Sejam bem-vindos ao outro lado do espelho, onde tudo pode acontecer (e acontece).

Wonderlando é um blog sobre textos diversos, descobrimentos e crescimento. A filosofia gira em torno do acaso, misturando fantasia e realidade de dois amigos que se conheceram também por acaso, Alice - que tem um país só seu -, e Yuri - chapeleiro e maluco nas horas vagas.

Leia, comente e volte sempre... Ou faça como a gente e não saia nunca mais.
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24 de dezembro de 2009

.final ()

Ponto final.

Começo no fim de mais uma decepção. Mais uma glória rasgada, e mais lágrimas desperdiçadas. O último. Sete significa sorte para alguns... Hahaha, até esqueci aonde ia chegar. Mas é o último. Dramático e perdoável como todos foram, o último.

O natal (assim com letras miúdas mesmo) passou quase despercebido. Teve que pendurar um colar de luzes e um sino dourado como pingente no pescoço do papai noel (assim com letras miúdas mesmo), tunar seu trenó e colocar mais 200rp - renas de potência; e o nariz do Rudolf agora é de xenon. E mesmo assim, eu não o vi.

O espírito de natal estava enrolado num carteado com o diabo, se atrasou todo e esqueceu de alguns lugares. E assim ele embolou com todo o fim de ano. Todos os planos, todas alegrias... As férias viraram castigo. Meu pai (que não é noel) desapareceu. Colocou tudo em seu saco e desapareceu. Levou o sorriso de minha mãe, as lembranças, o amor, e os DVDs (que até agora eu não me conformo). Ora, por que os DVDs? Aposto que ele também é o culpado por estes dias de sol escaldante.

Estávamos infelizes. Mas infelizes como sempre. Agora a tristeza é outra. Não é só minha, e isso é insuportável. Somos todos corpos escorregadios nos esquivando de abraços e carinhos. A atenção vem nas piores formas. Gritos e choros e velas derretidas. Nem a fé é sólida. E cá estamos esperando e tentando um ano novo (assim com letras miúdas mesmo) melhor, um ano novo mais digno e decente. Um ano novo fora daqui.

Não sei o motivo de eu escrever isso agora, eu tinha até outra coisa em mente. Mas essas semanas, o assunto não foi outro. Na televisão só se fala disso, nos jornais, nos amigos e parentes, nos filmes... É só isso.

Eu sinto raiva de todo ano que acaba porque ele nunca acaba bem. E sinto raiva porque se eu o aproveitei bastante, não deveria ter acabado.

Não sei como terminar esse texto, assim como não sei como terminar este ano; assim como não sei como terminar nada na minha vida. Mas ele sabe. E terminou.

Postado no extinto Susi Não Anda Sozinha no final de 2007. Eu continuo sem saber...

20 de abril de 2009

A Morte da Boneca


Já tem um tempo que não me encontro mais com ela. Suas personas não me dizem mais respeito, e até suspeito que nem a ela mesma. Já imaginava de que isso aconteceria, mas sempre quis acreditar que não.

Talvez a sombra do sexto tenha infectado o que era tão certo e organizado até. Talvez tenha sido aquela parte seletiva que vem e sufoca cheia de idolatrias, sem personalidade e autoestima no chão; que devora com anseio e fere imaturamente escolhendo apenas alguns de um todo.
Pode ter sido também a apaticidade de sua parte tocável, oh Susi, que não toca mais nada nem ninguém. Suas lágrimas não comovem mais, nem seu sorriso, muito menos seu coração partido traz pena. Cada vez mais invisível, nem pede por socorro. Não há súplica em sua dor. Foi abandonada e esquecida, mas ninguém tem coragem de dar o ultimato, o golpe fatal com a lâmina mais afiada. Simplesmente é deixada respirar sem membros... Eu tentei ser sua alma, mas não me permitiram. Falhei.

Se não todos os membros agem em conjunto, nenhum funciona direito. Se não todos serem eternos, somente alguns, seja feliz, minha doce boneca de olhos de vidro. Para alguns, alguns menos.

Susi não anda sozinha nem nunca vai andar, mas não caminha mais comigo.

9 de abril de 2009

Nunca Mais


Sempre acreditei que podia voar. Sonhava achando ser verdade que tocava as estrelas, que habitava planetas... que minha nave espacial era especial. Minha vida inteira num pouso de mentira. Minha fé é brincadeira.

Aonde ninguém foi jamais, eu venho em paz, sou um patrulheiro espacial. Vôo feito pássaro, plano feito avião, voar é só querer, basta crer e voar. Mas lá embaixo eu vi desaparecer.


Nunca mais sentir o vento frio contra o capacete, explorar as galáxias, ser leve novamente. É pesada a gravidade, sempre foi. Sempre foi verdade. Abrir as asas não faz mais sentido. Aprendi que voar eu não vou nunca mais, só cair, sempre cair... com estilo.

"Éééééé
Voar, eu não vou
Nunca mais"

16 de março de 2009

Cinzas


Precisava de um inimigo para completar minha vida. Um diferente, cansei de me enfrentar e perder sempre. É isso. Genial! Como não havia pensado nisso antes? Como não havia pensado em preencher essa lacuna odiosa e vazia com inimizades? Sempre quis ser querido, mas isso contradiz com minha natureza solitária e mesquinha. Agora tudo se encaixa em perfeito sentido. Cansei de ser meu próprio inimigo.

Ele é menor e aparentemente mais fraco. O escolhi porque sei que vou perder, mas todos nós perdemos. Sempre perdemos. O aponto para mim e procuro em vão o gatilho. Essa arma não precisa de balas. !FOGO!

Agora ele vai ser meu melhor amigo. Eu ganho todas as batalhas, mas no fim, todos nós sabemos que a guerra é dele. Ele é meu melhor amigo porque sabe a hora de ir embora, e se vai numa fumaça misteriosa, deixando sempre um pouco de si em mim. Ele me salva de mim mesmo.

Me mata aos poucos, mas quem não mata?

Agrada só para não ser sozinho. É tão triste, meu melhor inimigo...
Ele só antecipa meu anseio. No final, somos só cinzas.


Dias vão, dias vem, uns em vão, outros nem
Quem saberá a cura do meu coração senão eu?
Não creio em santos e poetas
Perguntei tanto e ninguém nunca respondeu
Melhor é dar razão a quem perdoa
Melhor é dar perdão a quem perdeu
(Zeca Baleiro) - Cigarro




27 de janeiro de 2009

snuff.

Enterre seus segredos na minha pele. Vá embora com a sua inocência e me deixe aqui com meus pecados. O ar a minha volta é uma prisão, e o amor é só uma camuflagem para o ódio. Dói pensar que você não faz mais parte da minha vida. De que cada vez mais, quem eu me importo, não faz mais parte. Como peças que não se encaixam de um quebra-cabeça misturado, todos se cansam e vão embora. O quintal limpo e vazio aceita meus joelhos e minhas lágrimas inundam a solidão. Eu me despedi sabendo que você não voltaria mais. Pouco tempo depois fiquei feliz por sua passagem, então me senti culpado. Eu não queria te dizer adeus.

Antes de todo ódio inventado, você dizia me amar. Eu ainda leio suas cartas como se fossem as orações que vão me salvar. Eu te afastei porque eu também te amo, e não posso destruir o que não existe. Então se você me ama, me deixe ir e corra antes que eu perceba. Talvez eu não teria chegado até aqui sem sua luz, mas tudo se partiu porque meu coração é sombrio demais pra enxergar ou me dar forças pra lutar. Os anjos mentem para manter o controle. Você me vendeu para se salvar. Mas isso não muda o que eu sinto por você.

Engula o ar e se afogue, então saberá, por poucos segundos, como eu me sinto a vida inteira. Eu achei que esse dia nunca fosse chegar. Achei que fôssemos pra sempre, no nosso próprio mundo. Depois das perdas recentes, eu me sinto inseguro, como se ninguém entendesse o que eu falo. Ou somente valorizasse doces mentiras em charmosas perfídias, será que é isso que preciso fazer? Bata de frente com as pedras, eu só gostaria que você não fosse minha amiga. Então eu poderia te machucar no final.

Meu sorriso foi tirado há muito tempo atrás. Se você nunca percebeu, espero que nunca perceba, então posso ter alguém. Se eu conseguir mudar, eu espero nunca saber. Tenho tido uns sentimentos estranhos que comprimo em minha dor. Eu não mereço ter você. Espero que você nunca saiba. Assim eu poderei destruir tudo, de novo...



9 de janeiro de 2009

The Autumn Lips





Veio assim sem perguntar nem pedir permissão. Meu amor na ponta da agulha, um velho esfarrapado e cinza, grandioso em meio às ruínas. Sem meias palavras, calou-me. No meio fio, ria às custas da Morte. Essa vida ainda me mata...

Veio por acaso, vestida de arco-íris, flutuando poesias. Meu amor na ponta da caneta, a moça das unhas de sangue. Um brinde ao ctrl+z. Resumidamente é isso. Me abrace, não me solta e me deixa morrer. Quando eu precisar... Deixa eu morrer quando eu precisar...

O cansaço falha as letras. Falha todas as canetas. Empresta o sangue de suas unhas?, é rapidinho... Preciso apenas escrever um ou dois versinhos. Posso até beijar seus lábios de outono e minha boca ressecada. Posso até me envenenar, beijar cada veia machucada. Prometo não irá se arrepender.

O velho que mata, a moça que deixa morrer...

20 de dezembro de 2008

A Clace Palled Home

Antes eram gritos, e ecoavam pelos corredores do auto-intitulado "lar". Agora já não se ouve quase nada se não prestar atenção. Procure nos cantos, é de lá que vêm os gemidos. O que mata as plantas é o sal das lágrimas. E estamos todos morrendo, como ela(s). As sombras não são nada além de espíritos divagando tão perdidos como qualquer um que eu possa ver. Mas não quero ver ninguém, não quero nada. Queria que tudo fosse embora.


Ela diz exatamente tudo que eu sinto. Mas ela não sabe, e está sentindo agora o que sempre viu em mim e ignorou, fingiu não ser nada. "Não é nada!". Assim, simples, cinicamente acreditando nela mesma. Tem o dobro da minha idade, talvez mais. Nossa diferença é que ela não viveu, enquanto eu luto para não sobreviver. E como pode se abrir tão facilmente daquela maneira? Quase sinto inveja se já não sentisse outras milhões de coisas por ela. Meu pecado é desejar que fosse muda toda vez que grita. Então choraria em cima dela. Queria que ela fosse embora.


Minhas dificuldades aumentaram porque tentam tampar minha visão. Meus olhos que nunca olham o que está, porque a cabeça quer que (a)voe, e o coração. Seu "lar" na verdade nunca existiu, e se existiu, nunca fiz parte dele. Como eu posso chorar por alguém que nunca amei? E ninguém ouve meus pedidos de socorro abafados pelos seus.



...socorro...










...socorro...













...Adeus.

24 de setembro de 2008

Crepúsculo do Ocaso [Tudo é Muito Bonito, Mas Sei Lá]

O mar estava sem ondas e o sol não estava tão quente. Era um fim de tarde de outono como outro qualquer. Na areia, todo o seu caminho percorrido em pedaços de pegadas que viriam logo se desmanchar entre os grãos, seus cabelos emaranhavam com o vento forte a seu favor. Tudo parecia a seu favor.

Estava diferente, percebendo cores e sorrisos. Se via no espelho d'água e aquela imagem parecia fazer tanto sentido... Parecia fazer sentido, tudo era muito bonito. Serenamente, deitou-se para ver o crepúsculo do sol e descobriu o quanto viver vale a pena. Não se sentia só naquele ocaso, e se sentia. Mais próximo de Deus.

Calmo como o mar, seguiu seus passos de volta, sem mais zigue-zaguear em confusões. Tinha encontrado finalmente a saída do labirinto, a última peça do quebra-cabeça que havia perdido em suas desordens banzeiras.

Ouvindo canções lineares, desfez todo o caminho se jogando na areia, agitou o mar e ofendeu as estrelas ainda novas. Rasgou, mastigou e engoliu a peça que faltava, fechou a porta do labirinto se trancando do lado de dentro e apagou as luzes. Já não era tão belo, mas seu sorriso era muito mais sincero. Tudo é muito bonito, mas sei lá.

19 de setembro de 2008

...Paz na Minha Solidão




O mundo está acabando
E logo vamos à Marte
O café é descafeinado
Violência por toda parte
E eu aqui esperando você chegar

Deus pediu as contas no reality show na TV
Celulares fora de área
O silêncio não pode mais dizer
Assistimos via satélite
Na internet,
Todo mundo morrer

Corpos e destroços por todo o caminho
Não se ouve a paz
Cristo viveu pouco demais
Eu vou morrer sozinho

Pensar é obsoleto
Um copo de cianureto
Enquanto espero você chegar

Estrelas-cadentes invadem os céus
Eu descoberto esperando ao léu
Dizem que estou desprotegido
Que eu deveria procurar abrigo
Mas não se escapa da fúria do criador
Dizem que o fogo é quente e destruidor
Dizem que hipnotiza e enfeitiça como o amor

No fim todos procuram salvação
Correm sem direção
e se encontram no abismo
Eu só quero paz na minha solidão

Eu sei que te encontrarei lá embaixo
Mas você ficou de me encontrar
Não estou me escondendo
Estou apenas esperando você chegar




"Não enfrente montros sob pena de te tornares um deles. Lembra-te: se contemplas o abismo, a ti o abismo também contempla."**



* Desenho de SiClark
** Friedrich Nietzsche. Fritz para os mais íntimos.

23 de julho de 2008

The Taste of Life

Eu olhava marcas novas no tecido cada vez mais velho. Vinte e uma marcas feitas sem precisão na única pretensão de excomungar o mal. Tudo começou no metrô, quando vi minha alma saltar de meu corpo, pegar um trem com destino ao lado oposto (a propósito, ela deve ter levado minha carne também, porque eu me tornei tão inóspito e cinzento quanto São Paulo - mas não tão grande - e ninguém mais me percebe.)

Corro a minha procura. Me encontro mas não me olho nos olhos. Sigo distante. Sigo pegadas nas paredes e teto, a gravidade é ignorada, ela pouco importa. Erroneamente deparo com o espectro de alguém prestes a morrer, como um espelho, e o gosto de doppelgänger¹ me arrepia os pêlos. A matéria é ignorada. Ela e eu. Eu, eu.

Todos temos nossa metade má. Eu me perdi em qual lado fica a minha, e machuco uma metade na esperança de afastar o mal. Eu não sei se a força que corta é a que exila ou a que produz a maldade. Se eu pudesse matar o mundo inteiro, eu faria, mas estou ocupado demais tentando acabar comigo mesmo. Eu sangro o gosto da vida. Eu bebo e me engasgo. Eu não sei em quem atirar. Eu só tenho uma bala e é hora de escolher. Eu ou eu, em um dos lados eu acerto. Enfim, viverei uma metade em paz.

"Nele o homem e o lobo não caminhavam juntos, nem sequer se ajudavam mutuamente, mas permaneciam em contínua e mortal inimizade e um vivia apenas para causar dano ao outro, e quando há dois inimigos mortais num mesmo sangue e na mesma alma, então a vida é uma desgraça."²






¹. Entidade do folclore alemão que se assemelha a um fantasma, mas trata-se de um espectro que é o duplo de alguma pessoa ainda viva. Diz-se que se alguém encontrar seu próprio doppelgänger, morrerá em breve. O termo também é usado como sinônimo de "sósia", geralmente com alguma conotação maligna.

². Trecho de O Lobo da Estepe, de Herman Hesse.
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Nota: Eu demorei pra postar este texto aqui no Wonder porque... porque... na verdade nem eu sei bem o motivo. Eu só queria ele mais completo, mais exato, mais lapidado. Mas é exatamente isso que é, não consegui mudar muita coisa, não sei se foi incapacidade ou se não há o que mexer. [sempre há].
Quem quiser ler o original, sinta-se à vontade no Susi.

14 de julho de 2008

Sleep in Sanity / Só.


O que me deixa triste eu não consigo explicar agora. Fantasmas rondam minha cama numa falsa companhia. Eu não sei o que está errado com meu coração, não sei o que eu fiz... A hora de cair ainda não chegou, mas já rastejo febril entre espíritos. E morro só.

Estou num túnel que bifurca em vários outros túneis destinados à escuridão. O caminho a percorrer não importa, o destino que desenhar me será cruel. Eu não sei o que está errado com meu coração. Quando descobrir, ele já terá partido. Eu já terei partido-ido. O escuro é sólido e tem um gosto amargo, invade minha boca, entra pelos meus ouvidos e dentro dos meus olhos - me fazendo ver nada mais do que costumava enxergar.

Vozes que não consigo identificar de onde vêm e o que dizem ecoam em toda ausência. Ouço algumas teclas de piano, fazendo uma canção lenta e dolorida, reconhecível. Mas eu sei que é só coisa da minha cabeça. Toda esperança evapora de meus poros, me deixando deitado em minha cama com meus espíritos fazendo ronda. Continuo rastejando e morrendo só.

21 de abril de 2008

Sketch

Eu não preciso escolher um lado, tanto faz o que transpassa, já passou. Já misturou. O espelho me reflete ao contrário e ri de mim sempre feliz. Duplica minha dor e meus desejos. Vai embora sem avisar e volta me assustando com um rosto que desconheço. Foi o que me sobrou. O negativo do meu próprio reflexo.

Invenções de um mundo de ilusão. Finjo amor, finjo piadas. Finjo estar tudo bem com uma máscara estampada. Eu queria deitar, olhar tudo como se tudo fosse estar ali quando eu despertar. Ali, bem do jeito que eu deixei. Mas a alquimia natural do mundo não torna isso possível. Quando eu acordar desse pesadelo, tudo vai ser mais bonito.

Para os que ficarem para trás, não me sigam, cada um tem o seu caminho e seus motivos. Para quem chorar, seque-se em minhas poesias, molhe minha dor enquanto enxugo a sua. Uns rabiscos pra dizer que meu amor está cada vez mais perto. E eu amo cada vez mais, porque é a única certeza. Amar é sempre destrutível, mas nem sempre ter razão é bom.




"My love can go where you don't know
and I love to grow, where you don't know
I know I'll always be like this
Until I can find a cure
If my love is my disease,
I will love you more and more"
- Sketch (Yoñlu)

16 de abril de 2008

Quem é Quem (e vice-e-versa)

Sobem pelo meu corpo. Aos poucos me formiga todo. Literalmente. Caminham lentamente, ordenadamente de encontro. Pelo corpo todo. Eu quero ser a rainha. Serei a mais bela de todas.

Vieram adiante sem eu nada poder fazer. Sem o devido respeito ocuparam todo o espaço. Me deram vestido, me coroaram. Me deram um orgulho pra cuidar. Antes que pudesse ouvir chamar, tomaram meus ouvidos. Antes que pudesse gritar, ocuparam minha boca. Desceram ao meu estômago e comeram as borboletas. Me iludiram ser nobreza, me fizeram acreditar.


Seguraram minhas mãos, me impediram de atitudes. Comeram meus cabelos e todas minhas personalidades. Entraram em minhas veias, apodreceram meu coração. Meu pobre coração... - Mas eu sou a rainha - tentando me justificar, tentando fazê-las entender.


Formigas. São todos formigas. Pena eu não ter uma lupa gigante, pena o sol não estar escaldante. A minha vantagem em relação às formigas é que elas vivem em silêncio, e eu não as ouço chorar. A vantagem é eu ser bem maior que elas.








- Eu sou a rainha - gritava, - EU SOU A RAINHA! - Por medo e raiva, atacava. E pisava, e pisava, e pisava...

28 de março de 2008

Too Late I'm Dead

Eu vegeto aqui. Meu corpo - pêlo e cicatriz - não me diz mais nada. Os ossos estão cada vez mais pesados. Tanto faz se eu choro ou se dou risada. Meu reflexo no espelho me ignora. Toda vez que tento conversar, ele vai embora. E eu tento ir ao seu encontro, e com lâminas eu me deparo. Pronto, mais sangue. Mais e não paro. Mais morte eu desejo, mais isso eu almejo. Da vida, o soco, da morte, o beijo.

A repulsa. Outros na minha cabeça gritam o que fazer. Eu não lhe dou mais ouvidos, eles pararam de dizer. Minha imagem deu-me as costas e partiu. Como o espelho, meu coração. Ruínas e manchas fazem de mim um homem frio. É esperança, É PRA EU SENTIR QUE ESTOU VIVO, OUVIU?! E a culpa disso tudo é tua. É minha, eu sei meu rei, a culpa é toda minha.

Me tornei tão inóspito que já não percebem minha presença. Ninguém vê se eu chego ou me vou. Eu construí meus castigos e minha própria sentença. Minha voz, de tanto desuso atrofiou. Nós criamos os deuses e nossas doenças. Meu rosto envergonhado sempre diz: O que você (não) se tornou?

Ainda mais, que se fosse eu faria melhor. E repete insensatemente como sou imperceptível. Minha dor não é som, meu sangue não é cor. Como viver pode ser tão horrível! e alguém sempre grita sem parar: Quando morrer, você pode avisar?





































Tarde demais.

10 de março de 2008

Where Do You Go To (My Lovely)

O telefone toca. Acordo. Ele toca diferente. Eu acordei diferente, e posso dizer exatamente quem é do outro lado da linha. Mesmo que tenhamos ficado muito tempo sem nos falar. Sua voz ainda soa claramente limpa e doce em meus ouvidos.

- Alô?!

Neuilly Park Hotel, 23, rue Madeleine Michelis. É para onde ela está indo. Exatamente onde eu estou. Paris nunca pareceu tão bela. Tão bela e injusta.

Termino de escrever uma baboseira ou outra em rascunhos mais perdidos que eu, coloco uma música e vou tomar banho. Não sabia quanto tempo fazia que não tomava um banho. Minha barba também não está apresentável. Já não sabia quanto tempo fazia que eu não saia na janela. O cheiro da França nunca tinha sido tão suave.

A campainhia avisa que só a porta nos separa.
- Feliz Natal - ela esparrama as palavras que dividem atenção com os gestos de suas mãos. E o mesmo sorriso de antes.
- Você fez luzes no cabelo.
- Estou aqui. Gostou do presente? - Meu presente... Meu passado. Gostava do meu presente sem ela. Mas dela eu gosto muito mais.
- Não vai me convidar para entrar? - Ela já estava entrando, e sabia que não precisava de convite algum. Na verdade, ela nunca havia saído.

Um abraço. Nós ainda encaixamos perfeitamente. É como se tocasse sua pele baunilha sob suas roupas, como seu eu fosse seu próprio cheiro. Sentia seu coração inseguro como se sussurrasse segredos com o meu pedindo abrigo em mim. Aqueles segundo pareciam eternos. E se pudesse, diria sim.

Cigarros. Nunca mais havia fumado desde que ela foi embora. E lá estávamos.

- Que flores lindas!
- É. É mostarda. Você sempre duvidou delas.
- São lindas.
Você é linda.

Nos beijamos exilando a tensão que nos cercava. Ela passava segurança, mas suas mãos não. Suas mãos suavam pelo meu corpo enquanto eu a despia e a cercava de dentes. Uma marca de cigarro que antes não tinha. Um olhar triste que eu não conhecia. Ela respirava em cima de mim.

- Você não deveria ter me encontrado.
- Você não deveria ter vindo para um lugar tão óbvio.
- Talvez no fundo eu quisesse...
- Pensei que fosse ficar em Champs-Élysées¹. Combina com você.
- Pensei em ficar lá. Mas combina com você.
- Sabia que iria te encontrar por aqui.
- Viva la résistance!

Uma longa pausa. Um longo beijo. Ela diz o óbvio:
- Eu vou embora.
- Pra onde?
- Pra longe.
- Eu acho que também vou. Alemanha ou Amsterdã, ainda não sei... Fiquei tempo demais aqui.
- A Alemanha engorda. E vai te partir o coração.
- Mais do que você eu acho que não.

Ela levanta. Pego três flores de mostarda e coloco em seus cabelos. Ela fica perfeitamente bela vestida só com flores. Como Paris. Eu não queria deixar a França, e não queria deixá-la. Mas que escolhas eu tenho? Ela sabe porquê estou aqui, que escolhas eu tenho?...

Silêncio.

- Quer ver a visão que eu tenho de Paris? - Ela concorda com a cabeça. Pego em sua mão e caminho em direção à sacada. Então, no meio do caminho, coloco-a em frente a um espelho e a abraço por trás. Dançamos a noite inteira. A última de várias outras últimas.
























¹. Champs-Élysées é uma larga avenida em Paris. É também uma das ruas mais famosas no mundo. O nome refere-se aos Campos Elísios, que na mitologia grega significa o Reino dos Mortos, onde só entrava as almas dos heróis, santos sacerdotes, poetas e deuses.

17 de janeiro de 2008

Venus As a Boy / Venus in Furs

Meus olhos fecharam-se e minhas pálpebras já não mais me obedeciam. Caminhava cego pelas ruas, porém despreocupado. Era um caminho de todo dia. Só via o que era necessário. Sendo assim, os olhos tornaram-se obsoletos naquela terra. Não havia mais função alguma para se usar a visão na rotina. Quanto descaso.

Sentia a brisa daquela noite. Um sopro delicado acariciava meu rosto. Esquecia meus tênis e sentia o que devia sentir. Andava cada vez mais rápido e arrancava minhas roupas. Elas nos fazem escravos. Aqueles que ainda tinham olhos, me olhavam. Suas vozes eram abafadas porque nada interessante diziam. Como sempre não dizem. Meus ouvidos não eram necessários para mais que aquela música em meus ouvidos. O chão cada vez mais distante se despedia de mim contente por aliviá-lo.

"Abra os olhos" ecoava como se fosse de dentro de mim. Passeava pelo céu gelado e me enrolava nas nuvens para suprir o frio. Aqui me sentia extremamente bem, nesse vazio. Sentia o vento cortar-me os póros fazendo-me sorrir. Eu queria mais. Queria o calor de uma estrela. E nada me impedia.

Era uma longa viagem. Conforme atravessava camadas de tempo e espaço, eu ficava mais velho. Cada vez mais. E mais fraco. Aquilo me consumia, mas eu só me permitiria morrer no calor do colo de Afrodite, na luz das estrelas. E lá pereci. Quanto mais me aproximava, mais escura elas ficavam. Quanto mais perto chegava, mais frio ficava. Meus pequenos sóis, minhas doces ilusões. Rochas retraídas e mortas como eu. Cansado, comecei a esfarelar e enrijecer. Já não conseguia me mexer. Aquela luz eram os olhos da paixão. Seu calor, era desejo. E pude então entender o porquê de todas aquelas estrelas no céu.

14 de novembro de 2007

Shoots and Ladders

Não podemos ver o vento, mas vemos sua vontade se manifestar. 1h21 e um barulho de porta bate no silêncio. Minha postura muda como a de um cão atento. Abro a porta do meu quarto e lá vou eu. Não temo. Na verdade, tomado as vezes por um pensamento insano-sociopata, eu sempre desejei isso.

Desço as escadas e olho o escuro. Conheço a casa melhor que qualquer invasor, mas acendo as luzes. Até hoje não sei por quê acendi aquelas luzes. Mas acendi. Todas. Esquivando nas paredes, sorrateiro. Nada. Portas fechadas. Nada.

Algo gelado encosta em minha costela por trás. Me gela e falha a minha perna. Uma mão cala minha voz e outra diz para eu ficar calado. Se essa era a hora de ter medo, eu estava cumprindo o roteiro. Manda eu acordar minha família. "Acorda quem tá vivo pra não morrer dormindo". Impotente, obedeço. Minha coragem definhou ao olhá-los. Eu não tinha maturidade praquilo. E qual a idade que se atinge maturidade pruma coisa desse tipo? Hun. Me revoltei, me acalmei. Ainda não tinha problemas com o ar.

Não tem telefone. Não havia sequer uma esperança de ajuda. Parecíamos carne fresca à leões famintos. Seu rosto coberto gritava abafado: "A chave!" Calma. Eu vou buscar. Sempre vigiado. Ele era minha sombra, meu fetiche, meu pecado. Me negou até um copo de leite na minha própria casa. Meu desejo maior. Vingança. E lá fomos nós buscar a chave. Nem sei de que chave ele estava falando, mas levei-o para o meu quarto. Um lugar simples, aconchegante, de paredes vermelhas.

O vento era a trilha sonora. Procuro a chave-que-eu-não-sei coincidentemente aonde guardava uma faca. Coincidentemente. Seguro-a como seguraria um amor caindo de um penhasco. Nada vai me impedir. Suas balas não vão me impedir. Que isso custe a minha vida se for preciso. Eu não ligo. Eu não tinha problemas com o ar naquela época. Minha boca estava seca. Meus olhos molhados. Deveria ser ao contrário.

Desconfiado e confiante ele se aproxima. Respira-vira-foi. Ele olha e ri. Eu olho assustado e rio. Então é assim, uma facada? Tão rápida, e quantos tecidos pude atravessar e sentir... Não solto. Não dói. Morrer não dói. Permaneço ajoelhado, minha faca é minha cruz e não solto. Então é assim, uma coronhada? E meu nariz empurra o corpo desequilibrado pra longe. Sangue. A faca permanecia na minha mão. Sangue. Ele olha desacreditado e me xinga. Olha em meus olhos com perdão. É só o que consigo ver de seu rosto. Soa mais sincero. Ele aponta a arma em minha direção. Mas antes que ele complete o ato, eu já estava lá. O rei agora sou eu. Ele encosta na parede. Minha primeira carne, minha semelhança. Minha primeira morte. O doce gosto da vingança. Um, dois, nove. Clic, clic, clic. Clic. Ele só repetia até perecer: "Um lugar simples, aconchegante, de paredes vermelhas..."



















Queria ver seu rosto. Queria saciar ainda mais minha sede de vingança. O copo de leite que não tomei. Tirei a máscara. Era eu quem estava morto.
"Jovem acorda no meio da madrugada, acende todas as luzes de casa, acorda família e se mata."