Sejam bem-vindos ao outro lado do espelho, onde tudo pode acontecer (e acontece).

Wonderlando é um blog sobre textos diversos, descobrimentos e crescimento. A filosofia gira em torno do acaso, misturando fantasia e realidade de dois amigos que se conheceram também por acaso, Alice - que tem um país só seu -, e Yuri - chapeleiro e maluco nas horas vagas.

Leia, comente e volte sempre... Ou faça como a gente e não saia nunca mais.

30 de outubro de 2011

25 de outubro de 2011

O velho que não





O barulho do isqueiro anuncia mais um trago. Puxa. O brilho laranja intensifica a cada inspirar. Nos lábios, o gosto amargo se mistura com o ferro que o sangue tem. Se morde, deixa marcas até sentir na língua o gosto. Se machuca por que se necessita.

A fumaça se espalha por dentro. Segura. Fecha os olhos e se lembra do que é. Jogado no quintal, se escondendo da luz do poste que invade amarela. Num canto escuro de suas pálpebras, se vê menino, recorda do que é e do tempo cada vez mais no fim. Se. Solta.

Expele nuvens de seu pulmão que cobrem a lua cheia. Assopra nas primaveras, de um rosa tão forte que é quase vermelho, como se ficasse gastando o lápis numa única parte. Até não ter mais lápis pra apontar. Até não ter mais lugar.  

Sangra, quando ninguém vê, se devora. Desaparece devagar, se mistura na fumaça. Evapora. Porque está pesado demais, inválido, vencido.  Quer chorar e não consegue. Quer gritar e não consegue, tem medo de perder o controle de vez. Basta os cortes, a carne, as depressões, traumas e frustrações. Quis dizer basta. Não disse.

Quando dorme, vai pra longe, porque aqui não basta. Simplesmente não dá mais. Quer dizer adeus, nunca sai. Tentou acreditar que seria diferente, que agora estava mais estável, mais coerente... Mas só ignorava as confusões, ou explicitações que lhe gritavam que aqui não satisfaz. Foi o monstro embaixo da cama, porque é o seu inconsciente inconsequente quem diz quem realmente é. Se sente um velho que não viveu, mas que também não quer. 

17 de outubro de 2011

Pós-rock


Assistia os diferentes tons de cinza das nuvens em um céu que não anoitecia, uma noite que não chegava. Feito eu, que só tem começo, que não tem fim, mas que também não é.  Voltei quando ouvi o Trent Reznor pedindo pra alguém ajudá-lo, que ele estava se afogando, que sozinho ele não conseguiria. Eu também tenho achado que não. Se eu perder o presente, não sobra nada. Se não tem agora, não tem eu pra ser.  

Me olhei. Vermelho como há muito tempo, como deixei que não fosse mais, e agora aqui. Vermelho. Que meu coração expele e me afoga, engole meus gritos e pedidos por socorro, me afunda. Comigo. Sozinho. Pra dentro de mim.

A solidão me ataca, me domina, me desarma, me acompanha, não me deixa, mesmo quando. Minha sombra é duas, porque ela reflete a minha escuridão e não é miragem, me toma, me doma, me amedronta, a ponto de. Ligo pra qualquer um, só pra me ouvir dizer, besteiras qualquer. No violão, um pós-rock minimalista – pra não dizer infantil, de duas cordas. Pra não dizer ruim. É só o que eu sei fazer nessas horas. [Ser ruim]. Nas outras horas que foram, naquelas lá que ainda virão... E mais naquelas e naquelas...  

Vou até a janela. Assopro pra ver se me misturo, pra ver se consigo ir junto com a fumaça, cinza como as nuvens, que vão sem reclamar. Na noite, ainda não há a escuridão que o inverno prolonga, mas há o frio, agora eu. A curva do céu está no vão, assim, eu também fui.