Sejam bem-vindos ao outro lado do espelho, onde tudo pode acontecer (e acontece).

Wonderlando é um blog sobre textos diversos, descobrimentos e crescimento. A filosofia gira em torno do acaso, misturando fantasia e realidade de dois amigos que se conheceram também por acaso, Alice - que tem um país só seu -, e Yuri - chapeleiro e maluco nas horas vagas.

Leia, comente e volte sempre... Ou faça como a gente e não saia nunca mais.
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22 de julho de 2011

Abajur

Acordei com o dia escorrendo no vidro da janela, mas já não chovia mais e o Sol brigava com as nuvens para se exibir. Ainda deitado no sofá da sala, inclinei a cabeça um pouco pra trás e vi a lâmpada do abajur acesa em vão no dia. Sentindo o corpo cansado e marcado de horas atrás, não quis levantar, mas o relógio anunciava o intervalo do meu sonhar.

O cheiro de mijo, morte e cigarro tomava conta da manhã. Fazia tempo que Allan não aparecia, estava maior, crescido, seguro como sempre com aquele olhar confiante, melancólico e disperso. Nunca o vi dormir, mas está sempre em outro lugar. Estático em pé no quintal, decorava o cenário, mas não fui falar com ele.

Meus pés descalços desviavam os passos naquela cena pós-guerra: cinzas, caximbos, seringas, bitucas, garrafas, latas, papéis, vômitos, restos... Reparei que um não respirava. Um amigo – outro. Não reagi. Allan veio e me abraçou e isso foi tudo que podíamos fazer. Acho que o abraço foi pra saber se estávamos vivos, aqui presentes em carne e osso, sabe?! Tudo pode ser tão confuso quando se usa tanta coisa toda hora que às vezes sinto como se nada disso fosse real, e penso que talvez esse seja o ponto da coisa toda, ultrapassar barreiras. Senão... Se essa destruição é somente fuga... Hoje um não acordou.

Meu estômago pedia sólido pra tentar completar os vazios. Nosso café da manhã era as sobras daquele passado no fundo de uma garrafa, na raspa de um pó e na pontinha de um beque sujo de batom. Peguei algumas coisas que mortos não precisam e fui embora, enjoado com a claridade, enjoado de ter que despertar mais um dia como alguém que nunca descansa, que não folga as dores com risadas, que não sente machucar as perdas. A anestesia que as drogas sustentam só deixam sentir os músculos amassados e as marcas inflamadas em veias estouradas. E as portas abertas no cérebro fazem da vida algo tão passageiro, deslocado e sem graça quanto pessoas num ônibus lotado.

O vento fresco das oito me dava atenção pra tentar me carregar praquele dia, pra hoje, pra mais pra frente... mas me sinto como a luz do abajur.

25 de outubro de 2010

Sad Pony Guerilla Girl

Você diz que eu sou “loca” porque eu sou sua garota. Eu quero que brinque comigo, mas te quero sério, porque eu quero segurar a sua mão em público, poder posar nas fotos com o seu rosto no meu, sentar no seu colo para ouvir as suas histórias e chorar quando eu quiser. Sem vergonhas, sem vergonha!

Você sempre me deixa pra trás e me veste como um garoto, me disfarça porque eu sou seu amor secreto. Você diz repetidamente que nenhuma mulher ou garota te fez sentir assim antes. Se encanta com meu sorriso e meu jeitinho de quem brinca com a vida, sem responsabilidades. Você diz que eu sou estúpida por querer ser sua. Uma menina triste.

Eu quero contar pro mundo todo, você pede segredo. Mas eu quero contar quando eu brinco com meus carrinhos e você me pega por trás no banco de trás do meu carrinho. Cavalgando meu pônei eu quero te proteger e fugir com você. Me ama com seu corpo forte e cheio de tatuagens, veste minhas calças, arruma meu sutiã e vai para casa junto a suas outras crianças.

Eu vou te segurar quando tiver muito pesado. Me dê sua arma,"chico", descanse em meus braços, descanse em meu corpo. Você diz com seu sotaque latino que eu sou “loca” por querer ser somente uma garota. Eu quero ser a sua garota, seu amor eterno. Bermudas não me dizem nada, eu quero usar vestido pra sentir suas mãos subindo pelas minhas pernas. Deixa eu brincar com sua arma, vamos passear pelos bairros e atirar em quem for contra nós.

Eu vou ficar quieta e vou contar para todo mundo. E depois eu vou crescer e ficar sem graça e você vai querer me matar. Eu terei minha própria arma para nos proteger. Eu vou ficar quieta, mas vou contar até você descobrir. Então serei só uma menina triste novamente, vestida de guerrilheira com minhas roupas de menino cavalgando sozinha meu pônei, com meus carrinhos e minha arma...

16 de agosto de 2010

A Batalha Jedi de Equus caballus em Love Dream num Caleidoscópio Fluorescente em Câmera Lenta

A música cobria todo o som ao redor. Love Dream tocava enquanto meu reflexo e eu brincávamos de Jedi com lâmpadas fluorescentes compridas, dessas de escritório. Em câmera lenta, estourávamos um no outro e respirávamos aquele pó de vidro que subia no jardim. As faíscas pareciam mini fogos de artifícios que confundiam os insetos com um ano novo fora de época. A luz cegava lentamente e dominava o ambiente, deixando tudo pálido e com aspecto frio.

Ao piscar, meus pesadelos assombravam por um período longo de tempo. Eu abria os olhos e a luz me obrigava a fechá-los. Quando se aperta os olhos com as mãos, as cores alaranjadas e roxas tomam a vista do cérebro, fazendo tudo ficar divertido como um caleidoscópio natural. Enfrentava as luzes coloridas porque era gostoso e curioso descobrir outros olhos em mim. Minha cegueira temporária era o motivo das minhas risadas.

Cavalos brancos relinchavam e corriam entre nós, pisando e deixando explodir mais vidros e luzes pelos ares. Eles passaram por mim e pude sentir seu cheiro enquanto era ignorado pelos equinos. O vento me dava a sensação de liberdade e pude flutuar baixinho por um instante. Tudo bem devagar, como se estivesse tudo acontecendo embaixo d'água.

Quando eles se foram, Allan apareceu com corpo de Homo sapiens e cabeça de Equus caballus segurando um porta-joia chinês com a única gravação original e inexistente da canção tema deste texto. Entramos todos na caixinha mágica e dançamos a triste valsa, eu, Allan e meu reflexo que reviveu no espelho de ilusões históricas e segredos guardados ali.

21 de maio de 2010

Monstro Embaixo da Cama

Allan me acorda. Está frio. Quando finalmente resolvo atender a seus apelos, o vejo dormindo ao meu lado. O sono dos mais pesados. Allan não acordou aquela noite. Era cedo ou tarde, não sei dizer exatamente o quanto três horas da madrugada significam. Lendas urbanas dizem que é a hora do diabo. Eu sou o diabo, ao mesmo tempo em que não acredito.

Acordo Allan, que quando acorda, me vê dormindo ao seu lado. O mais profundo sonhar. Ele está cada vez mais comigo e se faz cada vez menos eu. Olha as horas, mas o que representam esses números? Lendas urbanas dizem que Allan não existe. Ele se acha deus.

O acompanho até a saída de mim, quando dei por mim, eu é quem havia saído. Trancado pra fora, nu, vestindo apenas uma forca ao redor do pescoço. Corro para as colinas, a inquisição me aguarda. Allan está lá a minha espera sem carta de alforria. Todos estão presentes. Me encapuzaram e preparam para o ritual. Meu pescoço quebra, Allan cai.

Eu acordo caindo. Allan dorme ao meu lado. Acorda assustado, caindo. Me procura. Acordo. Allan acorda. Eu sou o monstro embaixo da cama.

7 de maio de 2010

Ajuste os controles para o coração do Sol


A neblina que deveria nos impedir de ver faz enxergar muito mais. Fumaça contra a luz. Allan olha a luz e sente seu calor, encosta sua mão bem devagar até tapar parcialmente o brilho branco. Allan é o eclipse do Sol.

Toco uma canção na extensão de mim. A vibração deixa o corpo leve por dentro e mais pesado por fora, me domina a ponto de não conseguir parar ou controlar as notas. Allan dança hipnotizado a canção dos condenados.

Ele me dá um beijo e sua saliva é ácida. Desmaio e caio de uma vez no chão. Quando acordo estou num lugar de terra vermelha e céu laranja, uma terra gelatinosa, um laranja forte.

Derreto.

Calor.


Vejo uma janela pairando no ar. Ela dá pra outra janela, que mostra uma outra e dentro dela, uma sombra que sai correndo sem me dar a chance. Allan então aparece com duas bicicletas, ele nunca diz nada, eu sempre sei o que ele quer dizer. Vamos pedalando até as estrelas.

As nuvens do Sol são chamas ardentes que não nos queimam e se desfazem no ar. Um ramalhete de lótus voa com a gente, espalhando pétalas por todo lado. Allan pedala mais rápido e mais rápido e atrás da gente, nosso rastro arco-íris e as sombras tentando nos alcançar. As cores são sintilantes, quentes, tocáveis... Mais que qualquer outra coisa viva ou sólida.

Meu coração pulsa e o ambiente pulsa com ele. Me sinto vulnerável a esses fenômenos. Saímos da Grande Estrela. Allan então me diz: - Você sabe as coordenadas. Ajuste os controles para o coração do Sol!

Fomos e nunca mais voltamos.

Até voltarmos.Pulsando.

9 de dezembro de 2009

Life in a Glasshouse

Um pequeno som me destrói. É mais um ruído constante, sonante. Segurei meus braços até não senti-los mais e me estapeei como outro alguém. Ecos devolvem minhas palavras distorcidas. Será que é assim que soo?, penso. Não sou levado a sério.

A casa é de vidro e espelhos lisos sem penduricalhos para distrair. E mais uma vez eu estou perdido aqui com meu único amigo. Ele tenta fazer um papel de parede de tom pastel, um marrom apagado que não é bege e é fraco demais para ser marrom. É triste... porque não é nada, combina com a gente. Allan desenha um sorriso na esperança de sorrir. Eu gostaria de estar no papel de parede da casa mais verde para poder enfeitar. Brincar de correr, me esconder e cantar. Mas o conhecimento me destrói. Eu e ele ficamos ali, sentados no chão vazio da casa de vidro. O único cuidado paliativo ali pra ele sou eu – ele pra mim. Esperamos ansiosos pela Morte, ou pelo final de algo que já começou, o fim.

Nos olhamos multiplicados nos reflexos, nus e sem cuidados. Tenho feridas que não se curam porque insisto em arrancar sempre a casquinha. É inconsciente, prazeroso, quando percebo, já foi. Allan mastiga e engole minha pele morta e me devolve seu sangue em troca. Somos nosso próprio alimento, nos consumimos. Em nossa multiplicidade, somos mais, assim como nossos anseios, nossa fome, nosso desejo e desespero. Mas não o desejo mais do que o já tenho. Por ele, digo o mesmo. Claro que eu gostaria de sentar e papear, mas me ouviria e não agüentaria. Desespero.

Um pequeno som me destrói. É mais um ruído constante, sonante. Algo que não consigo controlar. Minhas fraquezas são muito fortes. Ecos devolvem minhas palavras distorcidas e racham as frágeis paredes. Será que é assim que soo? Mais um pouco os cacos se espalham pelo chão, e então mais um estranho erro a cometer. Allan e eu, sozinhos, cada qual em sua solidão. Não nos dizemos, mas ouvimos o pequeno som que nos destrói. Evitamos pela vida. Na casa de vidro. De Espelhos.




*imagem de Adriana Peliano

23 de maio de 2009

Ný Batterí


Escrevo essas linhas e as costuro em minha pele. Grampeio arames farpados em minha boca sangrenta. Estou trancafiado numa jaula enterrada no fundo do mar Morto. Homens nus me espancam até minhas pilhas ficarem fracas. Então o libertador me carrega e estou pronto para outra. Entre aspas.

Perdi o tempo, o jeito, a fala. Só não babo porque o monstrinho dentro de mim fica me lembrando “suga essa saliva, seu porco imundo”. Daí eu sugo. Mhhe hmer-oe, tentei dizer arrependimento. Não saiu. Pago pelo que eu fiz, mas me liberte depois, eu imploro.
Allan me acorda apontando cavalos. Me mostra o passado através da janela, tempos atrás onde cavalgamos. Quando éramos dominantes e destruíamos tudo. Inclusive corações amantes.

Eu não digo nada, porque o arame continua em minha boca, rasgando uma velha ferida curada. A ferrugem de meus machucados tornou-se minha alma. Prefiro me desligar, não me carreguem nunca mais.


Aftur Með Gaddavír
Í Kjaftinum Sem Rífur Upp Gamalt Gróið Sár
Er Orðinn Ryðguð Sál

Rafmagnið Búið

Mig Langar Að Skera

Og Rista Sjálfan Mig Á Hol

En Þori Það Ekki
Frekar
Slekk Ég Á Mér


Aleinn Á Ný

9 de abril de 2009

Horses in My Dreams

Encontrei. Allan estava febril. Embaixo das cobertas. Febril embaixo das cobertas foi onde encontrei Allan. Em seu quarto, sozinho, sorrindo. Olhos fechados. Allan estava sorrindo febril e sozinho em seu quarto. Foi quando eu o encontrei. Olhos fechados.

Não bati na porta, fui entrando. Encontrei. Sintetizadores faziam uma música hipnotizante. Foi onde encontrei Allan, embaixo das cobertas com uma música eletrônica febril, agonizante. Hipnotizante, quero dizer. Sonhava com cavalos, porque podia ouvir o galopar. Allan sorria. Não bati a porta. Já não estava mais sozinho. Foi quando eu o encontrei.

Allan tremia em gozo. Em seu quarto, sozinho, sorrindo, sintetizado. Não abriu seus olhos. Sonhava com cavalos e música eletrônica hipnótica. Pude ouvi-los relinchando. Seu amor indo embora com os cavalos... De olhos fechados nem me viu. Allan estava febril embaixo das cobertas.

Tive pena por estar preso em sonhos, sonhando a liberdade. Tive pena por estar livre em sonhos, enquanto eu estava preso em realidade. Gozava inocentemente. Quis compartilhar o sonho. Fui entrando. Hipnotizado. Foi quando o encontrei. De olhos fechados nem me viu embaixo das cobertas.

A garota estava lá, a minha espera, pronta e aberta para cavalgar. Sintetiza a minha dor. Mas não conseguia enxergar seu rosto. Allan estava febril e sorridente. Sonhava com cavalos, podia ouví-los galopar. Eu estava preso aqui, embaixo das cobertas, sonhando com ela que eu não sei dizer. Allan goza hipnotizado. Ouvi a música e o relinchar dos cavalos. Pena. Foi quando os encontrei.

Como ondas, como o mar, em câmera lenta, andando o mundo inteiro, livres, livres, livres, livres, livres...

8 de março de 2009

Asilo Magdalena

No centro da Terra do meu coração eu havia chegado. Cinzas do que um dia foi chama acesa de esperança, que dançava ao som de minhas fúrias. Meu medo dominando meu corpo que responde com dores. Meus músculos doem, meu estômago dói, meu peito dói, minha cabeça... cinzas.

Enfermo llegue, y para componerme ando de vago. Me perguntava como isso era possível, eu estava vivendo outras e outras vidas e todas haviam falhado. Eu havia fracassado. Eu me tornei alguém que eu odeio só pra fugir de quem eu odiava ser. Quando eu cheguei no Céu eu desejei o Inferno. En el infierno me duermo, porque el infierno es la unica verdad en mi vida... Há de ser da minha Natureza. Há de ser meu fardo a carregar. Há de ser minha vida.

O escuro me mantém e eu enxergo muito bem. Allan se calava toda vez que entrava alguém. E toda vez eu o condenava. Cuando yo te vi en la lluvia me prometiste tu sangre. Yo no me quedo... Na minha vida. Eu carrego uma navalha para afundar em minhas dores e manchá-las com meu ódio. Mas nunca o feri... Não me dê tua obediência, senão te mostro minha pele de lobo, débil e cheia de fome. Estrella de la mañana, Samael te persigo a ti. Y si me quemo sin alas, ademas me muero por ti. Morro por ti.

¿Pero que pasa contigo?



Encontrei Allan no caminho para o Sol. Pela primeira vez estávamos em lados opostos. Eu parecia um meteoro flamejante e raivoso indo bruscamente em direção ao centro da Terra, ele mais parecia Estrella de la Mañana na forma de um lobo albino de brilho ofuscante e olhos negros. Onipotente e ausente como de costume. ...Como ves aquí el desoye ya empezó...

Ele via meu rastro de dor por toda a atmosfera, eu via todo seu caminho desconexo e decifrava sem muitos esforços o que ninguém conseguia. Allan era único, e por ser único, não precisava de mim. Eu precisava dele. E ficava me perguntando se eu era único. ... Sofoco poco a poco todos...

Passou. E eu fiquei. Por que eu não poderia (não) ser o lobo dentro de mim, voando em direção ao Sol? Por que eu não podia ser um Okami igual Allan? Ele era meu Salvador, eu mal conseguia me salvar. Ele também falhou, e caiu comigo. Dizem que melhores amigos te tiram do buraco, e não que se afundam com você. Allan não era melhor nada, mas está fazendo pezinho pra me tirar de lá.

En que sentido sopla, no crees en na. Cada día que pasa te veo peor, te me estas poniendo como un tenedor, pica que pica y pica, y al final no enganchas na! ...
Minha cabeça anda tão confusa. Tudo parece tão perplexo. Enquanto eu lhe pergunto que pasa, Allan me responde “¿Pero que pasa contigo?”.

29 de janeiro de 2009

Agavero

Cheguei e deparei com Allan se masturbando em frente ao espelho. Quase inerte. Nem reagiu ao meu susto. Oi Allan. Definitivamente não iria ficar ali assistindo ao término do show. Ao término gosmento do show. Tudo estava como sempre. Como sempre, andei por toda a casa a procura de algo que ainda não sei. Resolvi deitar um pouco. Adormeci sem querer.

A estrela maior me olhava e julgava minhas ações. Eu sou um escritor, qualé?!, me dá um tempo! O Sol sorria pra mim e girava 360º anti-horário. Era um cículo, não uma esfera. Nada de estrela. Era só. Só e só e só... igual a gente quando cresce. Crescemos. Acho que Allan cresceu mais que eu.

O Sol tenta ser mais quente, mas é a Agave que aquece meu corpo. Mas meu coração, não. Meu coração pertence à Cláudia. Hmmm Cláudia, deliciosa... Frango com curry. Um gole e outro, mãos e mãos. Cláudia de minhas tentações, de mil formas e sabores. Seu buraco era de rosca, como eu faria? Sou tão tristonho e dramático. Se o meu pau é prego e o rabo dela só entra parafuso, problema...! Foda-se!, ela que se foda. Toda oferecida... Falsa. PUTA!!! POW! Um tiro na testa e um copo intacto, vazio, inteiro. WB teria orgulho de mim. William Burroughs? Não, idiota, Warner Brothers!

Acordei melado, com babosa de agavero no pau. Miles Davis estava tão alto quanto eu. Tocava tão alto quanto eu, se é que vocês me entendem!, he he he "Jazz é como o blues, mas com um pouco de heroína".
Allan estava nu na minha frente usando uma máscara de espelho. A primeira coisa que vi foi um xis em cicatriz em seu peito. Ele nunca havia se mostrado. Ele nunca havia se mostrado dessa maneira. Crescemos. Allan cresceu mais que eu. Ou eu diminuí.

Com o pau na mão, pronto para atirar, me disse adeus e me tirou a vida. Um mescal passeava em seu corpo. Olhei em seus olhos e me vi masturbando a mim mesmo. O espelho de meu próprio reflexo.



"SHOOT THE BITCH AND WRITE A BOOK! THAT'S WHAT I DID" - Bill!


*Uma homenagem à perfeita combinação de Tequila, William "Bill" Burroughs, Lourenço Mutarelli, solidão e Miles Davis (e toda a geração fusion e bebop como Bill Evans, Charlie Parker, Chet Baker, ...).

9 de setembro de 2008

O Diário de Allan

Ufa, até que enfim estamos de volta. Estava de férias com o Allan e fizemos um diário:

04 Julho: No acampamento, Allan arranjou uma bandeira gigantesca dos Estados Unidos. Como havíamos esquecido nossos cobertores, não íamos mais passar frio. Limpei meu cú com a bandeira e Allan a comeu. Ainda usamos o pano patriótico como toalha de mesa e fizemos uma fogueira. Não passamos frio.

07 Julho (3h22): Allan acordou agitado e se debatendo, foi até o rio e chorou porque não enxergava o próprio rosto no escuro. Me convenceu a chorar porque também não conseguia vê-lo, nem a mim. Choramos com olhos ausentes.

08 Julho (16h): Montamos uma fortaleza feita de terra. Revelei que tinha medo da Morte. Allan começou a cavar e comer a terra e esticou a mão me oferecendo um punhado com aqueles olhos pidonchos: "Coma a terra antes que ela te coma e não mais temerás" - Estava faminto.

14 de Julho: Estamos em guerra, é uma emboscada, fujam todos!!

17 de Julho (9h): Onde estou? Quem sou eu?

20 de Julho: Tudo está conforme o planejado, aniquilamos o inimigo e temos comida para mais uns 18 dias. Eu estou ferido, mas estou bem. Brincar é coisa séria por aqui.

22 de Julho (0h21): Ontem eu ganhei uma festa surpresa com direito a fogos e uma viagem espacial e tudo mais. Respirar uma estrela é muito legal, estou brilhando no escuro até agora.

25 de Julho: Hora de arrumar as malas, Allan não acredita em malas, nunca sabe o que trazer, então não trás nada. Ficou pelado a maior parte da viagem. Fiquei também até enroscar meu pinto num cacto, tive que arrancá-lo.


26 de Julho (12h12): TCHAU!
Allan: OI!
Tudo bem, depende do ponto de vista.

27 de Julho (voltando pra casa): Allan me mostrou o que sabia de inglês:
- Câmon Éllan iú fóquin bíti, transleite vaqueition.
- Vacação!

30 de Julho: Ficamos indiferentes na casa do Allan, como se nada tivesse acontecido. O efeito tinha acabado e nos voltamos para nós mesmos. Allan não demonstra emoções, e é muito difícil decifrar seus sentimentos por conta disso. Mas não sei, ele me olhou tristemente hoje. Acho que a culpa é minha.



11 de julho de 2008

Come On, Come On Now Touch Me, Babe.

Toda vez que vê um gordão, Allan surta. Ele sente um desejo impulsivo de bater em sua bunda gigantesca ou apertar suas tetas, como se o gordão fosse a Pamela Anderson.


- Vai lá Allan, pega a Pamela de jeito, pega!



Nada o impede, então o apoio. Os gordos e as gordas fingem que não, mas adoooooram!

27 de junho de 2008

Claudia

Todo dia quando vou mijar, logo quando acordo, elas estão lá, olhando para mim. Fico imaginando o que ficam pensando... Todo dia ficam lá me esperando no banheiro, não importa a hora. Tentam puxar assunto, mas tudo parece tão vago, o sorriso parece tão infeliz. Será que não percebem que estão invadindo a minha privacidade? Devem querer perdigotos de urina na bela maquiagem.


Loira, morena, japonesa, olhos claros, cabelo crespo, não importa... Elas me olham sempre com os mesmos olhos apáticos e imagem posada me prometendo libido e segredos de sexo. De mês em mês é uma, dizendo sempre a mesma coisa, querendo me vender sempre as mesmas futilidades. Externamente encantadoras, carregam o mesmo nome... Um dia mijo nelas todas.

26 de junho de 2008

Allan Psychedelic Breakfest [parte 2]

Eu não tomava café até ele aparecer. Talvez fosse a única coisa que nos unia, manter um relacionamento com Allan era uma linha muito fina e sensível. Sempre falo que nossa amizade é um fio de cabelo, ele sempre fica puto com essa afirmação e sai gritando uma onda de pressão "cábelO, caBÊlo, CABELÔ" até ensurdecer meus martelos, bigornas, estibos, tímpanos.

Um dia entrei e tinham sete Claudias¹ -- mulheres gatas, de todos os tipos, nuas. Pensei "caramba, aqui tá tão cheio de vida. Só aqui tem umas - faço as contas olhando pra cima como quem tenta enxergar o próprio cérebro - quarenta e nove!" Alguém viu o Allan? Ele estava dentro de uma delas rindo que se acabava.

Teve uma vez que nos envolvemos com _____. Allan sempre me dizia "Vai, descarrega todo o pente, vai, mata toda essa gente!" Fiz, mas não porque ele mandava, mas porque era o certo a fazer. O ódio tá na mente, ele só instigava. Ninguém morre inocente - esse era nosso lema. "Eu fui atingido! Rápido, Allan, chama alguém, fazalgumacoisa!!!"

Era só vídeo-game, essas coisas mexem mesmo com a gente.
Voltamos ao café-da-manhã, tinha geléia de morango por toda parte...



¹. Vocês não sabem quem é a Claudia né?! Amanhã.

1 de junho de 2008

Alan's Psychedelic Breakfast

Ontem a noite acordei quando alguém apertou minha mão. Era minha outra mão¹. Acordado e sem conseguir dormir, resolvi caminhar um pouco. De telhado em telhado percebi as casa. Eu cresci bastante nos últimos anos, os muros também. Logo, deduzi que sou um muro e passei quase um dia inteiro parado em transe até que me encontrassem e me arrancassem os tijolos. Ainda bem que não estou em Berlim.

Ontem a noite acordei quando alguém apertou minha mão. Era minha outra mão. - O que está fazendo, quer me matar? Que susto! - Analisei o cômodo escuro, meus olhos perceberam tudo. "Alaaaan, o café tá pronto!", que voz é essa? Eu moro sozinho, e não moro aqui. Eu não moro. Desci as escadas, uma moça que parece ter vindo dos anos 50 estava me aguardando, nua e sorrindo com um copo de leite na mão. - Oi, quem é vo... - ela joga o copo pra cima e deixa quebrar em seu busto, fazendo escorrer todo o leite e um pouco de sangue pelo seu corpo. "Vem, bebe, eu sei que você gosta assim".

Eu acordei odiando hoje com vontade de odiar amanhã. E não fazer nada a respeito, amanhã eu faço. Mas o amanhã de hoje não é o hoje de ontem? Caminhei até um lago próximo à casa. A moça pin-up veio correndo e pulou aflita no lago gritando e questionando por quê eu não fiz nada. Lembrei que não sabia nadar, nem ela, e talvez tenha pulado propositalmente por isso. Era seu reflexo, então se afogou na própria imagem. Voltei para a cozinha e bebi o leite misturado com esperma e sangue do chão. Assim começou meu café da manhã.

("Oh..uh..me flakes… scrambled eggs, bacon, sausages, toast, coffee marmelade..I like marmelade… pourridge..any cereal, I like all cereals…oh god…")²






¹. Frase original de William S. Burroughs no livro Almoço Nu. Genial.
². Auto-explicativo. Não entendeu, joga no Google.