Sejam bem-vindos ao outro lado do espelho, onde tudo pode acontecer (e acontece).

Wonderlando é um blog sobre textos diversos, descobrimentos e crescimento. A filosofia gira em torno do acaso, misturando fantasia e realidade de dois amigos que se conheceram também por acaso, Alice - que tem um país só seu -, e Yuri - chapeleiro e maluco nas horas vagas.

Leia, comente e volte sempre... Ou faça como a gente e não saia nunca mais.

29 de janeiro de 2010

A não significância do cotidiano




A densidade dos tons pastéis naquele calendário de anos passados representa meus dias. Dias mortos, desatualizados, sem referências, perdidos no cerne mais profundo da decadência. Às vezes quero que morra todos esses dias e números e cores e sons, aí então meu ouvido tapa e abafa o som, zunindo uma freqüência modular contínua. A audição é nosso único sentido involuntário.


No caderno, rabiscos irresponsáveis e memórias momentâneas. Escritos e desenhos da inconsciência. Minha mão tem o alcance limitado, meus dedos são fracos, quebráveis, e nem sempre é fiel à minha cabeça, que voa além do visível e da compreensão em busca de sentindo. Não fazendo sentido algum. Em busca de sentido. Não fazendo sentido algum. Em busca de sentido. Não fazendo sentido algum.


As teclas que batem na tela tiram a personalidade da minha letra, mas não das minhas palavras. Coço a cabeleira suja e junto aquela camada branca do couro da cabeça embaixo das unhas. Um pouco de sangue para não deixar o costume de sangrar. A sujeira de fora combina com a de dentro.


Tudo sempre me incomoda. A cama mais quentinha, o desenho mais engraçado, as lágrima das gargalhadas de ontem, a companhia mais amorosa. Minha carne. Nessas horas, tenho vontade de sumir ao meu lugar, que há tanto não visito. Para o meu interior. A contravenção é que estou sempre tentando sair de lá, daqui, quero dizer... Sei lá, enfim, estou sempre tentando fugir e dar um basta a isso tudo.

Sem sucesso, fico com a densidade das cores, os dias mortos, as pessoas zumbis, meus rabiscos, meus dedos quebráveis, minha cabeça fraca sem sentido, as teclas, a sujeira embaixo da unha, sangue, os incômodos, as brigas, as não-brigas, tudo que a gente diz e não diz, minha carne, a contravenção, lá, aqui, a isso tudo e a audição, que é nosso único sentido involuntário. A não significância do cotidiano até que é bastante pra quem é quase nada.




involuntário.algum.dentro.tudo.nada.ilustração:rafaelsica.

27 de janeiro de 2010

Catorze

Não me imagino sem você.
Logo, não há vida sem você.
Quero dever-te meu futuro.

Feliz aniversário!


"Há qualquer coisa no amor sem egoísmo e abnegado de um animal que atinge diretamente o coração de quem tem tido frequentes ocasiões de experimentar a amizade mesquinha e a fidelidade frágil do simples Homem"

[O Gato Preto - Edgar Allan Poe]




25 de janeiro de 2010

Um Lucky Strike não te substitui

Faz algum tempo que ela não me acompanha. Nas noites é quando mais sinto sua falta, quando antes de deitar, nos beijávamos. Eu a dobrava, acariciava, lambia... Era tão bom, tão sincero.

A gente era fogo. Só ela me fazia voar, com seu jeito particular de idealizar os pensamentos. Quando deitava com ela na minha mente, via um mundo diferente ao seu lado. Tudo fazia sentido, eu ficava bem e alinhado. Ria, gozava, afundava no colchão e os sonhos eram o que eram.

Desde que foi embora, minha vida perdeu um pouco as cores. Os desejos já não desejo tanto assim, a comida perdeu o sabor, as piadas perderam a graça, a música e o sexo continuam bons, mas não é a mesma coisa. Às vezes acho que, na verdade, nada tem graça e a vida não pode me oferecer algo melhor.

Agora observo a madrugada sem tê-la em minhas mãos, em meus lábios. Observo o brilho fraco das estrelas pensando onde estaria se ela estivesse comigo. Vejo a noite passar insone e não me encontro em lugar nenhum. Pego um cigarro, acendo, trago. Trago. Não sinto, não sinto mais, não é ela. Um Lucky Strike não te substitui.


20 de janeiro de 2010

Baba santa

Um casal, na beira da rodovia, olhava algo no chão, perplexo. Isso nunca é um bom sinal. Eu sabia que não devia olhar – e, nisso, sei me controlar muito bem. Mas a audição é o sentido mais difícil de bloquear. Logo, não pude deixar de ouvir, apesar de toda minha concentração. Já perto, notei que a perplexidade era mórbida e doente, olhar de curiosidade sobre a carne (olhar este que funciona tanto quando a carne significa libido, quanto quando significa morte) – e não havia nada de filosófico sobre o além da vida em seus olhares. Na verdade, estou julgando, pois, apesar da indignação na fala, a permanência a olhar o que estava jogado na sarjeta me dizia outra coisa

Ao passar, pensei que poderiam ser tantas coisas, mas essas tantas não despertariam a curiosidade que vi, do casal, como de um grupo de mulheres que passavam longe, mas cientes do que estava no chão. Estranhei, me assustei. Nestes poucos segundos, percebi que deveria me afastar do local, o mais rápido possível. Tracei minha fuga e meus olhos desenharam o contorno mais próximo da cena o possível, nos limites de tudo, pois eu já estava perto demais quando compreendi o que era. Ouvi a moça descrever com indagações sobre os homens o que viu. Eu quase não ouvi e quase não vi... queria não ter quase nada.

Na volta – foi um caminho de ida e volta, infelizmente–, passei o mais longe possível. Secretamente, quis me jogar, abraçar e beijar loucamente uma carne queimada dentro de um saco, o que não faz sentido algum, pois tudo que eu amo ali já tinha ido embora. Então, eu começo meus questionamentos sobre os homens, sobre a vida, sobre a realidade e fantasia, mesclados com minha dor e meu choro. Acabei passando longe de algo que me chamava. Espero um dia responder ao chamado de uma forma mais eficaz que numa pequena reflexão.

Em outro pedaço do caminho, porém, já longe do local, vi um jovem cão. Não resisti em deixá-lo morder minhas mãos e me puxar pela barra da bermuda. Poucas coisas me fazem tão feliz como isso.

18 de janeiro de 2010

Espectadora de mim

Tâmara Porto Medeiros é minha suplente. Quando eu não estou bem, ela toma meu lugar no palco. Para isso, ela me segue nos ensaios, decorando minhas falas, vivenciando minhas cenas e recolhendo informações sobre minha personagem, para poder me substituir sem muitas diferenças. Minha suplente me acompanha em todas as peças que faço, sabe agir como eu. Logo, quando inicio uma nova peça, ela só precisa conhecer a situação atual, como é o momento desta personagem e imprimir meu estilo, que ela conhece muito bem.

Em cada nova montagem, que duram por volta de um mês, eu tiro uma semana para mim. Às vezes porque fico doente, às vezes porque quero dar uma chance para ela, que tem talento. Não precisa viver sua vida inteira como suplente. Por isso dou essas chances para a Tâmara. Além de ser um descanso para mim, é interessante observar-me de fora, ser espectadora de mim.

Lá vai ela... quebre uma perna! Sempre fico aqui, atrás das cortinas, sussurrando as falas com ela. “Mas não foi isso que aconteceu!”, ótima performance! Agora, a personagem se desculpa pela ligeira exaltação... “porra, eu disse que não foi isso que aconteceu! Eu cheguei lá e tudo tava jogado, eu não destruí suas merdas, não quero nem tocar nas suas merdas”. Tâmara, o que é isso? Essa não é a fala! Você se desculpa e abraça ele... “sempre você que está certo, sempre! Homem é tudo a mesma coisa, e eu sou cheia de chavões e estou pouco me fodendo!!! Se você é um clichê de homem, eu serei um clichê de mulher! Vou ser uma louca insana e gritar loucamente!”. Oh, não... Tâmara! Você está destruindo a peça! O cara que contracena com você nem sabe como reagir, você está sendo uma louca mesmo... preciso entrar no palco! Não, senhor, eu sou a atriz principal, eu preciso tirar ela do palco! Mas como assim, sou eu! Nos vemos todos os dias nos ensaios! Ela vai arruinar tudo! “Quero que você vá pra puta que pariu, que vá se foder, você e sua arrogância de merda! Você não serve pra nada, porco estúpido! Olha o que eu faço com seus preciosos livros! E com seus filmes! Tudo é mais importante que eu! TUDOOOOOOOOOO! VOU QUEBRAR TODAS SUAS MERDAS! E você saia daqui, que não agüento nem olhar pra tua cara!!!”.

Ela se calou, graças a Deus! Vai, diga algo cara! Nossa, ele está em choque... oh, não, e agora, o que ela está fazendo?! “Me desculpa meu amor, não me deixe, eu te amo, por favor, não me deixe, me desculpa! Eu não sei o que aconteceu comigo, por favor não vá... olha, olha pra TV!” – um comercial de ração? – “Poderíamos ser nós dois e o Totó, uma família feliz, oh não, não se vá, por favor! Eu sou uma idiota, não te mereço, mas não se vá, te amo, não se vá”. Ela está chorando e implorando? Como assim? Ela está em prantos, soluçando... ela não consegue nem respirar! Ela vai ter um treco! “Por favor!!!! Olha pra mim, estou me arrastando e suplicando, eu não sou nada sem você, por favor, não me deixe, te imploro! Olha pra mim, eu não existo! Eu vou morrer se você me deixar, vou morrer!! P-por favor, huh, por favor, não não não me deixe, uh, oh, não, eu não sei o que que, uh, fazer sem você!!!!! Eu não sei eu não sei! Você é tudo pra mim, tudo, p-pra mim, meu mundo, minha v-vida, nada faz sentido!! Eu te amo, te imploro, por favor, o que eu, huh, o que eu vou fazer????”.

Ela parou. De gritar, de berrar, de chorar, de soluçar. E deixou o palco. Eu entrei, para terminar a cena. Pedi desculpas e contornei a situação de forma sensata. Fiquei semanas sem ver Tâmara. Até que, um dia, ela reapareceu. E eu bem que precisava de uma folga. Então, dei outra chance a ela. Novamente, ela gritou, bateu, chorou, surtou. Sempre me esqueço que sua performance nunca muda, é sempre um surto. E não há nada que eu possa fazer, ela faz parte de mim.

“Eu choro vendo comercial de ração, e daí?!” - T.P.M.

13 de janeiro de 2010

Só algo que eu fico pensando...



Eu dependo do Sol, pela esperança dele me dar o que preciso.

Quando estou na frente de um muro, consigo olhar em seus olhos. Então posso senti-la.

Quando estou na moto, eu gosto de olhar minha sombra no asfalto. Às vezes me desligo com o desenho da minha forma no chão. Devo ter causado alguns acidentes, que ficam apenas no meu retrovisor. Mas eu só olho pro chão.


Não é narcisismo. E só que, eu fico pensando se... Deixa pra lá, vai soar estúpido.

Euficopensandoseeupudessetrocardelugarcomela...
Como seria. Deve ser infeliz ser minha sombra. Eu que sou eu tento fugir de mim o tempo inteiro, imagine não ter essa opção, deve ser um pesadelo. Tenho dó dela. Enfim, tenho dó de alguém.

As linhas que dividem as pistas criam vida e dançam minha partida. Pois estou sempre partindo, nunca indo ou vindo. Sempre me despedindo dos amigos e amores, como se fosse a última vez. Eu só parto. Desde que nasci.

A minha sombra me segue nos atos e sofre o dia inteiro comigo, mas se orgulha pela noite, porque todos sabem, eu gosto da escuridão, e é onde ela toma conta de mim, onde eu deixo ela crescer. Onde eu me torno ela e ela sou eu. Em minha solidão, nunca estou sozinho.

Fico nesse breu pensando se há alguém no mundo mais infeliz que eu.










“Hey you! Out there in the cold

Getting lonely, getting old, can you feel me?
Hey you! Standing in the aisles
With itchy feet and fading smiles, can you feel me?
Hey you! Don’t help them to bury the light
Don't give in without a fight.”



---

Queria algo interessante para começar o ano; algo bom, significativo; algo novo; ou que desse retorno para mim e para quem lesse. Queria escrever melhor, ter mais tempo, mais referências, mais inspirações para outros temas. Mas minha cabeça só pensa fragmentada, espelho de meu coração. Tristezas em fragmentos, sentidos e não sentidos. Só algo que fico pensando...

31 de dezembro de 2009

Nem título eu sei dar pra dizer sobre 2009

do começo ao fim
neste ano, abandonos.
neste que passou, passe por favor.
o amor é um bônus
mas e toda dor?
na verdade nenhum ano tem fim

aprendi que quem abraça esfaqueia
quem faz amar,
também faz sentir o ódio nos ossos
E a raiva na veia.


- - -
O que você disse sobre meu post, Lice, tem razão. Mas não seguirei e vai isso mesmo. Esse ano não foi perdido, foi horrível, desequilibrado. Foi maravilhoso e um pesadelo - tudo ao mesmo tempo. Não arrisco escrever sobre ele, recuo, não me atrevo, acovardo. E ano que vem, aquele nossa esquema de texto que não vamos divulgar aqui por enquanto, claro! hahaha

Não tenho resoluções nem esperança de nada, voltou a descrença e a falta de tesão em tudo. Então só que 2010 venha melhor, por favór (acentuei só pra rimar - e firmar!).

Meio estranho/falso/verdadeiro

Se a vida seguisse a matemática, tudo seria muito mais fácil. E este final de ano não seria um caos como parece agora. Pois nos últimos anos, final de ano ímpar era bom e final de ano par era ruim. Por este desânimo, desculpem-me o texto cru e sincero.

O pior é que, quando percebi essa falsa regra, as coisas caminhavam para um bom final de ano. Mesmo com o fim terrível e dolorido, eu me sentia feliz, encantada e empolgada como há muito tempo não estava. Mas as coisas logo mudaram e ficaram turvas. Então, eu aprendi que gosto de viver e que tudo bem as coisas mudarem de repente, porque é vida e acaba sendo divertido. Meio estranho, meio falso, meio verdadeiro.

Eu ia me deixar contaminar por este conturbado fim de ano, mas hoje acordei bem. Então, vou refletir. Comecei esse ano num cruzeiro. Eu morro de medo de navios. Mas foi uma experiência formidável. Então, retornei disposta a lutar pelo meu castelo que estava em ruínas. Investi muito nele, muito mesmo. Mas não consegui que ele voltasse a ser o que era e, agora, ele foi desfeito. É muito triste tudo isso, ainda não sei lidar muito bem, estou meio perdida. Sinto saudades, mas também acredito que fiz o meu melhor.

Além disso, este ano encarei pela quarta vez meu maior fracasso e fracassei de novo. Acho que tem certas coisas que a gente simplesmente tem que aceitar. Mas me senti abandonada por que eu mais esperava ajuda e foi aí que tudo veio abaixo.

Na faculdade, porém, fui mais feliz. Encontrei mais amigos, mais apoio e mais discussões com professores bitolados. Descobri potencialidades em mim, o que me deu esperanças.

Gostaria de agradecer meus amigos pelo apoio que me deram quando eu mais precisei. Ajudaram-me nas mais diferentes formas, o que facilitou muito as coisas para mim.

Para 2010... bem, penso em pedir paciência de novo. E calma. Na verdade, agora, eu quero paz e tranqüilidade. Quero ser feliz, sem ter que pensar muito para isso.

JUNKY'S CHRISTMAS

este texto não significa nada. ele significa tudo. este texto, eu demorei tanto pra escrever porque não consigo me recuperar. e acho que quero, dessa vez eu quero. meu natal, divirtam-se:


(close na TV e vai dando zoom out abrindo o plano pra sala. Depois disso deixa rolar a fita, não para hein!) A TV ligada no velho Burroughs com seu sotaque texano detestável. Bem baixinho, só para me acordar. Chia em meu ouvido me fazendo abrir os olhos e perceber que minha cama é feita de vômito. Cheiro o azedo do ar e gorfo. Sinto meus dentes mais sensíveis, minha boca seca, olho minhas mãos. Um pouco de sangue, um pouco de náusea... Que noite. Alguém arrancou a seringa do meu pé, sempre infecciona porque eu sempre esqueço, por isso nem me pico mais no braço. Saí dessa vida, saí dessas loucuras que eu sinto falta às vezes por ser tão autodestrutivo. Voltei porque fui obrigado, porque era isso ou a Morte. Eu queria os dois. (fecha na carta do ceifador no tarô e numa seringa cheia ou vazia, ainda não sei).

Eu rasgo essa pele na esperança de vazar pra fora dela. (produzir cenas de cortes e sangue).

Acordou (abra los ojos, cena de olhos se abrindo e borboletas abrindo as asas). Não dormimos juntos, mas estava ao meu lado, com o cabelo ensebado e os olhos manchados de maquiagem preta. Bom dia. Bom dia. Que dia é hoje, que horas são? Me beijou o rosto e abraçou minha carcaça pálida e ferida, encostando seu corpo quentinho em minhas dores. Agradeceu por estar viva. Agradeceu a mim, na verdade por eu fazê-la se sentir viva. Acabo sendo o salva-vidas. Mas Ela não corria riscos ali. Eu risco.

Foi tudo mentira. Agora me lembro. Acordei e não sabia quem eu era. A sensação de acordar, para mim, é como vir nadando ofegante lá do fundo do mar e poder respirar de novo, só que, na verdade, o anseio é para continuar no fundo. Assustado como sempre acordo, onde estou, que horas são? (relógios, barulho de relógios)Rodeado de pessoas desconhecidas, barulho, aquele cheiro horrível de... de... é familiar, mas desmaio antes de saber. (barulho de eletrocardiograma e coração. Fade out). (sem imagem)Acordei cheio de vômito seco, um odor azedo e uma agulha em meu braço. Outra vez? Não, dessa vez era soro. Não era mentira.

(Kiddo em preto e branco sentado numa pilha de corpos no meio de uma fábrica - trilha)Drogado, ninguém liga pra você, ninguém se importa com você, o melhor a fazer é morrer feito peixe fora d'água, se debatendo sem ar na calçada do hospital. Você, nós, somos o lixo social. O trabalhador é o lixo social, todos somos merda para o Estado. Então FODA-SE, prefiro morrer agonizando numa sarjeta qualquer do que suando a carcaça velha e magra trabalhando doze por sete para um patrão que não dá a mínima pra você, pra sustentar um monte de filho pra eles terem um futuro melhor. HA-HÁ, “um futuro melhor”. (Há tempos quero destruir o Estado).

Overdose. Quem diria, nunca havia tido uma, confesso que me assustei. Na hora eu sabia que ia acontecer, mas eu não conseguia parar, simplesmente.

Não há limite para minha dor.

Manhã cedo de natal. (close na roda da frente girando, depois corta prum plano aberto) Eu estava na moto, louco de tudo, sem capacete com a barba e os cabelos se enroscando com o ar, indo para lugar nenhum, vestido com uma camiseta suja e amarela com a cara do Bob Esponja e uma cueca samba-canção creme com folhas de maconha verde desenhada, descalço com o pé inflamado. A garota agradecida estava na garupa, em pé, apoiada no pézinho da garupa, com um vestido verde cor de grama até um pouco acima dos joelhos, descalça, com os cabelos ralos soltos ao vento e um sorriso de boca fechada muito sincero (roda a câmera em vários ângulos). Ela é muito sincera comigo. Tem a pele tão branca e é tão delicada que deve ser lindo vê-la voar (close de baixo pra cima, pés a cabeça). Eu queria voar. (voo)

Depois de quase cairmos e batermos em tudo a nossa frente, paramos num lugar alto, não muito longe, mas calmo, onde desse para ver as coisas e pensar nelas. Eu nem sabia onde estava, mas nunca sei. Por um breve momento a sobriedade bateu e me pegou desprevenido. Chorei por sentir as dores do meu coração de vidro quebrado espetando tudo dentro do peito. (Meio plano) Descambei o choro, comecei a me bater, chutei a moto. Eu queria por fogo em tudo e me jogar dentro da chama. Ela tentava me segurar, mas eu não conseguia parar. Eu não conseguia parar com as drogas, com a violência, com o sofrimento. Não conseguia parar de pensar. Ela chorou junto e terminamos sentados e abraçados, não conversamos. (fade out). Voltamos pra casa.

(câmera passeia pelo ambiente) Corpos caídos por todo lugar. Quando se está sóbrio aquilo tudo parece ruim. (planos curtos, cortes secos) Roupas jogadas e sujas, vômitos, mijos, sangues, bebidas, colheres, isqueiros, cigarros, vidro, o fedor disso tudo. O som ainda rolava, mas não sabia o que era, parecia Comin’ Back To Me, do Jefferson Airplane – acabou comigo e tive que correr pro banheiro pra ver o quanto mais agüentava chorar.

As pessoas ainda conversavam, eu ainda vivia. Esses grupos junkies mudam muito, isso é que é ruim, eu já não conhecia quase ninguém, e é sempre “o mesmo grupo”. Uns morrem, outros são internados, uns enlouquecem, outros fogem porque estão devendo para alguém. Todo mundo, no geral, está sempre devendo. Mas tem aqueles que não saem do lugar, que não morrem, que não melhoram, que não enlouquecem, que não se internam, que não fogem. Que não.

O mesmo Burroughs na TV. Na noite de véspera de natal (a noite anterior, repassa todo o filme em fastforward) festejamos nossas angústias e dores de mais um ano, a ceia foi preparada com muito carinho (plano de cima): uma mesa pequena, quadrada, azul, cheia de pó, pedra, M, maconha, sintéticos, lisérgicos e improvisados à volonté (cena em PB de um francês de calça preta, camisa listrada, boina, bigode fino e cigarro repetindo à volonté). Para junkies depressivos, nóias e acelerados, todos os gostos. Tinha pai de família, homem de terno, advogada, skatista, vagabundo, hippie, punk, gente normal. Ao ataque no sinal do Anfitrião - que sabe que tem o poder nas mãos e gosta disso - discursa: “Caros amigos, colegas, desconhecidos, é com muito prazer que proporciono este maravilhoso encontro natalino e (bláblábláblá). Sintam-se à vontade” - Mãos por toda a mesa. Conheço o Anfitrião há algum tempo, ele adora ser educado, mas é perceptível seu esforço para sê-lo.

O que eu gosto daqui é que todos têm apelido. Foi aqui que, anos atrás, ganhei o meu... Kiddo. E a agradecida ganhou o dela dessa vez: San, de sã, sóbria – é assim que chamamos quem só altera com álcool. Além do resto do pessoal, Anfitrião (auto-explicativo), Agulha (enfia até água na veia se deixar, mas ninguém deixa... faz mal), Doze (nariz de doze, cheira fundo), Taz (era tamanduá, mas era difícil, daí virou Tam e virou Taz – até porque ele fica tão louco quanto o Tazmania), e por aí vai. Legal né? Mais legal ainda foi depois da ceia. Pink Floyd, Velvet, Doors, Hendrix... Me senti em Woodstock. Mas aqui não era meu lugar, essa gente é lixo, é talento desperdiçado, é escrava do vício, não é isso que queria pra mim, por isso saí. Por isso lutei muito e saí. E neste infeliz natal, pela primeira vez na vida, fiquei tão perdido e fraco que não sabia o que fazer, com quem conversar, aonde ir. Vim parar aqui. Um amigo disse recentemente que só caminhamos em círculos (!); que o que fazemos hoje é atirar um bumerangue (cena do bumerangue voando em câmera lenta), e que quando ele volta, volta mais pesado, mais carregado direto na tua cabeça. Isso fez muito sentido pra mim,

[deletei]. (cena de uma mão teclando o delete).

(A cada "quero esquecer", ele se dá um tiro na cabeça - meio plano pra essa cena... hmm... acho que quero em PB também )Quero esquecer tudo que aconteceu, esquecer que existe esse lugar que me atrai como um ímã, esquecer a vida, este fim de ano de merda, esquecer que existe o amor... E carregar a minha dor até virar cinzas. (Cinzas voando).

Fin.


Junky Christmas. Era isso ou cear miojo em casa.

24 de dezembro de 2009

.final ()

Ponto final.

Começo no fim de mais uma decepção. Mais uma glória rasgada, e mais lágrimas desperdiçadas. O último. Sete significa sorte para alguns... Hahaha, até esqueci aonde ia chegar. Mas é o último. Dramático e perdoável como todos foram, o último.

O natal (assim com letras miúdas mesmo) passou quase despercebido. Teve que pendurar um colar de luzes e um sino dourado como pingente no pescoço do papai noel (assim com letras miúdas mesmo), tunar seu trenó e colocar mais 200rp - renas de potência; e o nariz do Rudolf agora é de xenon. E mesmo assim, eu não o vi.

O espírito de natal estava enrolado num carteado com o diabo, se atrasou todo e esqueceu de alguns lugares. E assim ele embolou com todo o fim de ano. Todos os planos, todas alegrias... As férias viraram castigo. Meu pai (que não é noel) desapareceu. Colocou tudo em seu saco e desapareceu. Levou o sorriso de minha mãe, as lembranças, o amor, e os DVDs (que até agora eu não me conformo). Ora, por que os DVDs? Aposto que ele também é o culpado por estes dias de sol escaldante.

Estávamos infelizes. Mas infelizes como sempre. Agora a tristeza é outra. Não é só minha, e isso é insuportável. Somos todos corpos escorregadios nos esquivando de abraços e carinhos. A atenção vem nas piores formas. Gritos e choros e velas derretidas. Nem a fé é sólida. E cá estamos esperando e tentando um ano novo (assim com letras miúdas mesmo) melhor, um ano novo mais digno e decente. Um ano novo fora daqui.

Não sei o motivo de eu escrever isso agora, eu tinha até outra coisa em mente. Mas essas semanas, o assunto não foi outro. Na televisão só se fala disso, nos jornais, nos amigos e parentes, nos filmes... É só isso.

Eu sinto raiva de todo ano que acaba porque ele nunca acaba bem. E sinto raiva porque se eu o aproveitei bastante, não deveria ter acabado.

Não sei como terminar esse texto, assim como não sei como terminar este ano; assim como não sei como terminar nada na minha vida. Mas ele sabe. E terminou.

Postado no extinto Susi Não Anda Sozinha no final de 2007. Eu continuo sem saber...

22 de dezembro de 2009

Sal

Lágrimas de algo perdido, algo inesperado. Lágrimas de toda hora, toda dor e sofrimento. Lágrimas que simplesmente acontecem, de repente e mais forte do que eu. O que eu sinto é mais forte do que eu. E eu sinto falta do seu sorriso. Luzes coloridas não trazem minha alegria de volta. Sinto o brilho da Lua na minha nuca. E não consigo parar de chorar. Sou um líder derrotado. Ela não consegue me acalmar, me vê doente. Ela é a doença e não consegue parar de chorar. O amor é a maior experiência nessa vida.



[posfácio]
amor.


O cenário é a cidade inteira. Meia luz da Lua, luz e meia das ruas. Ela se via refletida em outros olhos. Não há mais ninguém nesse mundo, só ela e o dono do olhar. Na mesma hora, sem saber de nada mas sentindo tudo, eu fui dormir só para me afogar no ar. E morrer.

Eu não consigo parar de chorar, então paro por aqui de escrever.

Traição

O que é esse pesar tão grande
Que nunca havia sentido
Mesmo em passos errantes
Mesmo gritante no ouvido
Nunca me importei
Nunca havia conhecido
Porque não quero saber se errei
Se estava presente ou havia sumido
Minha confiança sempre foi maior
Em mim e em meus amores proibidos
Até você provar que o amor é vidro
E cortar em seus lábios meu coração
Brechas no caminho são –

Faz engasgar, a traição
Embaça a vista
Ser nada mais que placebo
Ata-me e mate-me, prefiro
Como frágeis somos, agora percebo
Dói como um tiro
Pelas costas, na arma, o amor
Que sangra sem morrer
Um sangue de dor
E um último sorriso
Olho pra trás,
Traidor

27.11.2009

19 de dezembro de 2009

Porque é triste o fim

Os desencontros são os piores encontros que se pode ter. Não me refiro ao encontro no qual uma das partes não aparece, digo o encontro no qual ambas as partes estão presentes não no mesmo presente: desencontro. Vamos marcar um desencontro? Vou de ontem e você de hoje. Não, vou de futuro e você de arrependimento.

Somente nos encontramos em desencontros. Parece-me agora que ficamos tão pouco tempo no mesmo lugar. Na verdade, todos os encontros que tínhamos foram contados. Um, dois, três e o quarto durou horas e horas... dias, meses. Um ano, eu diria. E, então, nos desencontramos. E tudo começou há exatamente um ano. Época terrível, que nem foi eternizada em meus escritos diários, somente em nossas memórias, na esperança de que um dia falhassem. Desde então, tivemos desencontros.

Acho que combinamos lugares diferentes para nos encontrar. E, apesar da briga e do aparente acordo sobre o local de encontro, estávamos em dimensões paralelas. Eu vivia num apaixonamento humilhante e você numa frieza patética. Até que nos encontramos nos desejos de passado... sede da volta aos encontros de dezembro.

É triste ver o fim da nossa história nos desencontros descontrolados ao telefone. Perdemos nossos papéis e não sabemos o que fazer um com o outro. Bem, você eu tenho guardado na minha caixinha. Quando te quero, eu a abro e dou uma espiada para encontrar seu cheiro e desencontrar o presente.