Sob o sol de outono, claro e morno, ele vestia apenas uma camiseta azul marinho com um arco-íris em forma de "U" ao contrário, cueca branca e todos aqueles pelos indicando a direção do vento. Ela usava boina vermelha, cachecol xadrez e óculos escuros. Sentou na proa para admirar umas libélulas que brilhavam mesmo não estando escuro. Ele teve que ficar mais atrás, tinham que se equilibrar para não virar o pequeno veleiro de folha de caderno.
No mar de indagações e pensamentos ele veleja à deriva em seu barquinho de papel. Nunca soube aonde ir e nunca entendeu porque deveria saber, ou o que fazer ou porque ter que escolher. Assim, atirou o único remo ao mar, por entender que aquilo não fazia sentido. Não se rema quando não se tem para onde. Em troca, o mar devolveu um canivete de pirata, que ele conferiu se estava afiado. Sentiu o gostinho de ferro do sangue no dedo, manchando o barco - mas só um pouco.
Ela o acompanhava por crer estar à deriva, porém queria aportar numa praia deserta e virgem, mas ele a lembrou que nada podiam fazer. A abraçou tentando aliviar a frustração da jovem marinheira que queria descer a todo custo, mas está tudo cercado de água gelatinosa. Então começa a chorar.
O sol está anunciando o começo do fim da tarde, ela chora levando as mãos aos olhos, refletindo aquele crepúsculo. Espelho de lágrimas. E tudo aquilo é simplesmente lindo. Ele a coloca em seu peito antes que ela suma em choro e molhe todo o pequeno veleiro de folha de caderno.
O mar irritado e enciumado por não ser dono daquelas águas não os quer mais ali e empurra com ondas fortes para qualquer lugar. Até o silêncio, quem em troca permite que se ouça a bússola no peito dela – mas agora já é tarde e as estrelas tão distantes brilham sem razão. Cansados, deitam e sonham o mesmo sonho.
(Até afundar... Ou quem sabe aportar em algum paraíso natural que os dê razão.)
2 comentários:
Que lindo!
à deriva, adoro as palavras ;)
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