfície, eu não vejo, ela também nada. E se afoga em mim. Que amargo bom. A vida também é assim, tem seu gosto dependendo do grão.
Encontro multidões em torrados. Mastigo todos na tentativa de diminuir o mundo. Aumentar meu amargo profundo. Açúcar ou adoçante? Não, não, obrigado. Um cigarro, mas eu não fumo.
Um trago eu trago e morro.
Mas é só por alguns segundos. Logo mais acordo pro café.
One More Cup of Coffee

Tem dias que só ele me mantém de olhos abertos, não que eu esteja realmente vendo alguma coisa. Mas eu os mantenho assim para evitar chamar atenção. Tem dias em que eu desejo desaparecer feito espuma no espresso, simplesmente misturar e sumir. Encher uma banheira inteira de água preta e ali jazer.
Café, o grande clichê, clichezão. Hun, foda-se. Ele reflete a minha dor e me mantém acordado para doer mais. Reflete meus olhos tristes e profundos, ahhh aquela carinha de merda... Não me deixa confortar, confrontar.
Quanto mais tempo comigo mesmo mais cansado fico. Mais cheio de mim. Quero beber outra pessoa. Quero beber e morrer qualquer coisa. Minha cabeça não pára de doer, é aquele maldito relógio em contagem regressiva. Tic, tac, tic-tac-tic... Há tanto em meu estômago, tanto a dizer. Minha voz incessante... Treme com meu medo. Treme com meu medo!
Tudo é negro.
4 Minute Warning
4 de março de 2008
Alfa Doce Venus
Da paixão que nos ferve a euforia dos sentidos
Vamos esquecer a razão do tudo,
E lembrar que não se divide o mundo.
Vamos falar do sussurro da alma
Que a pleno silêncio nos fala.
Vamos celebrar o passado
Presenteando o futuro
Vamos à raiz da sagacidade
Vamos falar do amor de verdade
Pois só inteligente se torna
Aquele que é capaz de amar em um mundo
Onde a desilusão de ódio às vezes ofusca
A imensidão do amar.
(Alecs Brasil)
***
Na tarde, no banco, na amizade.
2 de março de 2008
Quem É de Verdade Sabe Quem É de Mentira
Verdades ditas nas bitucas de cigarro e nas garrafas divididas. Costurando palavras em abertas feridas. Encontrando verdades em olhares cúmplices nas mesas esquecidas. Soluções diluídas em almas fudidas. Passado, presente e futuro se cruzam em qualquer lugar da vida.
Cigarro cigarro. Bebida bebida O rock'n'roll e risadas acompanham a trilha. Nós largados nessa cidade, cidade nossa de ruas perdidas. A luz amarela, a cidade alerta, a mesa de bar e o cheiro da brisa. O copo vazio, a fumaça levada, a verdade criada é o que vira.
"Quem é de verdade sabe quem é de mentira."
¹. Frase de uma música homônima do Mamelo Sound System.
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Texto escrito por YuЯi Kiddo e Zu-zu-zuellen Santana, do Claritromicina, numa mesa de bar, ao acaso... assim, simples assim.
1 de março de 2008
Nem tudo é real
Seja qual for o rumo da minha vida, este destino já está escrito, meu íntimo segredo. Ter algo no mundo, viver a ternura e plenitude de um amor incondicional, fornecer a alguém as coisas mais belas que o mundo carrega. Gerar vida, dar vida, permitir a vida. Sei que nada fará realmente sentido até ter meus filhos. Vê-los nascer, parte de mim, minha melhor parte...
Será minha melhor parte, farei de tudo para ser minha melhor parte. Moldarei o mundo para que você, meu sangue, caiba sem se arranhar. Deixarei o mundo te moldar, pois há grande beleza, sábia beleza na natureza. E, claro, você também moldará o mundo. Assim como eu o moldei.
Saiba que fiz meu melhor para deixá-lo mais aconchegante o possível. Plantei minhas melhores sementes, e você é uma delas. A que germinou com mais forças. Como não seria assim, se foi em você que investi as belas sinceridades da vida. Me doei, fiz o que pude e continuarei a nutrir. Sei que vou te amar um amor que me faltou, um amor novo que preciso conhecer. Quero todos os amores do mundo, mas ainda me falta você. Me falta você.
Tudo tem sua hora. Meu filho, você também terá a sua.
