Sejam bem-vindos ao outro lado do espelho, onde tudo pode acontecer (e acontece).

Wonderlando é um blog sobre textos diversos, descobrimentos e crescimento. A filosofia gira em torno do acaso, misturando fantasia e realidade de dois amigos que se conheceram também por acaso, Alice - que tem um país só seu -, e Yuri - chapeleiro e maluco nas horas vagas.

Leia, comente e volte sempre... Ou faça como a gente e não saia nunca mais.

7 de maio de 2008

Yellow Light, Yellow Heat*

Com aqueles óculos escondia o olhar. Foi naquela tarde ensolarada que pôde enxergar tudo diferente. Com as ruas vazias, cheias de lixo e cheirando comida, sem fé e sem fome, saiu.

Lentes amareladas o faziam enxergar tudo diferente, distorcidamente belo. O faziam mais visível, embora se sentisse transparente. Embora se sentisse corajoso, sem ego. Carros coloridos e vozes e guardanapos engordurados de pastel faziam a paisagem. O Sol estava muito mais próximo naquele dia, encarava-o sem desviar o olhar, e sentia que podia tocá-lo. O Sol se viu pela primeira vez nos olhos daquele.

Corria. Sem rumo algum, parou e a ficha então caiu. Sentiu que podia encostar na música, podia vê-la e enxergar suas cores, podia ver o vento e suas vontades. No meio de tantas cores que seus óculos permitiam enxergar, se viu inóspito, projetado fora de seu corpo, estático e incolor. Folhas de jornal dançavam a sua frente, seus cabelos esvoaçavam e o vento tomava suas mãos. Ouviu as vozes uivantes dizerem.

Falava quando não havia assunto, quando todos prestavam atenção à outra coisa. Falava sozinho e tudo bem, não esperava resposta alguma. Porque tinha seus óculos, e com eles não havia sombra alguma, e enxergava o tudo à sua maneira. Com as lentes amareladas, via o mundo como o mundo jamais o enxergaria. Sorria e chorava diferentes cores feitas de lágrimas psicodélicas.


[Com aqueles óculos escondia o olhar, mas não deixava de ver. Foi naquela tarde ensolarada que pôde enxergar tudo diferente. Com as ruas vazias, cheias de lixo e cheirando comida, sem fé e sem fome, se entregou à Morte.]


*Alusão referente à White Light, White Heat, do Velvet Underground.

3 de maio de 2008

Desiguais


prenda a respiração e me acorde
finja que não gosta de mim
você disse "pra sempre"
que sempre seria assim
você disse
o pra sempre teve fim

já faz tanto tempo
que diferença faz
seus olhos sempre atentos,
desiguais
sua boca me atacando sedenta
tudo se move em câmera lenta
e se eu disser
que não te pertenço mais

unhas café em pele sulfite
marcam minha carne triste
do jeito que eu sempre quis
unhas café em pele sulfite
marcam minha carne triste
me fazendo um pouco mais feliz

você sempre precisou de atenção,
só pra dizer que não

eu não te quero mais
não te quero mais
te quero mais,
te quero mais
somos tão iguais

eu te quero mais
mas somos desiguais



-

Protection


Aquela manhã foi algo especial. Era a primeira hora da manhã quando ela apareceu. Nunca direcionou as conversas para ela mesma, tampouco falava de assuntos pessoais. Isso não, nunca e jamais. Quando se despia era o máximo de sua intimidade que alcançaria, que ela me permitiria. De carne tão macia, eu queria mais do que o doce que oferecia, eu queria o amargo - "Diga-me algo". Eu me satisfazia em sua carne e com poucas palavras de você, ficaria satisfeito. Mas não tem jeito. Me contentava só com o silêncio que ela fazia.

Me pediu confiança, "eu confio". Depois me pediu arrependida para que eu não confiasse mais em seu olhar que contrariava os lábios sem que ela soubesse. Até o coração ela segurava, mas seu olhar a entregava. Eu fingia que de nada sabia. Eu confiava, sempre o fiz por entendê-la mesmo sem nada entender. Ela não reclamava. Gemia, gemia...

Aquela manhã foi algo especial. Chegou me fazendo abrir um sorriso mental, pois era muito cedo para demonstrar qualquer emoção facial. Veio em minha direção como flecha na mira, como se corresse de uma explosão. Em meu colo repousou as feridas e se pôs a chorar, derreteu o coração. Não disse nada. Eu também não perguntei. Proteção.




"Eu tenho sua essência guardada em mim" -


"This girl I know needs some shelter

She don't believe anyone can help her

She's doing so much harm, doing so much damage

But you don't want to get involved

You tell her she can manage

And you can't change the way she feels

But you could put your arms around her"

- Massive Attack -

1 de maio de 2008

Próxima Estação/Companhia

Antigamente, eu achava o verão minha estação preferida. Aquele calor me excitava, mas também me fadigava. Não tem sono no verão porque o Sol não deixa, absurdo!, e eu me culpando de tudo. Com o tempo e as pintas que ganhei do Sol, percebi que o verão é igual açúcar - enjoa. E eu derretia a cada gota de suor. O verão desgasta.

Enjoado, tentei me convencer de que era a primavera minha estação favorita. Com todas aquelas flores e cores e perfumes. O gosto doce e amargo da vida num pêssego fresco. Aí percebi os insetos e alergias. Percebi também que não havia ninguém para presentear com flores. Apodrecia com os frutos, a primavera já não parece tão favorita.

Eu gosto mesmo é do outono. É a estação fúnebre, de galhos secos e folhas mortas. O cenário cinza. Por vezes ensolarado, de vento gelado, de longas noites... A estação indecisa e controversa que faz o que bem entender, sem precisar seguir regras, a não ser destruir o que a primavera plantou. A vida precisa morrer, essa regra não foi eu quem inventou.

Do inverno nunca gostei, ele não tem coração. E tenta compensar com filmes ruins e fondue. Tem lá sua graça, mas também não é de toda graça. Tem lá seu charme. Lá, não aqui, porque é uma estação que precisa de dinheiro. Dinheiro e companhia para se esquentar embaixo do edredom, para suar como no verão, para presentear com flores da primavera e para morrer, como no outono.

21 de abril de 2008

Sem sinais de fumaça

Ambivalências à parte, contagens regressivas mexem com os ácidos do estômago. Pensamentos circulares, inúteis, pois no final das contas a gente nada decide. Mas como afastá-los? Dói afastá-los assim como dói tê-los.

Um sorriso de aparelho para um sorriso de dentes tortos. Seu abraço sem medo que acolhe os meus. Um encaixe gostoso, tão instável quando longe, tão seguro quando perto.

Indo contra minha corrente, vamos juntos. E vamos... e vamos... e vamos.

Não quero fazer daqui minhas cartas que nunca recebrá. Não quero ouvir sua voz murchar quando falo aquelas palavrinhas difíceis.

Faça o desejo agora. No 23.

Goodbye Cruel World

...

Sketch

Eu não preciso escolher um lado, tanto faz o que transpassa, já passou. Já misturou. O espelho me reflete ao contrário e ri de mim sempre feliz. Duplica minha dor e meus desejos. Vai embora sem avisar e volta me assustando com um rosto que desconheço. Foi o que me sobrou. O negativo do meu próprio reflexo.

Invenções de um mundo de ilusão. Finjo amor, finjo piadas. Finjo estar tudo bem com uma máscara estampada. Eu queria deitar, olhar tudo como se tudo fosse estar ali quando eu despertar. Ali, bem do jeito que eu deixei. Mas a alquimia natural do mundo não torna isso possível. Quando eu acordar desse pesadelo, tudo vai ser mais bonito.

Para os que ficarem para trás, não me sigam, cada um tem o seu caminho e seus motivos. Para quem chorar, seque-se em minhas poesias, molhe minha dor enquanto enxugo a sua. Uns rabiscos pra dizer que meu amor está cada vez mais perto. E eu amo cada vez mais, porque é a única certeza. Amar é sempre destrutível, mas nem sempre ter razão é bom.




"My love can go where you don't know
and I love to grow, where you don't know
I know I'll always be like this
Until I can find a cure
If my love is my disease,
I will love you more and more"
- Sketch (Yoñlu)

20 de abril de 2008

Sem seqüelas

Ele pulava como uma criança, gritava como num parque de infância e se despia como nos dias quentes das férias de verão. "Mamãe, tenho super-poderes, posso voar!". E voou. Voou como um adolescente em desespero, numa família conturbada, um gênio grande num corpo pequeno. Quebrou-se de fora pra dentro, pois falhara de dentro pra fora. A marca do peso de sua dor está lá... ainda não foi pintada por cima.
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Será que seu corpo quebrou? Agora penso e não sei. Acho que nunca saberei. Espero que para ele tenha funcionado e ele tenha conseguido. Quebrou sem morrer, o que ele pensa agora?
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Histórias à parte, queremos filme e novela, mas não foi nada disso. Queremos a subjetividade cuspida na vida, porém tudo foram fatos. Miligramas diferentes. Foi de fora pra dentro o grito, a tentativa, o pulo. O que não elimina a força das suas vísceras, mas mascara a verdade. O que ele pensa agora?
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"Será que fui eu mesmo?"

19 de abril de 2008

Prelude to a Kiss

Se encontravam frente-à-frente, distantes dois passos um do outro, talvez nunca tão perto. Se olhavam e desviavam os olhares quando se encaravam. Olhar a alma é sempre complicado. Simples e complicado.

O assunto não podia acabar, e se forçavam a falar sobre tudo. Tudo que se resumia a qualquer coisa que não os fizessem em silêncio. As mãos dele suavam. Ela enrubecia gradativamente. Risadas tímidas de ambos sem-graça. Flertes em tom de brincadeira. Qualquer história inventada como desculpa para se encostarem. Leves toque que arrancavam suspiros secretos.

O peito batia como se o coração desejasse pular dali e dizer "Hey, estou aqui, e eu te quero". Ela o queria tanto assim. Ele a queria tanto assim. As bocas se olhavam, se desejando. E as imperfeições eram perfeitas. O cenário não importava, e os únicos sons que faziam sentido eram os que se faziam recíprocos a eles. Aquele era o instante em que tudo pára.

Ela sempre queria, sempre fugia, sempre exitava sem explicação lógica. Mulheres são assim mesmo. Ele sempre era deixado pra trás sem qualquer justificativa convincente. Mas era insegurança, incerteza, eram motivos e motivos. Era tudo que os braços dele a livraria se ela permitisse. Ela toma o primeiro passo quebrando o silêncio com um "eu tenho que ir" já arrependido.

- Para onde você vai?
- Para qualquer outro lugar.
- Um passo à frente já é outro lugar.

16 de abril de 2008

[Vida Besta]


...Foi numa madrugada besta assim, como esta, que descobri minha atual velhice.

Quem é Quem (e vice-e-versa)

Sobem pelo meu corpo. Aos poucos me formiga todo. Literalmente. Caminham lentamente, ordenadamente de encontro. Pelo corpo todo. Eu quero ser a rainha. Serei a mais bela de todas.

Vieram adiante sem eu nada poder fazer. Sem o devido respeito ocuparam todo o espaço. Me deram vestido, me coroaram. Me deram um orgulho pra cuidar. Antes que pudesse ouvir chamar, tomaram meus ouvidos. Antes que pudesse gritar, ocuparam minha boca. Desceram ao meu estômago e comeram as borboletas. Me iludiram ser nobreza, me fizeram acreditar.


Seguraram minhas mãos, me impediram de atitudes. Comeram meus cabelos e todas minhas personalidades. Entraram em minhas veias, apodreceram meu coração. Meu pobre coração... - Mas eu sou a rainha - tentando me justificar, tentando fazê-las entender.


Formigas. São todos formigas. Pena eu não ter uma lupa gigante, pena o sol não estar escaldante. A minha vantagem em relação às formigas é que elas vivem em silêncio, e eu não as ouço chorar. A vantagem é eu ser bem maior que elas.








- Eu sou a rainha - gritava, - EU SOU A RAINHA! - Por medo e raiva, atacava. E pisava, e pisava, e pisava...

[Tirinha] O Inferno São os Outros


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