Sejam bem-vindos ao outro lado do espelho, onde tudo pode acontecer (e acontece).
Wonderlando é um blog sobre textos diversos, descobrimentos e crescimento. A filosofia gira em torno do acaso, misturando fantasia e realidade de dois amigos que se conheceram também por acaso, Alice - que tem um país só seu -, e Yuri - chapeleiro e maluco nas horas vagas.
Leia, comente e volte sempre... Ou faça como a gente e não saia nunca mais.
18 de fevereiro de 2010
15 de fevereiro de 2010
4.
Para o futuro, promessas de mais. Quanta coisa boa por aqui. Vejo livros, vários deles, cheios de ideias expostas e furtivas por trás de um milhão de caracteres.
Eu sempre me impressiono por mais um ano.
Eu sempre me emociono com cada texto. Toda vez que eu leio.
Porque é tudo verdadeiro.
Obrigado Lice, pessoas que me inspiram (escritores, pensadores, amigos filósofos e não-filósofos, musas) e a todos que leem e principalmente, que comentam - só sinto vontade de explorar e escrever mais.
4.
Eu sempre me impressiono por mais um ano.
Eu sempre me emociono com cada texto. Toda vez que eu leio.
Porque é tudo verdadeiro.
Obrigado Lice, pessoas que me inspiram (escritores, pensadores, amigos filósofos e não-filósofos, musas) e a todos que leem e principalmente, que comentam - só sinto vontade de explorar e escrever mais.
4.
***
Desde o começo, sinto uma empolgação estranha por aqui. Cada texto meu é feito com desejo e carinho. Eu cresci aqui. De verdade. Minhas melhores partes estão aqui, meu melhor olhar, minhas melhores ideias, meu melhor amigo.
Eu amo esse lugar e tudo que há nele. Nossa amizade de iguais 4 anos já me é tão longa que nem ao menos me lembro ao certo como deixei de te odiar e decidimos criar esse local. Mas lembro que nosso nome veio dos meus longos dedos tocando errado o teclado.
Aprendemos e crescemos com nossos erros.
Tapa de amor não dói
Não sei o que mudou. A força na qual nos amamos é outra, mais forte, mas agora machuca. Quantas vezes evitei sua presença, não quis ouvir seus escândalos que me irritavam e traziam a tona minha paixão pela violência. Porque sempre mantive em segredo essa paixão, que aflorou e dominou a nossa.
Ela foi embora, fiquei sabendo que encontrou um novo amor, “de verdade”, como ela diz. Não entendo onde estava a linha que separava carinho de tapa, puxão de cabelo de cafuné, “eu te amo” de “sua vaca burra”. O que eu sei é que ela gostava. Ô se gostava quando eu a chamava de minha cachorra, minha puta. Ela gemia e até pedia mais. Até os nomes carinhosos do sexo irem parar no meio do supermercado, na fila do banco, no barzinho com as suas amigas. Até a violência que cultivávamos com tanto esmero ir parar na mesa de jantar, na sala, de volta na nossa cama, mas dessa vez cheia de ódio, mágoas, corações feridos, olhos roxos e hematomas. “Ela caiu da escada. Vive se machucando, essa desastrada”.
Ela mereceu, é só o que posso dizer. Nada posso fazer se sou mais forte e ela me provocava. Vaca. Vadia. Viada. Às vezes brincávamos de lutinha, às vezes eu acertava sem querer seu narizinho. Me arrependia de chegar a lacrimejar os olhos por ver o meu amor ferido. Às vezes brincávamos de lutinha, quando você colocava aquele vestidinho roxo, que antes era sexy, e tornou-se vulgar, deixando tudo a mostra. Ela bem gostava de um monte de homem olhando suas carnes, admirando a mercadoria que adorariam consumir. E quem disse que nunca me traiu? Pra ela aprender o lugar dela.
Nunca quis machucar, apenas fazer sentir o que sinto quando me magoa. Eu só me preocupava quando voltava sozinha a noite, quando saia para dançar com suas amigas ou quando algum “amigo” aparecia – convenhamos, homem não é confiável, amigo de mulher é viado, porra!
A bebida é culpa dela. Eu ter perdido o emprego é culpa dela. Eu ter me envolvido com outra mulher e passado HPV pra ela, é culpa dela! Porque eu sempre fiz de tudo por essa vagabunda. Tapa de amor não dói, ela mesma dizia. TAPA DE AMOR NÃO DÓI,
gritou sozinho com as mãos formigando, machucadas de tanto bater no nada, acertando tudo. Não havia ninguém para ganhar seus carinhos. Manteve a postura diante dos outros. Logo encontraria outra que acreditaria em seus tapas de amor.
- Tapa de amor não dói, sua mentirosa.
Resposta a Tapas.
xxx
Para o 4º aniversário do nosso filho, Wonderlando, resolvemos escolher um texto e respondê-lo como se fôssemos a pessoa para qual o texto foi escrito. O resultado foi isso. Eu sempre crio uma imagem ou ilustração legal, mas dessa vez estou sem um computador decente, então é isso que temos pra hoje. =)
Ela foi embora, fiquei sabendo que encontrou um novo amor, “de verdade”, como ela diz. Não entendo onde estava a linha que separava carinho de tapa, puxão de cabelo de cafuné, “eu te amo” de “sua vaca burra”. O que eu sei é que ela gostava. Ô se gostava quando eu a chamava de minha cachorra, minha puta. Ela gemia e até pedia mais. Até os nomes carinhosos do sexo irem parar no meio do supermercado, na fila do banco, no barzinho com as suas amigas. Até a violência que cultivávamos com tanto esmero ir parar na mesa de jantar, na sala, de volta na nossa cama, mas dessa vez cheia de ódio, mágoas, corações feridos, olhos roxos e hematomas. “Ela caiu da escada. Vive se machucando, essa desastrada”.
Ela mereceu, é só o que posso dizer. Nada posso fazer se sou mais forte e ela me provocava. Vaca. Vadia. Viada. Às vezes brincávamos de lutinha, às vezes eu acertava sem querer seu narizinho. Me arrependia de chegar a lacrimejar os olhos por ver o meu amor ferido. Às vezes brincávamos de lutinha, quando você colocava aquele vestidinho roxo, que antes era sexy, e tornou-se vulgar, deixando tudo a mostra. Ela bem gostava de um monte de homem olhando suas carnes, admirando a mercadoria que adorariam consumir. E quem disse que nunca me traiu? Pra ela aprender o lugar dela.
Nunca quis machucar, apenas fazer sentir o que sinto quando me magoa. Eu só me preocupava quando voltava sozinha a noite, quando saia para dançar com suas amigas ou quando algum “amigo” aparecia – convenhamos, homem não é confiável, amigo de mulher é viado, porra!
A bebida é culpa dela. Eu ter perdido o emprego é culpa dela. Eu ter me envolvido com outra mulher e passado HPV pra ela, é culpa dela! Porque eu sempre fiz de tudo por essa vagabunda. Tapa de amor não dói, ela mesma dizia. TAPA DE AMOR NÃO DÓI,
gritou sozinho com as mãos formigando, machucadas de tanto bater no nada, acertando tudo. Não havia ninguém para ganhar seus carinhos. Manteve a postura diante dos outros. Logo encontraria outra que acreditaria em seus tapas de amor.
- Tapa de amor não dói, sua mentirosa.
Resposta a Tapas.
xxx
Para o 4º aniversário do nosso filho, Wonderlando, resolvemos escolher um texto e respondê-lo como se fôssemos a pessoa para qual o texto foi escrito. O resultado foi isso. Eu sempre crio uma imagem ou ilustração legal, mas dessa vez estou sem um computador decente, então é isso que temos pra hoje. =)
Amargo Deletério
Decidimos nos encontrar depois de muito tempo. Ninguém nunca se vê depois que se separa, só quando estão seguros com outras novas metades. Por isso ele quis me ver, estava casado, era uma desculpa para ele não cair em tentação e me agarrar. Eu decidi fugir à regra e marquei de vê-lo logo depois de me separar (eu sempre me separo) de um dos meus tantos amores. Eu amo todo mundo, meu amor é banal. Mas ele foi o único que não me amou de volta. Por isso nos separamos. E, engraçado, ele, como todo homem, começou a me amar depois do fim.
Eu imaginei que nosso encontro seria selvagem. Eu ia tentar seduzi-lo com aquela sutileza que só nós mulheres temos, um seduzir sem se dar conta que está seduzindo, mas com todas as segundas, terceiras e quartas intenções de seduzir. Ele era fácil, todos são fáceis. Ou eu que sou boa demais nisso. Mesmo ele casado, isso não iria impedir. Eu tinha um poder soberano sobre ele, pois descobri suas mais íntimas fantasias e gostava de torná-las realidade. Não gosto de fantasias, por isso tento meu máximo para realizar os sonhos. Deste modo, tudo vira o real. E, assim, domino todos os homens. Mas ele... ah, dele eu pedia mais. Por isso deu errado... eu pedi amor.
Cheguei em meus pedestais de desejada e quebrei a cara. Ele me viu como eu era: uma baixinha magrela, com cara de menina e não de mulher. Percebi, pois me olhou diferente. Ainda vi tesão e desejo por me ter de novo, mas não por amor. Acho que por vingança.
Conversamos trivialidades e o tempo passou, sem nada do que queríamos acontecer. Imaginei que na hora da despedida, ele iria me pegar de jeito, como sempre fez, e não nos soltaríamos até as roupas estarem no chão. Ou melhor, sido recolocadas. Abracei-o uma vez e nada. Abracei-o de novo. Na terceira vez, puxou-me para bem perto, então sussurrei “Já faz tempo. É estranho”. Não sei porque disse isso, foi tão sincero, queria ter dito algo avassalador, mas fui muito mais eu-sincera-honesta-saudosa.
Senti como se um veneno circulasse por mim e desisti de tudo, de fazê-lo desejar-me por egoísmo, por orgulho, o que eu estava fazendo afinal, destruindo um casamento?
- Ai, deixa eu ir porque tô ficando sem graça – eu disse, perturbada.
- Tarde demais. Sem graça.
Ele devolveu meu veneno. Fui-me para sempre.
Resposta a Doce Deletério
***
Wonder, 4 anos e contando, esperando, amando, desejando...
Eu imaginei que nosso encontro seria selvagem. Eu ia tentar seduzi-lo com aquela sutileza que só nós mulheres temos, um seduzir sem se dar conta que está seduzindo, mas com todas as segundas, terceiras e quartas intenções de seduzir. Ele era fácil, todos são fáceis. Ou eu que sou boa demais nisso. Mesmo ele casado, isso não iria impedir. Eu tinha um poder soberano sobre ele, pois descobri suas mais íntimas fantasias e gostava de torná-las realidade. Não gosto de fantasias, por isso tento meu máximo para realizar os sonhos. Deste modo, tudo vira o real. E, assim, domino todos os homens. Mas ele... ah, dele eu pedia mais. Por isso deu errado... eu pedi amor.
Cheguei em meus pedestais de desejada e quebrei a cara. Ele me viu como eu era: uma baixinha magrela, com cara de menina e não de mulher. Percebi, pois me olhou diferente. Ainda vi tesão e desejo por me ter de novo, mas não por amor. Acho que por vingança.
Conversamos trivialidades e o tempo passou, sem nada do que queríamos acontecer. Imaginei que na hora da despedida, ele iria me pegar de jeito, como sempre fez, e não nos soltaríamos até as roupas estarem no chão. Ou melhor, sido recolocadas. Abracei-o uma vez e nada. Abracei-o de novo. Na terceira vez, puxou-me para bem perto, então sussurrei “Já faz tempo. É estranho”. Não sei porque disse isso, foi tão sincero, queria ter dito algo avassalador, mas fui muito mais eu-sincera-honesta-saudosa.
Senti como se um veneno circulasse por mim e desisti de tudo, de fazê-lo desejar-me por egoísmo, por orgulho, o que eu estava fazendo afinal, destruindo um casamento?
- Ai, deixa eu ir porque tô ficando sem graça – eu disse, perturbada.
- Tarde demais. Sem graça.
Ele devolveu meu veneno. Fui-me para sempre.
Resposta a Doce Deletério
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Wonder, 4 anos e contando, esperando, amando, desejando...
9 de fevereiro de 2010
9 do dois do dez / ou / Estou sem títulos na minha caixinha mágica de títulos.
Essa é pra você que me acompanha diariamente. Noturnamente melhor dizendo.
Acendo um cigarro, pego o violão e vou até a varanda. Um rap dos anos 90 toca ao fundo, deixo por enquanto. Enquanto queimo a nicotina, sonho com os desenhos da fumaça, imagino estar vendo o futuro, mas ele é triste, então corro pro passado. Não foi uma boa ideia também, melhor ficar aqui, pelo menos aqui eu controlo minha depressão. Nada está bom, só você que me acompanha por essas noites. Hoje, em especial. Hoje você está fantástica.
Ninguém na rua, movimento só do vento quente, observo as sombras das rabiolas sibilando gigantescas sobre as casas. Os desenhos das plantas na parede são engraçados. No asfalto, aquele enorme buraco e um pedaço de isopor esquecido pelo lixeiro. Só ele, tão sozinho. Desço correndo à sua captura, de cueca, no meio da rua vazia, o acaricio e o carrego pra casa. Aqui ele tem abrigo, não estamos mais sozinhos.
Allan me diz esta noite que podemos morrer a qualquer hora. Fico pensando nisso, e se eu morresse agora? Ia ser uma bosta. Ao mesmo tempo, alívio. Minha rua amarela não liga pra mim, fico às sombras do mercúrio. A música acabou. Meu cigarro também. Allan nunca esteve aqui esta noite.
Acendo outro cigarro na brasa do primeiro, lembrei dela, que odiava quando eu fazia isso. E eu sempre fiz mesmo assim. Penso na Alice também, em todas nossas conversas recentes. Não tiro conclusão nenhuma, só devaneio entre o pensar. Olho pro céu, as três Marias...
Pego o violão, uma ou outra nota melosa. Não quero me sentir assim, culpo o violão - desgraçado. Mas sinto que estou morrendo. Eu realmente posso sentir, agora que estou mais sensível. “Você é uma pessoa que faz as outras experimentarem o pecado, Yuri”. Ela nunca me chama de Yuri. Diz também que não tem orgulho de mim. Ótimo, um pecado a menos que a alivio.
O hálito de nicotina me faz lembrar outra menina, que me faz lembrar cinema, que me faz lembrar que queria ser um filme, pra quem sabe ser assistido e aí sim, morrer tranquilo. A gente só existe quando nossa morte existe. E só damos valor à vida quando a perdemos.
Tudo está comigo esta noite, menos o sono. Eu estou tão cansado. Queria descansar de todos vocês.
[suspiro] mais um texto ruim sobre nada. mas que merda.
Acendo um cigarro, pego o violão e vou até a varanda. Um rap dos anos 90 toca ao fundo, deixo por enquanto. Enquanto queimo a nicotina, sonho com os desenhos da fumaça, imagino estar vendo o futuro, mas ele é triste, então corro pro passado. Não foi uma boa ideia também, melhor ficar aqui, pelo menos aqui eu controlo minha depressão. Nada está bom, só você que me acompanha por essas noites. Hoje, em especial. Hoje você está fantástica.
Ninguém na rua, movimento só do vento quente, observo as sombras das rabiolas sibilando gigantescas sobre as casas. Os desenhos das plantas na parede são engraçados. No asfalto, aquele enorme buraco e um pedaço de isopor esquecido pelo lixeiro. Só ele, tão sozinho. Desço correndo à sua captura, de cueca, no meio da rua vazia, o acaricio e o carrego pra casa. Aqui ele tem abrigo, não estamos mais sozinhos.
Allan me diz esta noite que podemos morrer a qualquer hora. Fico pensando nisso, e se eu morresse agora? Ia ser uma bosta. Ao mesmo tempo, alívio. Minha rua amarela não liga pra mim, fico às sombras do mercúrio. A música acabou. Meu cigarro também. Allan nunca esteve aqui esta noite.
Acendo outro cigarro na brasa do primeiro, lembrei dela, que odiava quando eu fazia isso. E eu sempre fiz mesmo assim. Penso na Alice também, em todas nossas conversas recentes. Não tiro conclusão nenhuma, só devaneio entre o pensar. Olho pro céu, as três Marias...
Pego o violão, uma ou outra nota melosa. Não quero me sentir assim, culpo o violão - desgraçado. Mas sinto que estou morrendo. Eu realmente posso sentir, agora que estou mais sensível. “Você é uma pessoa que faz as outras experimentarem o pecado, Yuri”. Ela nunca me chama de Yuri. Diz também que não tem orgulho de mim. Ótimo, um pecado a menos que a alivio.
O hálito de nicotina me faz lembrar outra menina, que me faz lembrar cinema, que me faz lembrar que queria ser um filme, pra quem sabe ser assistido e aí sim, morrer tranquilo. A gente só existe quando nossa morte existe. E só damos valor à vida quando a perdemos.
Tudo está comigo esta noite, menos o sono. Eu estou tão cansado. Queria descansar de todos vocês.
[suspiro] mais um texto ruim sobre nada. mas que merda.
8 de fevereiro de 2010
Rotos

Pegou em minha mão e conduziu ao que seria o finito. Eu confiei nas doces palavras de seus belos lábios, depositei minha devoção e inspiração em ti. Confiei na tradução de seus gestos, e como gosto. Gosto mesmo de você.
Seu abraço espinhoso maltrata, mas preciso dele. Houve um tempo em que não tinha braços, e incontáveis dedos vinham ao meu encontro acompanhado de mão, antebraço, bíceps e todo o sentimento puro que cabe nisso tudo. Hoje cá estou com meus braços longos jogados ao ar mendigando o pouco abraço cansado que me sobrara.
Vazio, há um espaço entre nós que dói. Há uma fortaleza sobre sua pele, sobre a minha, seu coração e o meu, de papel, que eu mesmo fiz pra ver se enganava o vazio. Mas estragou.
Partidos. Não o de Pedro porque não o conheço tampouco assiste ao filme. Gostaria ter sido, para eu ser sui. Em seus braços, dela, que choverá em minha pele fria e pálida de lagartixa. Conduz-me à proteção, porque maltrata o coração quando abraça e afunda a faca.
imagem: Hermel Orozco.
5 de fevereiro de 2010
Gotas
Uma gota bem no meio do meu óculos. Corta a vista e me avisa que está na hora de correr ou de me molhar. Fico à espera de outras gotas, mas também quero correr, pra quê escolher se posso ter? Outras gotas me provocam. Dobro a calça na esperança de não molhá-la. Respiro fundo no meio do caos formado na cidade, fecho os olhos, sinto aquele cheiro de chuva no asfalto quente. Minha boca enche de água. Meu cabelo, meus olhos, meu rosto inteiro.
Divago olhando para cima. Quando o céu acinzenta, imagino que eu estou vendo tudo em preto-e-branco. Combina tanto com a cor do asfalto, dos carros, do concreto dos prédios. Combina com a nossa cara estúpida de cidade grande. Deixo as gotas caírem, mergulho em cada uma delas e me multiplico. Quantos Yuris cabem numa chuva?
Divago desviando poças, formando labirinto pelo caminho. Eu vejo meu reflexo no espelho d’água e me impressiono com o monstro do outro lado do portal. Intrigante. Tento entrar, mas despedaço em realidade. Afim de descobrir quantas chuvas cabem em mim, eu corro. Afim de... Sair daqui, fugir de mim, deixar só a chuva molhar. Quem sabe até escorrer, secar, evaporar com ela.
Chuto involuntariamente a água que invade meu pé quente. Vou desesperado para qualquer lado. Os guarda-chuvas dançam à minha volta, as pessoas são os obstáculos que tenho que enfrentar nessa jornada sem destino. Desesperado, sinto o sal na minha boca. Água salgada não vem do céu, mas também molha o rosto, mistura com o suor, com a saliva, com o papel.
Os céus choram por mim, para mim. Pesa meu corpo, mas meu punho se arma contra a tempestade brigando contra as gotas. Lá estava eu, mais uma vez, lá, sem saber onde eu estava.
Divago olhando para cima. Quando o céu acinzenta, imagino que eu estou vendo tudo em preto-e-branco. Combina tanto com a cor do asfalto, dos carros, do concreto dos prédios. Combina com a nossa cara estúpida de cidade grande. Deixo as gotas caírem, mergulho em cada uma delas e me multiplico. Quantos Yuris cabem numa chuva?
Divago desviando poças, formando labirinto pelo caminho. Eu vejo meu reflexo no espelho d’água e me impressiono com o monstro do outro lado do portal. Intrigante. Tento entrar, mas despedaço em realidade. Afim de descobrir quantas chuvas cabem em mim, eu corro. Afim de... Sair daqui, fugir de mim, deixar só a chuva molhar. Quem sabe até escorrer, secar, evaporar com ela.
Chuto involuntariamente a água que invade meu pé quente. Vou desesperado para qualquer lado. Os guarda-chuvas dançam à minha volta, as pessoas são os obstáculos que tenho que enfrentar nessa jornada sem destino. Desesperado, sinto o sal na minha boca. Água salgada não vem do céu, mas também molha o rosto, mistura com o suor, com a saliva, com o papel.
Os céus choram por mim, para mim. Pesa meu corpo, mas meu punho se arma contra a tempestade brigando contra as gotas. Lá estava eu, mais uma vez, lá, sem saber onde eu estava.
29 de janeiro de 2010
A não significância do cotidiano

A densidade dos tons pastéis naquele calendário de anos passados representa meus dias. Dias mortos, desatualizados, sem referências, perdidos no cerne mais profundo da decadência. Às vezes quero que morra todos esses dias e números e cores e sons, aí então meu ouvido tapa e abafa o som, zunindo uma freqüência modular contínua. A audição é nosso único sentido involuntário.
No caderno, rabiscos irresponsáveis e memórias momentâneas. Escritos e desenhos da inconsciência. Minha mão tem o alcance limitado, meus dedos são fracos, quebráveis, e nem sempre é fiel à minha cabeça, que voa além do visível e da compreensão em busca de sentindo. Não fazendo sentido algum. Em busca de sentido. Não fazendo sentido algum. Em busca de sentido. Não fazendo sentido algum.
As teclas que batem na tela tiram a personalidade da minha letra, mas não das minhas palavras. Coço a cabeleira suja e junto aquela camada branca do couro da cabeça embaixo das unhas. Um pouco de sangue para não deixar o costume de sangrar. A sujeira de fora combina com a de dentro.
Tudo sempre me incomoda. A cama mais quentinha, o desenho mais engraçado, as lágrima das gargalhadas de ontem, a companhia mais amorosa. Minha carne. Nessas horas, tenho vontade de sumir ao meu lugar, que há tanto não visito. Para o meu interior. A contravenção é que estou sempre tentando sair de lá, daqui, quero dizer... Sei lá, enfim, estou sempre tentando fugir e dar um basta a isso tudo.
Sem sucesso, fico com a densidade das cores, os dias mortos, as pessoas zumbis, meus rabiscos, meus dedos quebráveis, minha cabeça fraca sem sentido, as teclas, a sujeira embaixo da unha, sangue, os incômodos, as brigas, as não-brigas, tudo que a gente diz e não diz, minha carne, a contravenção, lá, aqui, a isso tudo e a audição, que é nosso único sentido involuntário. A não significância do cotidiano até que é bastante pra quem é quase nada.
involuntário.algum.dentro.tudo.nada.ilustração:rafaelsica.
27 de janeiro de 2010
Catorze
Não me imagino sem você.

Logo, não há vida sem você.
Quero dever-te meu futuro.
Feliz aniversário!
"Há qualquer coisa no amor sem egoísmo e abnegado de um animal que atinge diretamente o coração de quem tem tido frequentes ocasiões de experimentar a amizade mesquinha e a fidelidade frágil do simples Homem"[O Gato Preto - Edgar Allan Poe]
25 de janeiro de 2010
Um Lucky Strike não te substitui
Faz algum tempo que ela não me acompanha. Nas noites é quando mais sinto sua falta, quando antes de deitar, nos beijávamos. Eu a dobrava, acariciava, lambia... Era tão bom, tão sincero.
A gente era fogo. Só ela me fazia voar, com seu jeito particular de idealizar os pensamentos. Quando deitava com ela na minha mente, via um mundo diferente ao seu lado. Tudo fazia sentido, eu ficava bem e alinhado. Ria, gozava, afundava no colchão e os sonhos eram o que eram.
Desde que foi embora, minha vida perdeu um pouco as cores. Os desejos já não desejo tanto assim, a comida perdeu o sabor, as piadas perderam a graça, a música e o sexo continuam bons, mas não é a mesma coisa. Às vezes acho que, na verdade, nada tem graça e a vida não pode me oferecer algo melhor.
Agora observo a madrugada sem tê-la em minhas mãos, em meus lábios. Observo o brilho fraco das estrelas pensando onde estaria se ela estivesse comigo. Vejo a noite passar insone e não me encontro em lugar nenhum. Pego um cigarro, acendo, trago. Trago. Não sinto, não sinto mais, não é ela. Um Lucky Strike não te substitui.
A gente era fogo. Só ela me fazia voar, com seu jeito particular de idealizar os pensamentos. Quando deitava com ela na minha mente, via um mundo diferente ao seu lado. Tudo fazia sentido, eu ficava bem e alinhado. Ria, gozava, afundava no colchão e os sonhos eram o que eram.
Desde que foi embora, minha vida perdeu um pouco as cores. Os desejos já não desejo tanto assim, a comida perdeu o sabor, as piadas perderam a graça, a música e o sexo continuam bons, mas não é a mesma coisa. Às vezes acho que, na verdade, nada tem graça e a vida não pode me oferecer algo melhor.
Agora observo a madrugada sem tê-la em minhas mãos, em meus lábios. Observo o brilho fraco das estrelas pensando onde estaria se ela estivesse comigo. Vejo a noite passar insone e não me encontro em lugar nenhum. Pego um cigarro, acendo, trago. Trago. Não sinto, não sinto mais, não é ela. Um Lucky Strike não te substitui.
20 de janeiro de 2010
Baba santa
Um casal, na beira da rodovia, olhava algo no chão, perplexo. Isso nunca é um bom sinal. Eu sabia que não devia olhar – e, nisso, sei me controlar muito bem. Mas a audição é o sentido mais difícil de bloquear. Logo, não pude deixar de ouvir, apesar de toda minha concentração. Já perto, notei que a perplexidade era mórbida e doente, olhar de curiosidade sobre a carne (olhar este que funciona tanto quando a carne significa libido, quanto quando significa morte) – e não havia nada de filosófico sobre o além da vida em seus olhares. Na verdade, estou julgando, pois, apesar da indignação na fala, a permanência a olhar o que estava jogado na sarjeta me dizia outra coisa
Ao passar, pensei que poderiam ser tantas coisas, mas essas tantas não despertariam a curiosidade que vi, do casal, como de um grupo de mulheres que passavam longe, mas cientes do que estava no chão. Estranhei, me assustei. Nestes poucos segundos, percebi que deveria me afastar do local, o mais rápido possível. Tracei minha fuga e meus olhos desenharam o contorno mais próximo da cena o possível, nos limites de tudo, pois eu já estava perto demais quando compreendi o que era. Ouvi a moça descrever com indagações sobre os homens o que viu. Eu quase não ouvi e quase não vi... queria não ter quase nada.
Na volta – foi um caminho de ida e volta, infelizmente–, passei o mais longe possível. Secretamente, quis me jogar, abraçar e beijar loucamente uma carne queimada dentro de um saco, o que não faz sentido algum, pois tudo que eu amo ali já tinha ido embora. Então, eu começo meus questionamentos sobre os homens, sobre a vida, sobre a realidade e fantasia, mesclados com minha dor e meu choro. Acabei passando longe de algo que me chamava. Espero um dia responder ao chamado de uma forma mais eficaz que numa pequena reflexão.
Em outro pedaço do caminho, porém, já longe do local, vi um jovem cão. Não resisti em deixá-lo morder minhas mãos e me puxar pela barra da bermuda. Poucas coisas me fazem tão feliz como isso.
Ao passar, pensei que poderiam ser tantas coisas, mas essas tantas não despertariam a curiosidade que vi, do casal, como de um grupo de mulheres que passavam longe, mas cientes do que estava no chão. Estranhei, me assustei. Nestes poucos segundos, percebi que deveria me afastar do local, o mais rápido possível. Tracei minha fuga e meus olhos desenharam o contorno mais próximo da cena o possível, nos limites de tudo, pois eu já estava perto demais quando compreendi o que era. Ouvi a moça descrever com indagações sobre os homens o que viu. Eu quase não ouvi e quase não vi... queria não ter quase nada.
Na volta – foi um caminho de ida e volta, infelizmente–, passei o mais longe possível. Secretamente, quis me jogar, abraçar e beijar loucamente uma carne queimada dentro de um saco, o que não faz sentido algum, pois tudo que eu amo ali já tinha ido embora. Então, eu começo meus questionamentos sobre os homens, sobre a vida, sobre a realidade e fantasia, mesclados com minha dor e meu choro. Acabei passando longe de algo que me chamava. Espero um dia responder ao chamado de uma forma mais eficaz que numa pequena reflexão.
Em outro pedaço do caminho, porém, já longe do local, vi um jovem cão. Não resisti em deixá-lo morder minhas mãos e me puxar pela barra da bermuda. Poucas coisas me fazem tão feliz como isso.
18 de janeiro de 2010
Espectadora de mim
Tâmara Porto Medeiros é minha suplente. Quando eu não estou bem, ela toma meu lugar no palco. Para isso, ela me segue nos ensaios, decorando minhas falas, vivenciando minhas cenas e recolhendo informações sobre minha personagem, para poder me substituir sem muitas diferenças. Minha suplente me acompanha em todas as peças que faço, sabe agir como eu. Logo, quando inicio uma nova peça, ela só precisa conhecer a situação atual, como é o momento desta personagem e imprimir meu estilo, que ela conhece muito bem.
Em cada nova montagem, que duram por volta de um mês, eu tiro uma semana para mim. Às vezes porque fico doente, às vezes porque quero dar uma chance para ela, que tem talento. Não precisa viver sua vida inteira como suplente. Por isso dou essas chances para a Tâmara. Além de ser um descanso para mim, é interessante observar-me de fora, ser espectadora de mim.
Lá vai ela... quebre uma perna! Sempre fico aqui, atrás das cortinas, sussurrando as falas com ela. “Mas não foi isso que aconteceu!”, ótima performance! Agora, a personagem se desculpa pela ligeira exaltação... “porra, eu disse que não foi isso que aconteceu! Eu cheguei lá e tudo tava jogado, eu não destruí suas merdas, não quero nem tocar nas suas merdas”. Tâmara, o que é isso? Essa não é a fala! Você se desculpa e abraça ele... “sempre você que está certo, sempre! Homem é tudo a mesma coisa, e eu sou cheia de chavões e estou pouco me fodendo!!! Se você é um clichê de homem, eu serei um clichê de mulher! Vou ser uma louca insana e gritar loucamente!”. Oh, não... Tâmara! Você está destruindo a peça! O cara que contracena com você nem sabe como reagir, você está sendo uma louca mesmo... preciso entrar no palco! Não, senhor, eu sou a atriz principal, eu preciso tirar ela do palco! Mas como assim, sou eu! Nos vemos todos os dias nos ensaios! Ela vai arruinar tudo! “Quero que você vá pra puta que pariu, que vá se foder, você e sua arrogância de merda! Você não serve pra nada, porco estúpido! Olha o que eu faço com seus preciosos livros! E com seus filmes! Tudo é mais importante que eu! TUDOOOOOOOOOO! VOU QUEBRAR TODAS SUAS MERDAS! E você saia daqui, que não agüento nem olhar pra tua cara!!!”.
Ela se calou, graças a Deus! Vai, diga algo cara! Nossa, ele está em choque... oh, não, e agora, o que ela está fazendo?! “Me desculpa meu amor, não me deixe, eu te amo, por favor, não me deixe, me desculpa! Eu não sei o que aconteceu comigo, por favor não vá... olha, olha pra TV!” – um comercial de ração? – “Poderíamos ser nós dois e o Totó, uma família feliz, oh não, não se vá, por favor! Eu sou uma idiota, não te mereço, mas não se vá, te amo, não se vá”. Ela está chorando e implorando? Como assim? Ela está em prantos, soluçando... ela não consegue nem respirar! Ela vai ter um treco! “Por favor!!!! Olha pra mim, estou me arrastando e suplicando, eu não sou nada sem você, por favor, não me deixe, te imploro! Olha pra mim, eu não existo! Eu vou morrer se você me deixar, vou morrer!! P-por favor, huh, por favor, não não não me deixe, uh, oh, não, eu não sei o que que, uh, fazer sem você!!!!! Eu não sei eu não sei! Você é tudo pra mim, tudo, p-pra mim, meu mundo, minha v-vida, nada faz sentido!! Eu te amo, te imploro, por favor, o que eu, huh, o que eu vou fazer????”.
Ela parou. De gritar, de berrar, de chorar, de soluçar. E deixou o palco. Eu entrei, para terminar a cena. Pedi desculpas e contornei a situação de forma sensata. Fiquei semanas sem ver Tâmara. Até que, um dia, ela reapareceu. E eu bem que precisava de uma folga. Então, dei outra chance a ela. Novamente, ela gritou, bateu, chorou, surtou. Sempre me esqueço que sua performance nunca muda, é sempre um surto. E não há nada que eu possa fazer, ela faz parte de mim.
Em cada nova montagem, que duram por volta de um mês, eu tiro uma semana para mim. Às vezes porque fico doente, às vezes porque quero dar uma chance para ela, que tem talento. Não precisa viver sua vida inteira como suplente. Por isso dou essas chances para a Tâmara. Além de ser um descanso para mim, é interessante observar-me de fora, ser espectadora de mim.
Lá vai ela... quebre uma perna! Sempre fico aqui, atrás das cortinas, sussurrando as falas com ela. “Mas não foi isso que aconteceu!”, ótima performance! Agora, a personagem se desculpa pela ligeira exaltação... “porra, eu disse que não foi isso que aconteceu! Eu cheguei lá e tudo tava jogado, eu não destruí suas merdas, não quero nem tocar nas suas merdas”. Tâmara, o que é isso? Essa não é a fala! Você se desculpa e abraça ele... “sempre você que está certo, sempre! Homem é tudo a mesma coisa, e eu sou cheia de chavões e estou pouco me fodendo!!! Se você é um clichê de homem, eu serei um clichê de mulher! Vou ser uma louca insana e gritar loucamente!”. Oh, não... Tâmara! Você está destruindo a peça! O cara que contracena com você nem sabe como reagir, você está sendo uma louca mesmo... preciso entrar no palco! Não, senhor, eu sou a atriz principal, eu preciso tirar ela do palco! Mas como assim, sou eu! Nos vemos todos os dias nos ensaios! Ela vai arruinar tudo! “Quero que você vá pra puta que pariu, que vá se foder, você e sua arrogância de merda! Você não serve pra nada, porco estúpido! Olha o que eu faço com seus preciosos livros! E com seus filmes! Tudo é mais importante que eu! TUDOOOOOOOOOO! VOU QUEBRAR TODAS SUAS MERDAS! E você saia daqui, que não agüento nem olhar pra tua cara!!!”.
Ela se calou, graças a Deus! Vai, diga algo cara! Nossa, ele está em choque... oh, não, e agora, o que ela está fazendo?! “Me desculpa meu amor, não me deixe, eu te amo, por favor, não me deixe, me desculpa! Eu não sei o que aconteceu comigo, por favor não vá... olha, olha pra TV!” – um comercial de ração? – “Poderíamos ser nós dois e o Totó, uma família feliz, oh não, não se vá, por favor! Eu sou uma idiota, não te mereço, mas não se vá, te amo, não se vá”. Ela está chorando e implorando? Como assim? Ela está em prantos, soluçando... ela não consegue nem respirar! Ela vai ter um treco! “Por favor!!!! Olha pra mim, estou me arrastando e suplicando, eu não sou nada sem você, por favor, não me deixe, te imploro! Olha pra mim, eu não existo! Eu vou morrer se você me deixar, vou morrer!! P-por favor, huh, por favor, não não não me deixe, uh, oh, não, eu não sei o que que, uh, fazer sem você!!!!! Eu não sei eu não sei! Você é tudo pra mim, tudo, p-pra mim, meu mundo, minha v-vida, nada faz sentido!! Eu te amo, te imploro, por favor, o que eu, huh, o que eu vou fazer????”.
Ela parou. De gritar, de berrar, de chorar, de soluçar. E deixou o palco. Eu entrei, para terminar a cena. Pedi desculpas e contornei a situação de forma sensata. Fiquei semanas sem ver Tâmara. Até que, um dia, ela reapareceu. E eu bem que precisava de uma folga. Então, dei outra chance a ela. Novamente, ela gritou, bateu, chorou, surtou. Sempre me esqueço que sua performance nunca muda, é sempre um surto. E não há nada que eu possa fazer, ela faz parte de mim.
“Eu choro vendo comercial de ração, e daí?!” - T.P.M.
13 de janeiro de 2010
Só algo que eu fico pensando...

Eu dependo do Sol, pela esperança dele me dar o que preciso.
Quando estou na frente de um muro, consigo olhar em seus olhos. Então posso senti-la.
Quando estou na moto, eu gosto de olhar minha sombra no asfalto. Às vezes me desligo com o desenho da minha forma no chão. Devo ter causado alguns acidentes, que ficam apenas no meu retrovisor. Mas eu só olho pro chão.
Não é narcisismo. E só que, eu fico pensando se... Deixa pra lá, vai soar estúpido.
Euficopensandoseeupudessetrocardelugarcomela...
Como seria. Deve ser infeliz ser minha sombra. Eu que sou eu tento fugir de mim o tempo inteiro, imagine não ter essa opção, deve ser um pesadelo. Tenho dó dela. Enfim, tenho dó de alguém.
As linhas que dividem as pistas criam vida e dançam minha partida. Pois estou sempre partindo, nunca indo ou vindo. Sempre me despedindo dos amigos e amores, como se fosse a última vez. Eu só parto. Desde que nasci.
A minha sombra me segue nos atos e sofre o dia inteiro comigo, mas se orgulha pela noite, porque todos sabem, eu gosto da escuridão, e é onde ela toma conta de mim, onde eu deixo ela crescer. Onde eu me torno ela e ela sou eu. Em minha solidão, nunca estou sozinho.
Fico nesse breu pensando se há alguém no mundo mais infeliz que eu.
“Hey you! Out there in the cold
Getting lonely, getting old, can you feel me?
Hey you! Standing in the aisles
With itchy feet and fading smiles, can you feel me?
Hey you! Don’t help them to bury the light
Don't give in without a fight.”
---
Queria algo interessante para começar o ano; algo bom, significativo; algo novo; ou que desse retorno para mim e para quem lesse. Queria escrever melhor, ter mais tempo, mais referências, mais inspirações para outros temas. Mas minha cabeça só pensa fragmentada, espelho de meu coração. Tristezas em fragmentos, sentidos e não sentidos. Só algo que fico pensando...
Queria algo interessante para começar o ano; algo bom, significativo; algo novo; ou que desse retorno para mim e para quem lesse. Queria escrever melhor, ter mais tempo, mais referências, mais inspirações para outros temas. Mas minha cabeça só pensa fragmentada, espelho de meu coração. Tristezas em fragmentos, sentidos e não sentidos. Só algo que fico pensando...
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