Sejam bem-vindos ao outro lado do espelho, onde tudo pode acontecer (e acontece).

Wonderlando é um blog sobre textos diversos, descobrimentos e crescimento. A filosofia gira em torno do acaso, misturando fantasia e realidade de dois amigos que se conheceram também por acaso, Alice - que tem um país só seu -, e Yuri - chapeleiro e maluco nas horas vagas.

Leia, comente e volte sempre... Ou faça como a gente e não saia nunca mais.

21 de junho de 2010

Histórias de Dormir [Segredos do Mar]

- Conta uma história pra eu dormir?
- Ah Yu, eu não sei. Conta você.
- Ahhh eu?
- É.
- Hm... Não consigo pensar em nada agora.
- Consegue sim. Vou te dar três palavras e você vai contando.
- Tá.
- Praia, céu e peixes.
- Hm... Beleza, vou tentar.

Primeira noite: Segredos do Mar

Quis sentir os vidros em seus pés. Moídos, os cacos se misturavam a outras coisas misturadas a outras que formavam cacos que se misturavam a seus pés. Segredos partidos na areia. Areia que nos olhos são sonhos, nos pés, caminhos.

Quanto mais afundava nos vidros, mais entrava naquele deserto que aos poucos se tornava praia. Mais ela fazia parte de mim e eu dela. Olhei o Sol no topo, não estava calor, não era verão, mas brilhava imponente sem se importar. Ele brincava com as sombras de tudo, só pra se distrair, matar o tempo. Elas dançavam a minha volta fazendo um convite que recusei.

Percebi então que o mar não tem sombra, só um lado sombrio. Apreensivo, pus um pé, depois outro. Não sabia dizer se a água estava quente ou gelada, com ondas agitadas ou cansadas. Adentrei hipnotizado, como se a própria Iara ou Iemanjá tivessem aparecido e me feito o convite. Quando vi, só estava com a cabeça pra fora, então me deixei afundar.

Percebi que as estrelas que caiam do céu iam parar ali, no fundo do mar. E a luz do Sol não alcançava os mistérios reservados a poucos. Lá havia um enorme vazio, como na superfície, só que tudo era em câmera lenta. A semelhança fazia com que tudo fosse parecido e a tristeza tomava conta de mim aos poucos, fazendo meu humor combinar com o azul frio do mar.

Foi aí que, cansado de olhar tanto pra baixo, olhei pra cima. Vi uma luz lá do alto, os peixes flutuavam no céu.

16 de junho de 2010

Diamond Eyes p3 [Fim dos Mundos]

Não queria ir devagar, queria levá-la para casa. Queria poder sonhar novamente, encontrá-la novamente só para ouvir o que tem a dizer. Não havia língua em sua boca, sua pele cansada, marcada e frágil indicava a doença. Seu olhar, esperança.

Pálido, doente, fraco. Ela reapareceu e sentou ao seu lado. Estendeu a mão e lhe ofereceu um cigarro, um cigarro mágico. Lá estava ela, completa com suas roupas de couro, pele indígena e cabelos negros e desgrenhados, como se nunca havia partido. Ela também não podia falar. Estava ali, no limite do além, e se bastavam.

O pegou pela mão e aconselhou com um pedaço de papel surrado: “Embrulhe seu coração, você talvez vai precisar dele”.

“Venha pra fora e inspire a vida, relaxe os ombros e deixe-me entrar”. É um jogo que eles gostavam de brincar. Ele ainda precisava resolver as coisas no mundo exterior, além do fim. Esse foi o conselho dela pra ele, que finalmente entendeu, amadureceu e se fortaleceu para as batalhas seguintes no mundo que dói.

Permaneceram ali. Os olhos de diamantes dela diziam saudade de um futuro incerto, os dele indicavam medo de ter que voltar, acordar e enfrentar tudo de novo, de uma forma dolorida. Porque procurar a dona do diabo não era o mal, pois não se sentia ferido, não havia conseqüências inseguras. Não mais. Ele se sentia o próprio demônio em seu braço.

Ele jamais esqueceria. Ela também, e sentiu que o perdia pra ele mesmo.

Até o fim dos mundos.

14 de junho de 2010

Diamond Eyes p2 [Caminhos Perdidos]

As memórias são filmes sem ilha de edição.
Ideias rondam os homens
que falam línguas que parecem sem razão.
Ele ainda estava perdido,
Sua amante prometia retornar,
Mas ele havia esquecido.
Ela mentiu.

Por mil dias ele andou sem parar, se arrastando pelas noites de seus olhos. Nunca mais viu luzes cintilarem tão forte, com tanta precisão. Não sabia seu nome, nem ninguém a conhecia no fim do mundo onde ela o havia mandado.

“Foi muito bom estar com você aqui”, os demônios repetiam retorcendo a voz dela em sua cabeça. Ele nunca estava cansado, mas perdido, sem saber se realmente desejava voltar ao mundo desperto. Seus passos infinitos não rendiam. Confuso, contou e ouviu histórias sobre mulheres piratas e amazonas, xamãs que dominavam a língua dos homens e os fazia escravos da liberdade. Não se falava em realidade ali, não havia motivo para definições. Só histórias.

A sentia por perto, em outros planos, em outros seres, em tudo ali. Ela o mandara para seu mundo para que ele pudesse mandá-la para o dele. No meio da jornada se questionou e se perdeu confuso.

Havia dúvidas sobre quem salvar. “Eu vou encontrar um caminho, vou confundi-los, eu acho que consigo. Vou salvar sua vida”, ele dizia. Quem corria para resgatar uma alma perdida agora precisava ser salvo. “Você é quem precisa ser salvo”, a voz dela batia forte dentro dele. Ele nunca mais a viu. Ela prometeu.

Ele não dormia.

Nunca mais sonhou.

12 de junho de 2010

Diamond Eyes p1 [Pesadelo]

Para o topo. Foi seu objetivo: sair daquele lugar desconhecido e subterrâneo. Quando chegou à superfície, havia se esquecido de tudo que vivera, até que percebeu um orvalho num chão de cristais, combinava com os diamond eyes. Havia esquecido, então lembrou de alguma coisa.

Seu paradeiro de tempo perdido. Uma garota, se lembrava de uma garota com um diabo tatuado no braço. Um diabo que dizia “siga-me”, e ele como todo mortal, seguiu sem opções. Como se nega um pedido do diabo?

“Quando os caixões balançarem e as agulhas quebrarem...”, cantavam os demônios em sua cabeça. A garota com aqueles olhos brilhantes se aproximou de seu ouvido e sussurrou: “você é o meu sonho, mas eu sou pesadelo. O seu pesadelo mais bonito”. Raspou arranhando seus dentes afiados por seu pescoço. Ele a segurou e a beijou. Ela disse não. Saiu do sonhar para tomar vida. Ele quis ir junto, ela lhe deu a mão. Partiram para o mundo desperto numa jornada infinita.

Tomou o comando só porque podia. Não era culpa dela ele se meter na perdição do espaço. Ele apenas seguia seus olhos que faiscavam como estrelas cadentes numa galáxia escura. Isso o deixava insano. Ela fazia pose com suas bela roupa de couro, caras e bocas e charmes como quem montava a cena de um filme ou uma história em quadrinhos, porque sabia que estava no controle.

O abraçou confortavelmente, repousou a boca em seu queixo, sorriu, mas não o quis. Então foi pesadelo. O mandou em direção ao fim do mundo com uma simples risada, mas sem o beijo da morte. O pior castigo de um homem é ir parar nos braços de uma paixão sem poder morrer.






“My gift to the world outside
Its ok, I’m alright”.


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Vivi, sonhei, acordei, ouvi e escrevi o Diamond Eyes em três partes: Pesadelo, Caminhos Perdidos e Fim dos Mundos.
É isso aí minha gente, finalmente um desejo antigo realizado: o Wonderlando está de cara nova!

Ainda não está totalmente pronto, mas digam o que acharam nos comentários.

6 de junho de 2010

The End

A música vai tomando conta do meu quarto. Canto alguns trechos involuntariamente, deixo tomar conta de mim. Ouço algumas vozes. Paro a música assustado. Ninguém. Lá fora está frio e aqui dentro, quente. Muito quente. Se abro a janela, o frio toma conta, se pego um cobertor ou uma blusa, calor.

Uma mulher apareceu. Não era minha mãe, minha irmã ou minha amante. Ou qualquer uma do passado ou de minhas lembranças. Antes que eu pudesse arrepiar assustado, ela se vai. Me deixa um recado que não compreendo.

Pego uma carta recente e leio seu triste lamento. Só mais um lamento, entre tantos já feitos. Brinco com o fogo para ver se aqueço suas letras frias. Só mais um lamento.

[esse texto eu fiz em 3 de fevereiro de 2010, às 18h35. eu fiz o fim, que é o parágrafo a seguir, antes do meio. Daí, nessa bela tarde de 6 de junho de 2010, exatamente às 14h29, eu fiz um texto pra chamar de The End e havia me esquecido deste, com o mesmo nome. Portanto não o terminarei. Ele é isso. Eu também. Um texto que chama The End, que no final diz ter um final inexistente, e na verdade, não tem o meio, mas tem fim. (sem querer) Eu ri.]

Eu sou esse maldito que se aquece, fortalece, adormece e se alimenta do fim. A ouroboros que se consome de forma infinita, a lemniscata, o universo conquistado.

Um final inexistente.
E não feliz.

The End

“Você tem algo com final feliz?”
“Você tem algo contra final feliz?”
“Você tem final?”
“Você é o fim”.

Quando a gente chegou ao fim, eu o quis primeiro quando ela quis antes de mim. São palavras que não se encontram em letras destacadas que não significam. As lembranças na porta branca rodeiam pensamentos de outrora.

No céu laranja, tons sobre tons de azul, roxo e lilás guiavam um navio de cristal, que se refletia na pista de vidro abaixo de nós. Pisávamos no inferno quando parecia paraíso. Até o espelho começar a trincar.

Dizem que é um novo começo. O fim vem antes do começo quando o relógio está do avesso e nos permite voltar. Enquanto ela faria tudo igual, eu, tudo e todo diferente. Uma peça de um quebra-cabeça inexistente questionando o que é o bem e o mal. Quem fez assim ser isso?

Eu entrei num ônibus azul cheio de crianças insanas. Todos os adultos não-insanos me olhavam com seus olhos rochosos como se eu fosse um nóia qualquer ou um ladrãozinho barato. Como se eu tivesse algo a dizer, abri minha boca seca e quebrada. Nada.

A música que tocava nos fones soava como uma velha viagem ruim que eu era obrigado a ouvir. Jim não parava de me enlouquecer. Jim e ela. E todos que me encaravam com suas almas vazias.


Eu tenho vários finais. Tive muitos felizes. Não tenho nada contra finais. O irônico é que o fim nunca vai ter fim. Mas só enquanto ele existir. Eu queria acabar por aqui. Queria que tudo acabasse agora.

...

Não consigo me concentrar em nada. Perdi o final do filme, do livro, do texto... Só não perdi o nosso final.

O fim é meu único amigo.
Enquanto eu me fodo,
enquanto chegamos. Fim.

26 de maio de 2010

Motivo

Você me despedaça, veste minha carcaça. Você, que tinha peso pra erguer, agora pisa em mim para se manter. Se eu me afastar, se você me largar, será que volto a sorrir?

Você está me matando de novo. Eu ainda sou uma lembrança? Sou quem controla os corvos. Você controla-se em vingança. Você costumava me iluminar, agora me joga na escuridão.

Estou te perdendo de novo, como se me digerisse por dentro. Eu acho tão difícil conviver com alguém, me permitir estar com alguém. Sou como o vento, que não sabe para onde vai, mas se mantém. Eu costumava te alegrar, agora eu sou quem te entristeço.

Sou patrono dessa realeza. Estou confuso em ódio fresco. Construí meu reino de tristezas. Quanto mais eu tento a cura, mais eu apodreço.

Não consigo perder ou parar com os gritos. Me confino a ser sempre um maldito. Me racha, me parte, me confunde. Maltrata estar vivo. O pior de tudo é não conseguir saber o por quê.

Eu queria um motivo.

21 de maio de 2010

Monstro Embaixo da Cama

Allan me acorda. Está frio. Quando finalmente resolvo atender a seus apelos, o vejo dormindo ao meu lado. O sono dos mais pesados. Allan não acordou aquela noite. Era cedo ou tarde, não sei dizer exatamente o quanto três horas da madrugada significam. Lendas urbanas dizem que é a hora do diabo. Eu sou o diabo, ao mesmo tempo em que não acredito.

Acordo Allan, que quando acorda, me vê dormindo ao seu lado. O mais profundo sonhar. Ele está cada vez mais comigo e se faz cada vez menos eu. Olha as horas, mas o que representam esses números? Lendas urbanas dizem que Allan não existe. Ele se acha deus.

O acompanho até a saída de mim, quando dei por mim, eu é quem havia saído. Trancado pra fora, nu, vestindo apenas uma forca ao redor do pescoço. Corro para as colinas, a inquisição me aguarda. Allan está lá a minha espera sem carta de alforria. Todos estão presentes. Me encapuzaram e preparam para o ritual. Meu pescoço quebra, Allan cai.

Eu acordo caindo. Allan dorme ao meu lado. Acorda assustado, caindo. Me procura. Acordo. Allan acorda. Eu sou o monstro embaixo da cama.

19 de maio de 2010

Sobre cabelos

Quando passaram a mão em meus cabelos, me perguntaram se você dedicava horas a afagá-los. Parei por segundos e viajei a uma cena, não aquela em que você me incentivava a cortar meu cabelo curto, cheio de personalidade, mas a outra cena. De tão infeliz que foi e de tão envergonhada que me sinto por isso ter acontecido, não vou dizer mais nada. Só que, quando essa digressão terminou, virei para os que me perguntaram com olhos chorosos e disse “não”.

***

Então, chega a meu conhecimento um tal devaneio. Não sonho, mas aquelas experiências sensoriais semioníricas. Seguem segundos de apreensão sobre o conteúdo. Será que quero saber, será que consigo aguentar, o que será? Como uma eterna curiosa, nunca direi não. Então, peço que me conte. E descubro que a dúvida paira dos dois lados: não sabe se eu devo saber também. Mas me conta e me alegra. Digo novamente sobre a timidez que tenho nestes contextos, algo que você ainda não vê. Dirá que não se importa, verá minha vulnerabilidade inicial.

Pensou que passava a mão no meu cabelo.

***

No banho, pedi que lavasse meu cabelo, só por preguiça e porque você é mais alto. Fechei meus olhos para que não me cegasse com a espuma. Embaixo do chuveiro, senti a água escorrendo e tapando meus ouvidos. Então me lembrei da minha mãe lavando meus cabelos quando eu era pequena e senti seus toques suaves, retirando o shampoo de todos os fios, até dos mais escondidos. Quando terminou e quis ser adulto, pedi um segundo para aproveitar minha infância, nunca havia me recordado disso.

E foi neste dia que cantei “All I Want” de Joni Mitchell e disse como ela falava sobre mim. Você significou uma parte da música que ainda não fazia sentido... agora só falta eu aprender a tricotar um sweater.

10 de maio de 2010

28.

Seus olhos são flores
que eu insisto em regar com tristeza.
Gostaria de chorar também suas belezas,
mas agora sou deserto,

e meu deserto chora areia.

Nos acolhemos sempre na tempestade
acampamos nos abismos mais perigosos,
desfrutando os medos em momentos
infantis e orgulhosos.

Foi um pouco depois da lua nova pendurar no céu,
te encontrei a mais bela
anunciando um novo romance,
me dando um velho papel.

Carreguei meu ódio cansado e pesado
ao redor de seu
corpo.
Não sei se já passava da meia-noite,
mas,
meio
bêbados,
meio
a meio
e meio
inteiros,
beijamos
um beijo
e meio.
Conforto.
Nós morremos um pouco
depois do amor nascer.
Um pouco
depois que havia me sentido vivo
após tanto morto.

Te ouvia gritar em meus gritos febris em descontrole,
em cada nota construída que eu viole...
Para minha flor de fim de tarde.

Já era tarde.

Suas mãos estão nos ramos,
sua voz está na brisa.
Novamente machucamos
e acabei manchando de sangue a branca camisa,
o sumo de um coração extinto.
As ações doloridas banalizadas em dramatizações batidas.
Desculpe,
é só o que eu sinto.
Em goles de vinho tinto
para fazer ir embora,
você me expulsa
ao mesmo tempo em que me quer na hora. O que se fazer de nós,
senão desatar?
Teimosos,
ainda tentamos buscar,
o que muito perdemos e julgamos banais.
Eu nunca te alcanço,
Quase nada satisfaz.
Quase tudo fica pra trás.
Sabemos que seremos para sempre,
e para sempre,
nunca mais.

O cabelo dela está no jardim,
entre os espinhos,
fazendo a morada de aranhas.
Ela me arranha e estranha.
Me aguarda
me guarda
para o fim.

Vinte e oito dias de amor.
Mais vinte e oito,
teu peito, meu acoito.
Dois infinitos de dor.

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Finalizando a série que começou com o I Have the Map of the Piano, com todo romance meloso e brega; passando pelo falso-
excitante e sem efeito Gole de Pernas; até aqui, no inerte e estúpido 28. =)

7 de maio de 2010

Ajuste os controles para o coração do Sol


A neblina que deveria nos impedir de ver faz enxergar muito mais. Fumaça contra a luz. Allan olha a luz e sente seu calor, encosta sua mão bem devagar até tapar parcialmente o brilho branco. Allan é o eclipse do Sol.

Toco uma canção na extensão de mim. A vibração deixa o corpo leve por dentro e mais pesado por fora, me domina a ponto de não conseguir parar ou controlar as notas. Allan dança hipnotizado a canção dos condenados.

Ele me dá um beijo e sua saliva é ácida. Desmaio e caio de uma vez no chão. Quando acordo estou num lugar de terra vermelha e céu laranja, uma terra gelatinosa, um laranja forte.

Derreto.

Calor.


Vejo uma janela pairando no ar. Ela dá pra outra janela, que mostra uma outra e dentro dela, uma sombra que sai correndo sem me dar a chance. Allan então aparece com duas bicicletas, ele nunca diz nada, eu sempre sei o que ele quer dizer. Vamos pedalando até as estrelas.

As nuvens do Sol são chamas ardentes que não nos queimam e se desfazem no ar. Um ramalhete de lótus voa com a gente, espalhando pétalas por todo lado. Allan pedala mais rápido e mais rápido e atrás da gente, nosso rastro arco-íris e as sombras tentando nos alcançar. As cores são sintilantes, quentes, tocáveis... Mais que qualquer outra coisa viva ou sólida.

Meu coração pulsa e o ambiente pulsa com ele. Me sinto vulnerável a esses fenômenos. Saímos da Grande Estrela. Allan então me diz: - Você sabe as coordenadas. Ajuste os controles para o coração do Sol!

Fomos e nunca mais voltamos.

Até voltarmos.Pulsando.

4 de maio de 2010

Cegueira

Ando descalço no escuro da madrugada. Sinto a água gelada no piso esfriando minha espinha, fazendo meus pelos levantarem. A cada passo, uma adaga faz uma nova cicatriz. O labirinto que eu fiz em mim não tem saída, mas mostra exatamente onde dói.

Vejo os Cavaleiros do Apocalipse se aproximando cada vez mais, eu me permito. Guardo tudo pra mim a
sete
chaves, a
sete
palmos, em
sete
pedaços estilhaçados do que restou.

Se eu pudesse escolher, pularia ou dormiria. Por incrível que pareça, nós não escolhemos nada. Nós, os suicidas, não temos escolha. A causa é explícita e a consequência varia de acordo com nossas vidas. A vida brinca com a gente o tempo inteiro. Irônico não?

Viver é um jogo que não permite vencedores.


Parece tão errado,
tudo o que eu penso o dia inteiro.
O tempo inteiro
eu acho que sou tão errado.

Então assisto aos meus acidentes imaginários, os acidentes de carro, as marcas que já não cabem mais mentiras, os medos que assumo aos poucos, meus desejos de violência reprimidos. Minha cara esmagada em algum ferro numa rodovia, meu corpo exprimido no asfalto.

Eu sou
o sangue
que ainda não escorreu.

Quanto mais me abro,
mais me sinto fechado.

Se eu fechar os olhos,
sei que
sentirei
minha falta.
Mas eles abertos não me enxergam mais.