Sejam bem-vindos ao outro lado do espelho, onde tudo pode acontecer (e acontece).

Wonderlando é um blog sobre textos diversos, descobrimentos e crescimento. A filosofia gira em torno do acaso, misturando fantasia e realidade de dois amigos que se conheceram também por acaso, Alice - que tem um país só seu -, e Yuri - chapeleiro e maluco nas horas vagas.

Leia, comente e volte sempre... Ou faça como a gente e não saia nunca mais.

24 de setembro de 2010

Coma White

Até no sonho se morre, e morremos todas as noites. Somos arquitetos, deuses, de algo nosso que não conseguimos controlar. Não se controla a fúria do pensamento, e é isso que machuca e nos segura ao mesmo tempo. Um ode à loucura, outro ao que faz enlouquecer.

Nós bebemos da fonte dos prazeres que a insanidade oferece enquanto um Sol se punha e outro apontava o meio-dia. O segundo Sol da noite, assim era chamado. A eterna espiral que confunde o Tempo. Aqui ele não manda nada e significa menos que a areia da ampulheta. A significância do tempo simbologicamente representado pelo objeto do infinito reduz-se a nada mais que uma cachoeira de areia que sufoca e enterra. Sem espaço, só ex-paço.

Eu passeava pelos espaços do espaço enquanto eu sentia os efeitos na minha cabeça. Olhava para o céu e via aquela nebulosa exuberante de cores vibrantes. Há luzes em meu cérebro, como as das ruas. Há ruas que fazem caminhos dentro de mim. Caminhos sensíveis que se modificam a todo instante. Mas quanto é um instante? – Labirintos intelectuais que nos fazem querer decifrar, por isso corremos.

Corremos sem direção ou destino, porque aqui não se para pra descansar, porque senão a loucura, o tempo, o pensamento, tudo pode te pegar e liquidificar a existência do real. Você ria de tudo isso enquanto via sua máscara partir corroída pelo ácido que caia do céu. Quando o mundo está às avessas, pisamos no paraíso enquanto somos destruídos pelos ares. Seu rosto ainda era belo.

Eu vi as luzes saindo de todos os orifícios enquanto nos beijávamos. Eu vi tudo se desfazendo sem som enquanto nos consumíamos. Eu senti a dor de seu coração e a apertei bem forte em minhas mãos, até se desfazer em líquido. No meio da água, vi de olhos fechados o reflexo de um monstro. O mal que não para de me olhar. Então eu abri os olhos.

Acordei de um sonho e percebi que não podemos mentir quando dormimos. O sonhar é a nossa única verdade sincera e sem interesses. É aquilo que simplesmente é, sem começo e sem fim. Os valores e amores se perdem nos labirintos confortantes da mente. Tem vezes em que só queremos acordar. Outras, em que não queremos renascer para vida, como todas as manhãs. Eu adoraria viver um coma.

Amanhã não será um dia bonito.

11 de setembro de 2010

Por Todo Lugar




Eu poderia dizer
Que moro num lugar seguro
Dentro de você
Mas minhas partes estão
Por todo lugar

Se desfazer é fácil
Veja como eu me desfaço
Se desfizer, refaço
Recompor, é bem mais complicado

Quem dera eu tivesse um lar
Ou somente um lugar pra ficar
Descansar o corpo um pouquinho
Guardar o que restou

Caí de novo
E agora vou
Voo
Voo
Voo

Passarinho bate asa
E não volta tão cedo não
Não volta mais pra casa
Não volta, não

Se eu pudesse
Um lar seguro dentro de você
No seu coração




--
*poesia nova pra carimbar o novo caderninho que eu ganhei de presente!

10 de setembro de 2010

Como eu quero*

De repente solta um “fica quietinha aí” sem nem perceber que pegou pesado na brincadeira. Não quero que fale assim comigo. Muito menos que pegue seu violão pra tocar duas notas de cada música que conhece. Assim você não vai me conquistar. Eu quero você tocando uma música inteira pra mim, sob minha janela, com cara de mistério. Sem piada boba, eu quero você sério.

Sabe o que vou fazer? Vou te passar a tinta. Tirar-te deste rascunho borrado por outras, vou te transformar em arte final. Longe de mim, nada dá certo pra você. Deixa eu te ensinar como ser bem melhor. Isso já estava decidido desde o início, não há como fugir. Você entrou sabendo da cilada, que seria cada um por si, menos você, que será sempre por mim.

Eu quero você como eu quero. Cara de mistério, sempre sério...

***

* Kid Abelha - "Como eu quero"
** Kid Abelha, que nem gosto, mais uma vez de fundo dos meus relaciona-mentos.

9 de setembro de 2010

These are my twisted words

Mãos sangrando de quem socou parede. Um soco e outro o punho cede. Com esperança, ainda sobra um pouco de ossos e nervos pra escrever. A cabeça já não sei. Ela já não sai, só voa em direção ao chão... Me traindo, mentindo a realidade, lixando o cérebro no asfalto, me lixando, fazendo eu me sentir um lixo... Lixado.

As noites são realmente solitárias. Sinto meu corpo como porcelana partida guardando uma alma quebrada

Meu caderninho de letras não é italiano ou tão chique para ser chamado de moleskine. Minhas palavras saem sem direção, querendo muito mais do que sou capaz.

me calo dizendo tudo em páginas.

Há clareza na fogueira do caos. A tocha ainda está em minhas mãos sujas com a matéria-prima do ódio. Unhas pretas de carvão e sangue seco. Não havia ninguém a minha volta. Eu destruí tudo, eu fodí com tudo.

---

*esse rascunho está aqui no blog há quase um ano. eu sempre quis escrever algo legal com esse título 'these are my twisted words', daí nunca consegui. o resultado foram essas frases soltas e perdidas que eu tirei de um dos meus caderninhos de anotações e fui jogando aqui pra ver se clareava a mente. até que fez sentido, essas são minhas palavras torcidas.

31 de agosto de 2010

Imagino

Imagino que se fosse honesto comigo, eu não ficaria tentada a olhar suas coisas na sua ausência. Fazia-o antes por curiosidade, para conhecer o que ainda não havia dividido comigo, descobrir seus hábitos secretos e suas organizações. E, claro, porque era proibido.

Imagino tantas coisas sobre você. E tudo que te envolve quero que me envolva também. E tudo que me envolve, quero que saiba. E tudo que tenho, quero que seja em parte seu também, pois o que é solitariamente secreto perde o gosto. Mesmo que não ativamente presente, seria um pouco nosso, se ao menos soubesse.

Imaginei na festa tomar posse da guitarra abandonada na pausa, atrever-me a ser ridícula e cantar para você a música que havia escrito. Mas não sou sem-vergonha, sou imaginativa apenas. E, no mais, meu medo agora de fazer tudo errado é demasiado grande para tentativas como tal. A frustração virou degustação.

Imagino ser surpreendida, ser preenchida ao menos uma vez nas expectativas que crio na minha cabeça.

Imagino nossas discussões terminando. Chegando a um entendimento que perdurasse além do momento, chegasse a um ponto final. Sem mais continuações, exclamações ou interrogações.

Imagino suas cartas, suas promessas realizadas. Imagino os tesouros ali contidos para por tanto tempo privar-me delas, suas palavras. Imagino todas as coisas que não me diz, as coisas boas, os charmes há tanto deixados de lado.

Imagino o que elas ganham de você. Por que elas têm os seus sorrisos e eu os silêncios pesados? As mensagens sem retorno?

Imagino o que fiz para tudo estar assim e o que deixei de fazer. Imagino o que mais tentar e chego sempre ao vazio. Esperar é doloroso, perdoar também. Mas ter que escolher entre estes é ainda mais sofrido.

Imagino o que pensa agora. Não, esta não é mais uma. Faço isso para me desarmar das dores. E tentar sofrer menos sozinha. Imaginei que minhas palavras, ditas ou escritas, fossem te tocar. Imaginei que meu chorar não fosse mais te irritar, mas apenas mostrar o quanto tudo pesa para mim também e de como você é importante o suficiente para eu aturar essa Alice que eu tanto desgosto para que você faça a Alice, que aqui se esconde por medo, reaparecer.

Ouvi Tom Waits e imaginei que tivesse sido você quem escreveu tais versos para mim.

E, entre tantos imaginar, percebo que vivo um relacionamento platônico nos momentos em que me convém.
(22.03.09)

20 de agosto de 2010

Remember Who You Are

Ah, o conforto do ódio, que há tanto havia esquecido, mas nunca substituído. Soa como eco dentro de mim e vaga pelo vazio até sombras contemplarem as informações e se consumirem dela. Até sumir tudo novamente. Amor sem afeto é como raiva sem dor. No final, sobra sempre a mesma coisa.

Eu construí a minha fortaleza, e ela me protegerá e me tornará forte. “Sê forte, irmão guerreiro, liberte em ti silenciosamente a fúria que consomes”, certa vez ouvi de um cavaleiro num passado distante. Eu havia me esquecido e me tornei fraco, vulnerável, escravo.

Servir à raiva é um propósito, mas então, qual é o próximo? Eu encontrei uma solução diferente para curar a dor que a vida traz. Raiva vem da dor. Raiva não cura a dor. A única coisa que a raiva faz é empurrar a dor para bem dentro de você, então com isso você constrói uma parede ao seu redor que manterá todo o amor afastado.

Se eu fecho os olhos,
é pra te proteger de mim mesmo.
Dentro de mim, te guardo e te assusto.
Te dou o sonhar e te destruo.
Morro pra te deixar viver.

Eu vejo a traição disfarçada. Consegue ver o ódio em meus olhos? Eu simplismente não aguento mais conviver com mentiras, hipocrisias, vidas e vidas. Eu não posso, não consigo confiar em mais nada. No final, o que sobra?

Pra onde vai tudo o que se sente?

16 de agosto de 2010

A Batalha Jedi de Equus caballus em Love Dream num Caleidoscópio Fluorescente em Câmera Lenta

A música cobria todo o som ao redor. Love Dream tocava enquanto meu reflexo e eu brincávamos de Jedi com lâmpadas fluorescentes compridas, dessas de escritório. Em câmera lenta, estourávamos um no outro e respirávamos aquele pó de vidro que subia no jardim. As faíscas pareciam mini fogos de artifícios que confundiam os insetos com um ano novo fora de época. A luz cegava lentamente e dominava o ambiente, deixando tudo pálido e com aspecto frio.

Ao piscar, meus pesadelos assombravam por um período longo de tempo. Eu abria os olhos e a luz me obrigava a fechá-los. Quando se aperta os olhos com as mãos, as cores alaranjadas e roxas tomam a vista do cérebro, fazendo tudo ficar divertido como um caleidoscópio natural. Enfrentava as luzes coloridas porque era gostoso e curioso descobrir outros olhos em mim. Minha cegueira temporária era o motivo das minhas risadas.

Cavalos brancos relinchavam e corriam entre nós, pisando e deixando explodir mais vidros e luzes pelos ares. Eles passaram por mim e pude sentir seu cheiro enquanto era ignorado pelos equinos. O vento me dava a sensação de liberdade e pude flutuar baixinho por um instante. Tudo bem devagar, como se estivesse tudo acontecendo embaixo d'água.

Quando eles se foram, Allan apareceu com corpo de Homo sapiens e cabeça de Equus caballus segurando um porta-joia chinês com a única gravação original e inexistente da canção tema deste texto. Entramos todos na caixinha mágica e dançamos a triste valsa, eu, Allan e meu reflexo que reviveu no espelho de ilusões históricas e segredos guardados ali.

12 de agosto de 2010

Insolúvel

Hoje eu decidi não sair de preto. Tampouco quis ficar perto do que me deixasse pra baixo. Chega desse luto que já dura mais da metade da minha vida. Hoje eu dei um basta na tristeza para dar mais espaço à saudade pura misturada ao café de toda manhã. Mas fiquei mais um pouco na cama, não consegui sair.

Disfarcei meu choro tímido de poucas lágrimas nas cores dos panos que cobriam minhas vergonhas e me protegia do frio logo da manhãzinha. Faz sol aqui, está um dia bonito até. Queria te visitar, mas não vai ser possível, agora sou adulto e tenho responsabilidades que me impedem. Mas só hoje, logo menos te levarei flores e um sorrisinho salgado.

Foi só quando peguei meu primeiro copo de café pela manhã que percebi que agora somos desconhecidos. Eu mudei e mudei e estou mudando, sim, porque estou vivo neste plano. E você, eu me dei conta que, na verdade, não te conheço. Te conheço assim como você me conhecia, com olhos de criança. E como seria eternamente grato se pudesse conversar com você um pouco agora, saber quem somos como indivíduos. Se não me acompanha e não sabe de mim, tenho tanta coisa pra contar, tantas alegrias e tristezas de uma vida inteira – porque, sabe, eu não gosto da vida, não mesmo, mas a aproveito muito bem, vivo.

Gostaria tanto de saber como você está.
Falta filtro no meu pó.
Falta água no café,
vida breve
num gole.
glup!

Antes, como você sabe, eu ficava na mesa imitando meu avô mergulhando coisas no café-com-leite enquanto você corria com todo o trabalho para servi-lo enquanto ele ficava sentado - rotina praticamente religiosa. Hoje, gosto de tomar café sozinho, sempre preto, puro.

Às vezes me lembro de tudo e parece que não dissolve.

6 de agosto de 2010

High and Dry

Mareado pelo cheiro forte da falsa natureza do incensário, foi até a janela e acendeu um cigarro. Lá de cima via até onde a névoa do frio permitia ver. Deixou congelar os dedos enquanto observava a vida ao seu redor. Sombras na rua fugiam da garoa enquanto ele a encarava.

Sentia o conhaque descendo por sua garganta, o álcool em seu bafo evaporava com a fumaça da baixa temperatura misturada a do cigarro. Entristeceu por não poder mais ver o cemitério em frente à sua casa, que trazia tantas lembranças de infância e agora tampado por construções dos vivos e adultos.

A música alta, orgânica e clássica vinda do quarto dava o tom passivo da depressão. Há tempos não se sentia assim, tão como no passado. Por isso também, não gostava do frio, porque a temperatura externa refletia o seu interior, fazendo seu coração expandir até por onde não conseguia enxergar.

Suspirou olhando o céu claro em tons pastel e ficou imaginado ser sangue flutuando quando na verdade era uma rabiola vermelha presa nos fios. Pisou no chão gelado para se sentir vivo, e se sentiu. Sabia de sua vivacidade e a considerava, às vezes, uma maldição. Suas cicatrizes e machucados doíam no frio, mas ele não saiu de lá.

A tristeza invadia seu peito a cada respirar, sem resquício algum de felicidade. Contou as gotas que caiam da calha a cada três minutos. Nunca foi muito sistemático, mas gostava quando era mais Alice. Não a do País das Maravilhas, mas a do Wonderlando mesmo. Às vezes matava a saudade tentando ser um pouco mais ela ou imitando suas manias só para se sentir mais próximo e aquecido. Sempre funcionou.

Enjoado, queimou o resto do cigarro em seus dedos e deixou voar. Depois procurou a bituca desesperadamente e nem sabia o motivo. Olhou tudo a seu redor e desconheceu. Derramou álcool por todo lugar, sem querer. E, brincando com o isqueiro, ficou tentado a atear fogo em tudo ali, para esquentar mais as coisas, talvez, mas a sanidade ainda predominava. Se sentiu covarde.

Tudo estava tão molhado, mas nenhuma gota pingou de seus olhos secos.




“To all the boys and the girls outside
You know I didn’t cry
But you saw me anyway”

3 de agosto de 2010

Sepulcro Vazio


- Deixa durar então, até você ter um câncer.

Esse foi o meu boa noite dos últimos dias. O meu bom dia me acordava com a mesma mensagem, aquela mesma de todas as manhãs. Para não me fazer esquecer de algo que se espalhava dentro da minha pele, pelos meus ossos, atingindo a corrente sanguínea. A mancha negra no raio-x de meus sonhos incontroláveis ganhava forma e força a cada sinal de desesperança.


Eu lidero o festival, fazendo decisões e organizando tudo. É o que eu preciso fazer antes que tome o controle e foda minha vida de vez. Eu quero passar no teste e cumprir com louvor a minha vida atormentada. Só não entendo por que tenho que escolher um lado.

Morte é a minha dor que não me deixa deitar. É a maldição das fissuras em minha pele putrefata que alimenta a fogueira fétida de outros como eu. Outros doentes como sou.

Eu estou tão cansado, minhas pernas não aguentam mais a fraqueza de meu coração. Eu perco todas as batalhas, porque sou fraco. E cada vez mais.


Nunca durmo em minha cama.

30 de julho de 2010

Assombro

Aparece sempre ao fundo, em segundo plano. Risadas que eu não sei de onde vem, sussurros que eu nunca consigo entender, sombras que desaparecem quando eu olho. "Vão embora", eu digo a elas – então eu saio e me tranco pra fora. Bato na porta até minhas mãos sangrarem de tantos socos. Cansado, bato com a cabeça, uma. TUM. Duas TUM. TrêsTUM. QuaTUM. TUM...

Eles não saem. Eu permaneço.
Eu saio.

Me seguro em sentimentos que mantém o ódio vivo. Ninguém me deixa sozinho, ao mesmo tempo que percorro um deserto caminho de escuridão completamente tomado por almas fracas que se desfazem na tempestade de areia. Solidão. Todas as mentiras e traições me perseguem com raiva e dor e sofrimento das vozes no meu cérebro. Desperdiço vida a cada passo, a cada lágrima, a cada trepidar da voz, travada pelo nó que não desata. E a cada sorriso de um dia em que fui feliz.

E fico pensando, pensando, pensando... O quanto essa porra toda significa. Um segundo a mais é um segundo a menos no relógio do tempo. Mas só vou parar quando meu coração parar. E fico pensando, pensando, pensando... E a cada pensar, morro devagar. Uma morte leenta que vai tirando aos pouquinhos, me preparando para o grande final.

Eu estou pronto para partir, já não enxergo mais tão bem, com tanta lucidez. Constantemente eu combato as dores dentro de mim. Mas eu não consigo mais controlar, estou só perdendo meu tempo testando toda fé ao meu redor.

Eu só sou um idiota assombrado pelas próprias ideias.

6 de julho de 2010

Super-heroi


Eu não tenho nome fresco, nem sou tão inteligente quanto seu super-heroi. Talvez nem beije tão bem ou tenha a pegada tão boa quanto ele. Seus cabelos devem ser bem mais macios e de um enrolado bem mais organizado; e seu sorriso mais sincero com aqueles dentes brancos, completando o conjunto da obra na pele bronzeada e com olhar idealista de vigilante. Enquanto eu nem sequer tenho uma capa. Hahaha, como pode, eu não ter uma capa...?! [a minha é um mero pano amarrado.]

Eu sei que você não me admira como ele, não conversa comigo o que conversa com ele, mas te entendo, não tem motivos pra isso. É difícil, não tenho armas ou forças ou superinteligência para competir. Eu te entendo como deve ser fácil cair em seus braços e se deixar levar pelas conversas moles sobre seus outros herois. Ele também já vem de uma linhagem de herois, seu pai, o professor Xavier. Eu não moro sozinho num apartamento legal no centro da metrópole - moro em lugar nenhum cheio de gente e que não me pertence de nenhuma forma; e se for preso pelo inimigo, será por tráfico, por roubo, homicídio, qualquer besteira que não importa, não vai ser o seu orgulho de cárcere ideológico. Ele é tão charmoso, bonito e fala tão bem... E eu não tenho nem uma identidade secreta. Merda, preciso urgente de uma dessas.

Eu até gostaria de ser seu Superman, ter uma roupa bacana, estudar seus aliados e fazer parte da Liga da Justiça. Já tentei, mas falhei, falharam comigo. Acho que estou mais pra anti-heroi. No fundo, sei que estou mais pra alguém que não acredita em nada disso, que não faz parte de grupos, não tem superpoderes nem superinteligência - porque eu não consigo, não sei, tá bom? Mas eu gosto de fingir que gosto de ser assim, um outkast fora-da-lei, um lobo solitário autodidata. Mesmo perdendo coisas importantes, mesmo tendo que ser eu mesmo, só isso, um gênero comum de uma espécie decadente. Mesmo sendo um pedaço do que você disse ser perfeito.

Talvez eu seja um pedaço de kryptonita, uma bem lapidada, daquelas que parecem pedras bonitas, mas que não significam nada. Talvez essa pedra seja só vidro, que você insiste em jogar no chão só pra recolher os cacos com lágrimas de desculpa enquanto eu morro em silêncio sem salvar o dia.

De super eu não tenho nada, amor.
Tinha você.

1 de julho de 2010

Histórias de Dormir [Segredos do Céu]

(Das palavras não me lembro, mas segue aqui a forma como eu gostaria de ter contado.)

- Que poético.
- É, foi. E eu nem percebi. Queria conseguir lembrar disso depois.
- Você não vai.
- Sua vez.
- Tá.
- Estrela, cobertor, aldeia.


Segunda noite: Segredos do Céu

Era uma vez uma aldeia. Meia-noite, silêncio. Noutro lado do mundo, enquanto os reis articulavam, ela fugiu. O clarão deu notícias de sua chegada.

Ele acordou assustado e correu. Viu uma mulher rodeada pelo nada. Longos cabelos loiros escorriam pelo vestido cor de céu. A levou para casa, ela estava fraca. Inquieto, pensava nela, da onde teria surgido, a quem pertenceria? Tanto quanto ela, estava perdido, não sabia o que fazer por tão frágil criatura. Tentou em vão se aproximar de seu corpo, mas teve medo de quebrar sua pele porcelana.

Depois de um tempo ouviu sussurros vindos dela. Ela dizia “não”. Sua agonia fazia da palavra algo tão triste, como se a morte viesse buscá-la e a recusa fosse a única possibilidade. Mais tarde ele entenderia que a opção nunca foi esta.

Ela o enfeitiçava e ele passou horas a admirá-la, enquanto dormia e reluzia. Mas a luz sumia aos poucos. O desaparecimento o levou até o curandeiro da aldeia, que ouviu atentamente a história da jóia encontrada no meio do nada. A cada palavra o curandeiro desvendava o seguir da carruagem. E com delicadeza desvendou a história da rainha morta, a estrela caída.

“O futuro do céu é incerto, meu filho. A estrela de hoje pode já não existir. Foi assim que ela veio a terra. A antiga rainha cedeu seu espaço e veio à terra dar seu último suspiro. Cadencialmente elas se suicidam. Encontrá-la não foi mero acidente, sua ajuda é necessária. Ela aguarda o resto de céu que a levará, o manto que colocará fim à sua existência.”

E com o cobertor cor de céu ele deixou a casa do curandeiro, pronto para cumprir com sua tarefa e apagar o fogo que insistia em reluzir nos seus cabelos. A jovem rainha dos fios quase brancos. Aquela que quase nada denunciava a idade, não fosse os cabelos.

Ao entrar percebeu o sorriso em seu rosto. Mesmo de olhos fechados ela sabia que ele encontrara o manto. O perfume dos céus invadiu o quarto. Foi com lágrimas no rosto que ele a cobriu, centímetro por centímetro. Despediu-se de cada parte do corpo e eternizou as horas em que passaram junto com um beijo, antes de cobrir seu rosto.

A luz desapareceu. O mundo voltou a ser cinza. Só o céu manteve a cor do seu vestido, que alternava com o brilho de seus cabelos quando o sol resolvia surgir. O feito de sua vida estava feito. A proeza durou algumas horas, mas que outra pessoa se vangloriaria de ter atendido o desejo de uma estrela cadente?


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Se você tem interesse em participar escrevendo um texto, mande-nos um email ou comente aqui mesmo. O próximo desafio é para a Alice, com as palavras: papel, gel e vapor. Daí ela escolhe mais três para o próximo e por aí vai.

A primeira noite você confere AQUI.