Sejam bem-vindos ao outro lado do espelho, onde tudo pode acontecer (e acontece).

Wonderlando é um blog sobre textos diversos, descobrimentos e crescimento. A filosofia gira em torno do acaso, misturando fantasia e realidade de dois amigos que se conheceram também por acaso, Alice - que tem um país só seu -, e Yuri - chapeleiro e maluco nas horas vagas.

Leia, comente e volte sempre... Ou faça como a gente e não saia nunca mais.

2 de novembro de 2011

Tudo no pretérito imperfeito que tiveram




Por querer apagou a última luz.
- Eu só quero te ver, acostumar os olhos no escuro -, jogou as palavras desordenadas mas conexas. Dando a ideia, aquela ideia, de que ela não saia da sua cabeça.
– Na cabeça não. Coração. A corrigiu quando ainda era só a voz, enxergando com as mãos.

É no passado que se conjugam os verbos de amor. E amaram, cada qual com seu peso, medida e ideal de algo que talvez nem exista. Algo que talvez a gente pensa que, até sentir mais forte e rir daquilo que um dia fora quando um novo acorda. A corda, que amarra, enforca. Faz tirar os pés do chão, torna vulnerável, palpita o peito, faz desejar a morte. Ou a vida plena!

Lembrou que tinha um coração, que não havia enterrado como as outras lembranças. Foram. Eram dois na tentativa de equilibrar aquilo que os faltaram como um. Mas somente se equilibra o dois quando este se torna único, uno em sua totalidade, ou três: positivo, negativo e neutro.
- Do que você está falando?
- De equilíbrio, me deixa. E deixou. Pouco tempo depois, sem tempo para despedidas, sem avisos prévios, sem discussão ou paliativos para a raiva ou esperança. Aquele “eu te odeio” não deu tempo. Só doeu. Sem ódio, sem texto, sem o último olhar...  Deitava com suas peças de roupas para chorar até o cheiro dela acabar. Até o nariz afundar e não encontrar.
– Até quando? O largou menos na esperança de um até mais. Mas esse mais, jamais.  

Ela nunca o amou no presente. “Te amei”, repetia, porque ontem era certeza, era perfeito quando lembrava o sentimento e fazia assim o verbo. “Te amei” quando se despediam porque podia ser a última vez, ela brincava. Ele sempre sério, às vezes sem entender a conjugação dos tempos e a importância das lembranças e das palavras.
- É presente! Se entregava embrulhado num papel estampado.
- Então, já que você é m’eu amo’, conjugava, vai fazer o que eu mandar. Ria e brincava e eram. Porque também foram quando ela dizia “te amei” no pretérito e ele enfurecia em dúvidas e escárnios.

Quando deixava as flores como sempre fazia há alguns meses, relia sempre em voz alta, só pra ele, o “te amava”. Aquilo poderia soar frieza, mas suava emoção. Nunca a perdoara pela traição do abandono repentino, mesmo sem culpados, foi o necessário para mantê-lo são. Transformar a perfeição do passado em amor imperfeito pra tentar esquecer... Pelo menos no verbo. Mesmo sem saber o que é direito amor, se é perfeito, e quem definiu isso. Mesmo ela sendo a “garota atemporal”, como ele dizia, que não vivia o agora, só o antes e o que ainda não veio.

Tudo no pretérito imperfeito que tiveram, que ainda está lá, mas que não dá mais pra ser agora, só quando chegava em casa, apagava a última luz para acostumar os olhos no escuro, para vê-la e tê-la mais um pouco, cada vez menos, sem saber até quando. 

30 de outubro de 2011

25 de outubro de 2011

O velho que não





O barulho do isqueiro anuncia mais um trago. Puxa. O brilho laranja intensifica a cada inspirar. Nos lábios, o gosto amargo se mistura com o ferro que o sangue tem. Se morde, deixa marcas até sentir na língua o gosto. Se machuca por que se necessita.

A fumaça se espalha por dentro. Segura. Fecha os olhos e se lembra do que é. Jogado no quintal, se escondendo da luz do poste que invade amarela. Num canto escuro de suas pálpebras, se vê menino, recorda do que é e do tempo cada vez mais no fim. Se. Solta.

Expele nuvens de seu pulmão que cobrem a lua cheia. Assopra nas primaveras, de um rosa tão forte que é quase vermelho, como se ficasse gastando o lápis numa única parte. Até não ter mais lápis pra apontar. Até não ter mais lugar.  

Sangra, quando ninguém vê, se devora. Desaparece devagar, se mistura na fumaça. Evapora. Porque está pesado demais, inválido, vencido.  Quer chorar e não consegue. Quer gritar e não consegue, tem medo de perder o controle de vez. Basta os cortes, a carne, as depressões, traumas e frustrações. Quis dizer basta. Não disse.

Quando dorme, vai pra longe, porque aqui não basta. Simplesmente não dá mais. Quer dizer adeus, nunca sai. Tentou acreditar que seria diferente, que agora estava mais estável, mais coerente... Mas só ignorava as confusões, ou explicitações que lhe gritavam que aqui não satisfaz. Foi o monstro embaixo da cama, porque é o seu inconsciente inconsequente quem diz quem realmente é. Se sente um velho que não viveu, mas que também não quer. 

17 de outubro de 2011

Pós-rock


Assistia os diferentes tons de cinza das nuvens em um céu que não anoitecia, uma noite que não chegava. Feito eu, que só tem começo, que não tem fim, mas que também não é.  Voltei quando ouvi o Trent Reznor pedindo pra alguém ajudá-lo, que ele estava se afogando, que sozinho ele não conseguiria. Eu também tenho achado que não. Se eu perder o presente, não sobra nada. Se não tem agora, não tem eu pra ser.  

Me olhei. Vermelho como há muito tempo, como deixei que não fosse mais, e agora aqui. Vermelho. Que meu coração expele e me afoga, engole meus gritos e pedidos por socorro, me afunda. Comigo. Sozinho. Pra dentro de mim.

A solidão me ataca, me domina, me desarma, me acompanha, não me deixa, mesmo quando. Minha sombra é duas, porque ela reflete a minha escuridão e não é miragem, me toma, me doma, me amedronta, a ponto de. Ligo pra qualquer um, só pra me ouvir dizer, besteiras qualquer. No violão, um pós-rock minimalista – pra não dizer infantil, de duas cordas. Pra não dizer ruim. É só o que eu sei fazer nessas horas. [Ser ruim]. Nas outras horas que foram, naquelas lá que ainda virão... E mais naquelas e naquelas...  

Vou até a janela. Assopro pra ver se me misturo, pra ver se consigo ir junto com a fumaça, cinza como as nuvens, que vão sem reclamar. Na noite, ainda não há a escuridão que o inverno prolonga, mas há o frio, agora eu. A curva do céu está no vão, assim, eu também fui.



24 de setembro de 2011

Majine ( Máquina de escrever)

Havia semanas que percebia seus passos desajeitados pelo prédio. Em areia movediça, a mais nova se fazia sumir pelo chão no desejo de se desfazer em palavras. Suas mãos inquietas necessitam dizer tudo aquilo que sua mente entende, produz, reluz. 


Em luzes se encontram ideias que inspiram de forma orgânica e natural a minha natureza, como eu vejo e ninguém sabe, porque nem aqui cabe. Já tentou fazer história com sonho? Já tentou sonhar e fazer história?


Se organiza cheia de peculiaridades, é meiga com espírito. A mais velha me surpreende às vezes por dizer segredos que nem sabia que havia espaço. O corpo delgado como caia sobre mim fazendo questão. Abraço. Me fez sentir saudade de qualquer coisa que envolvesse nós dois, não de uma forma romântica. Forma cúmplice, de quem é amiga do monstro. Forma.


Quantas pessoas você é sem que se perceba ser. Quem disse que não, é na verdade ninguém. Todo mundo ninguém. Nunca foi, nunca é. Pode. 


Quando exitou, quis que a mais nova sentisse segurança e refizesse aquilo que nem chegou a fazer. Estava feliz porque enfim conseguiria expressar tudo que não lhe cabia, mas que a mais velha já me tinha. O sorriso era maior que o espaço que ocupava, para compartilhar, enfim. Agradeceu, derreteu. Quer tinta para dar forma à criação.


Pode agora se expressar pela máquina de escrever e pelo abraço como forma de agradecimento, como forma de reconhecimento pela fé a ela dedicada. Escreva. A mais velha tem me desencontrado, mas com a candura com que leva a vida faz tudo mais fácil, mais leve feito a fumaça de nossas conversas. Tenho. A escrevo.



13 de setembro de 2011


Allan, eu fiz algo ruim. Entrei numa briga por causa de drogas. No começo era discussão, argumentos de intelectuais conversando sobre teorias, pesquisas e experiências. Depois acabamos usando um monte de coisa e bati num cara porque era ele ou eu não queria. Foi uma baita confusão, você teria sentido vergonha de mim. Eu sim.

Eu tenho trabalhado demais. De oito a dez horas num emprego fixo mais umas duas, três horas, fazendo bico pela noite. Depois que ela me deixou, ocupei minha cabeça entre uns goles e outros de qualquer coisa que me mantenha acordado e me faça esquecer. O Zé é meu lugar preferido. Bafo inflamável.

Minha carência faz com que eu me ignore mas não me deixe só, criando situações para que nos encontremos, nos acariciemos e troquemos confissões shhh bem baixinho porque é segredo. Não falo mais sozinho, acabei me desentendendo aí brigamos – me dei um baita soco e nunca mais me falei até então.

Com certa freqüência, procuro corpos que não deixem o meu descansar. Encontrei Claudia. “Suas roupas sempre deslizam tão rápido e suavemente pelo seu corpo?” – enquanto eu desenroscava os pés presos na calça, você chegou. Um ménage à trois está bom. Foi sua primeira vez. Nos consumimos.


10 de setembro de 2011

Eu me perdi na madrugada




“É com cê agá”, beleza, pode deixar. Anotei seu nome e parece que foi logo depois disso que tudo começou a acontecer. Cheguei em casa com um nome borrado no punho e uma jura de morte. Ainda não dormi. A cabeça está a milhão por não ter entendido ao certo o que rolou, eu estava tão chapado que nem senti todo aquele sangue grudado escorrido na minha cara, foi só quando olhei no espelho que.

Minha mina fingiu que não me viu e o beijou. O cara que estava de mãos dadas com ela fez questão. Chegou todo Colgate, cumprimentou a roda, me abraçou, atuou carinho de quem eu tenho com íntimos. Palavrões, empurrões e gritaria vieram logo em seguida da minha parte. Eu não estava na minha quebrada, no meu rolê ou com meus camaradas; e ele só estava com a (minha) mina que, apática, fingiu quem nem aí.  Eu não existi. Então foda-se!

Era uma reunião de negócios para definir os próximos passos. Balada dos cães no centro de São Paulo, nem sei que horas eram no relógio da igreja que me avisava que já era tarde demais. Me despedi da rapeize sabendo que a partir daquele momento eu estava vulnerável e passível. Chamei a branquinha Cêagá para sairmos dali, ela era oquei, então demos uns tiros, ela puxou outra amiga e foi nessa hora.

Lá no bar eu ainda estava tentando me acalmar da fuga. Aquela treta nos cães foi merecida, mas eu nunca consigo me controlar, eu não sei parar. A gritaria, choro e desespero começaram quando o cara caiu no chão com o pescoço mole parecendo galinha esperando o corte final para deixar o sangue escorrer e depois virar uma bela refeição para os carnívoros. A misericórdia da situação foi uma garota anunciando “ele está morto” enquanto todos olhavam pra mim e eu já havia começado a correr quando.

Aquela cerveja nem cabia mais naquela mesa, nem as risadas, nem os telefonemas com as cobranças dos compromissos da madrugada. Um mendigo louco pedia dinheiro e ninguém tinha. Eu tinha, Ceagá tinha e amiga tinha, mas ninguém tinha. Com algo pontiagudo que deve ter sido faca quando D. Pedro II fodia as nativas e escravas nessa terra tupi, ele tentou.

As garotas foram companhia e me passaram um pano na expectativa de aumentar meu tempo útil de vida, mesmo não me conhecendo. Ao mesmo tempo, as salvei de alguma forma. A troca uniu a noite e fez sentido ali. Mas ali. Seu nome estava marcado em mim e isso significava absolutamente.

Fiz sozinho o caminho de volta pra casa, um passo atrás do outro. Ecos de passos atrás de outros passos atrás dos meus passos num tempo cada vez mais sincronizado e próximo. Aquele cara galinha não estava tão sozinho assim, afinal. 

5 de setembro de 2011

Verdade homeopática

- o que é isso que não para de doer?
- o quê?
- isso – encheu os pulmões de ar.

Quantos anos já se passaram, mesmo, até o fim? Ali em seu mundo as alegrias e tristezas não se diferem, e vê crescer cada vez mais o próprio planeta. Enfim, tudo é mórfico, não? Até o fim!




Depois que eu aprendi a sumir, meu mundo passou a crescer mais depressa, tapando o sol feito eclipse. Meus prazeres são dores, desde sempre, mas nem sempre as minhas dores são prazeres. Foi quando descobri que não dá pra carregar a infância por muito tempo, porque quem não consegue não deixa... E esse “quem” é plural demais.

Aí me “descobri” homem.
Sou um homem doente, descrente, incoerente... E só não se sentiu assim quem ainda não se descobriu. Porém não me trato, não quero saber de aparências, crenças ou curas, apesar de respeitá-las devidamente. Não me trato e esse é meu único trato, não quero saber, enfrento, encaro e assumo, porque aprendi a desaparecer feito espírito que você acha que viu. No meio da pista me dissipo no som e viro fumaça, sem saber ao certo pra onde ir, só não ali. Tem quem queira tentar prender, mas nem aqui eu estou. Nem aqui eu estou faz tempo.

Depois que destruíram boa parte do sóbrio, tive que mudar daí, vim pra cá. Cá não há ar que resista àquilo que chamam de Paraíso aí. Quando tudo parece firme, quando o sorriso libera paixão e as vozes se calam, quando as estruturas se rompem devolvendo a vida. Mas não, aqui não. Aqui meu desespero é vão e percebido no momento em que a agulha pula a canção e risca a história toda. e risca a história toda e risca a história toda pula a canção e risca a história toda ausência.

Aquela que mais cresce em mim é a que me destroi na forma mais sincera. Meu planeta é maior que eu, maior que o nosso todo junto. Nada pelo sentido, tudo sem direção. Pelo instante da raiva que eu tenho de toda minha dor que segue com a razão. Às vezes eu queria sentir de menos, porque o sinto muito é mais que eu. A colisão é inevitável.  

Me chamem de louco ou de verme – não importam as classificações e conotações, só me deixem terminar esse texto antes de começarem –, eu sei que minha única fé é crer que nenhuma verdade é verdadeira e que o nascimento da tragédia é derradeiro.

Eu não me trato puramente porque tenho raiva. Eu tenho raiva da minha dor. E se me dói, que me doa ainda mais!

29 de agosto de 2011

Is leaving the building

Aquele presente demorou tanto. Era pra ser abril, mas abril despedaçou-se feito aquele que morreu no sertão. Precisou quatro meses – que se tivesse iniciado em janeiro, o presente se faria presente no quarto mês – de exigências para uma dedicatória ou qualquer coisa que caracterizasse o comum como meu.


Presente que contem tanta história registrada em páginas, imagens, fumaças e sorrisos. Mas foi só quando o recebi num envelope naquela manhã, foi que senti o peso das páginas, das imagens, da fumaça, e o sorriso se fez novamente temeroso e com razão por se tornar cada vez mais raro a partir dali.


Toda vez que eu chego no seu espaço, eu me encontro um pouco mais no meu, mesmo com as diferenças que eu prefiro que se mantenham diferentes; ou a ponte que ainda não atravessamos. É porque é o refúgio que nossos encontros causam que me deixa em paz pra aguentar um pouco mais, sabe?! Não sei você sabe, se alguém sabe... Mas todos deveríamos saber o que somos e o quanto somos no outro, para o outro - mesmo que esqueçamos tudo depois igual quando não gravamos nenhuma bendita música ou não congelamos as memórias em imagens por pura preguiça, ou por puro "viver o momento".


Quando o presente do passado se fez enfim presente e se encontrou em minhas mãos, eu sabia que dali em diante não haveria mais volta; que havia se prolongado até demais aquela ida que ninguém desejava, que nunca chegava e que estava bom assim, sem ser. As caixas embrulhando tantas lembranças deixavam claras o significado de “mudança”, e o vazio vai conquistando o espaço, tornando-se palpável e real no fim de um ciclo que eu não pedi.


O bom é que crescemos e nos acrescentamos o suficiente pra termos segurança de uma amizade sólida, mesmo que distante. Na confiança de um futuro melhor, mais criativo, produtivo e arrisco até feliz. Teu caminho está escolhido e decidido e assim a gente se espalha dominando mais espaço para conquistar mais ainda. O trajeto que eu tanto gosto até sua casa agora vai me apresentar mais opções para novos rumos. Deixe aqui para trás, mas me leve assim como vai ficar aqui dentro do meu prédio. Como já está, e daqui eu sei que você não sai.


“Estar perto não é físico”.

23 de agosto de 2011

Não Tema, Você Só Fechou os Olhos

Quando a chuva cai, ela desaparece sem sombra enquanto o mundo gira. Quem vive, absorve. Sumiu. Igual fumaça que se dissipa no vento quando sai da boca. Igual chuva que sabe enganar a gravidade para escorrer e evaporar. Igual eu. O dia em que sumi nada diferente aconteceu. Fui embora e ninguém percebeu, ninguém percebi... Eu sei sair daqui.

Afastei o abismo entre a terra e o céu no horizonte do sofrimento e prazer. Correr. Sumiu. Percebi que o sonho do sol é ser lua, porque mesmo que veja tudo durante o dia, não pode ser tocado pelos sonhos que reproduzem os olhares românticos. E cria sombras que caminham com os postes, muros, faróis e holofotes. Cria monstros na parede do cérebro. Eu. Eu. O dia em que eu sumi também quis ser lua, mas sem brilhar, virei. o suspense que toda escuridão carrega no silêncio. Ninguém percebeu.

Eu sei o que não sou, e as curvas no céu não sou eu, nem a ausência da sombra da chuva... Eu acabou desapareceu evaporou escafedeu-Se tivesse ficado e ainda estivesse, mesmo assim não estaria. Se não estiver em todo lugar... Não tem mapa na direção, sem norte guiando pés, os caminhos não deixam rastros. Ninguém me encontrou porque não sabia. Nem eu. E.

O mundo continuou girando sem mim. Mim perdido do eu, sumir do espelho, saído saiu. De mim. Depois que você vai embora, não quer mais voltar. Eu sei sair daqui.




“Ele está morto, mas todos nós o matamos”.

12 de agosto de 2011

D

... Do maduro ao podre, toneladas de matéria flutuam no espaço, vagando por aí...


... Da morte ao nascimento, quanto tempo é preciso percorrer o caminho? Essa dor o tempo não cura, não vai (!), no máximo cicatrizar. Progressivo agressivo depressivo...


... Às vezes penso em você, mas se eu falar desabo na frente de quem for. E atualmente eu nem estou me importando muito com isso. Como está difícil começar esse texto!...


Quando Falta (demo) by YuriKiddo


Oi,


Faz tempo né?! As coisas deveriam estar mais fáceis agora que a adolescência passou, já que os adultos adoram dividir as coisas, colocá-las em fases e tachá-las... Por que ainda não aconteceu comigo?


Em minhas mãos há marcas de tempo;
no meu corpo, marcas de dores;
dentro de mim, alguém que quer sair mas não consegue, que se expressa sem encontrar minha boca, meus olhos, sem controle do meu corpo ou dos meus nervos. Sem controle.


Essa semana minha outra mãe me ligou chorando e eu pensei muito em você – se diria as mesmas coisas que eu ouvi. Talvez eu precisasse ouvir tudo aquilo, o desespero de quem te ama às vezes é tudo o que a pessoa pode oferecer pra expressar amor. Como será que você se expressa? Eu não tenho conseguido me organizar ultimamente.


Música. Eu não sei calcular as horas de sons, mas eu queria que você me visse hoje, pra dizer que está bonito, que eu toco bem, que escrevo bem, que sou seu filho. Eu me mostraria pra você, fotografia cada pedaço exposto de pele, guardaria seu cheiro agora eu finjo umas coisas pra não parecer tão esquisito e acabar me fechando mais. Eu tenho medo do rumo que as coisas estão levando, os caminhos que tenho tomado, as coisas que eu tenho ouvido, meus excessos que não me tiram desse lugar sem sentido.


Esses dias eu quebrei a minha palheta enquanto tocava, minha corda favorita arrebentou logo em seguida. Eu não parei, porque não tenho limite. Eu não parei porque eu não conseguia, e quase quebrei tudo – de novo, como já fiz com algumas coisas. Eu sou destrutivo, queria que você soubesse disso. E há catorze anos a vida pra mim é assim, um instrumento que falta a corda favorita.


Até dá pra tocar, mas não


Eu acordei hoje como o dia, e como ele, termino em luto.


E vou deixar o texto assim mesmo... Até tentaria arrumar pra fazer algum sentido, mas eu não tenho mais sentido algum. Não sei arrumar mais nada. E me sinto um idiota imprestável por isso.

3 de agosto de 2011

Fragmentos

tantas ideias em pedaços de trechos de frases espalhadas em recortes de papeis em cantos de cômodos de lugares refletidos em cacos estilhaçados de pensamentos quebrados em pesadelos acordados em trechos de vida dividida em mais vida espalhada no chão em fragmentos de coração dilacerado em paixão triturada em raiva mastigada em voz engasgada num teco que se espalha em luzes cortadas de sombras em fatias de luzes de tantas ideias




Ideias Fragmentadas by YuriKiddo







22 de julho de 2011

Abajur

Acordei com o dia escorrendo no vidro da janela, mas já não chovia mais e o Sol brigava com as nuvens para se exibir. Ainda deitado no sofá da sala, inclinei a cabeça um pouco pra trás e vi a lâmpada do abajur acesa em vão no dia. Sentindo o corpo cansado e marcado de horas atrás, não quis levantar, mas o relógio anunciava o intervalo do meu sonhar.

O cheiro de mijo, morte e cigarro tomava conta da manhã. Fazia tempo que Allan não aparecia, estava maior, crescido, seguro como sempre com aquele olhar confiante, melancólico e disperso. Nunca o vi dormir, mas está sempre em outro lugar. Estático em pé no quintal, decorava o cenário, mas não fui falar com ele.

Meus pés descalços desviavam os passos naquela cena pós-guerra: cinzas, caximbos, seringas, bitucas, garrafas, latas, papéis, vômitos, restos... Reparei que um não respirava. Um amigo – outro. Não reagi. Allan veio e me abraçou e isso foi tudo que podíamos fazer. Acho que o abraço foi pra saber se estávamos vivos, aqui presentes em carne e osso, sabe?! Tudo pode ser tão confuso quando se usa tanta coisa toda hora que às vezes sinto como se nada disso fosse real, e penso que talvez esse seja o ponto da coisa toda, ultrapassar barreiras. Senão... Se essa destruição é somente fuga... Hoje um não acordou.

Meu estômago pedia sólido pra tentar completar os vazios. Nosso café da manhã era as sobras daquele passado no fundo de uma garrafa, na raspa de um pó e na pontinha de um beque sujo de batom. Peguei algumas coisas que mortos não precisam e fui embora, enjoado com a claridade, enjoado de ter que despertar mais um dia como alguém que nunca descansa, que não folga as dores com risadas, que não sente machucar as perdas. A anestesia que as drogas sustentam só deixam sentir os músculos amassados e as marcas inflamadas em veias estouradas. E as portas abertas no cérebro fazem da vida algo tão passageiro, deslocado e sem graça quanto pessoas num ônibus lotado.

O vento fresco das oito me dava atenção pra tentar me carregar praquele dia, pra hoje, pra mais pra frente... mas me sinto como a luz do abajur.

15 de julho de 2011

Brisa da Noite

Como se captura algo que não existe? Camaleoa que se esconde na multidão, lenda, folclore... O conto a seguir foi algo que ninguém me contou, eu vi, vivi... Só não tenho como provar.


Duas luas cor de mel em noite quente o observavam... Os olhos de Brisa da Noite. Seu cabelo era mata que os dedos trilhavam e se enroscavam para morder. Selvagem, corria entre árvores e prédios, sabendo exatamente onde pisar nos espaços entre raízes e sapatos.


Quando corre, não faz vento. Quando se move, nem a sombra a acompanha, vai embora e volta sem que se deixe perceber. Seu corpo marcado de flores se camufla em relvas psicotrópicas. E no acalanto do tempo, se multiplica nos minutos para fazer valer as horas.


E no acalanto das horas, se multiplica nos espaços entre milésimos para fazer valer o tempo.


Sempre há um caçador a espreita, observando a beleza com que dança seus passos, dos desenhos nas sombras de seus movimentos, do cantar do pássaro que a devia vida e sempre a acompanha. Ela também o acompanha com um sopro de vento suave que ecoava musicalmente por toda aquela Urbália.


Dizem que não é difícil caçá-la – mas eu nunca vi ninguém. Ouvi por aí que ela é quem escolhe e vai atrás da presa. Se alimenta de brisa e sentimento, não da razão de um caçador limitado. E foi exatamente por isso que aquele que observava no parágrafo anterior virou observado. Tão inocente, indefeso com aquela arma na mão sem querer atirar, sem pretensões ou grandes ambições. Não caçava nada, mas gostava de se perder pela primeira vez ali e sentir o lugar, e quando o sentiu... Brisa da Noite.


Felina, se transformava em onça quando bem entendia, se misturava na natureza e não havia quem a encontrasse – a não ser pelo seu cheiro afrodisíaco e delicado que faz os olhos se fecharem para intensificar mais os sentidos.


Cheiro de mulher.


Cada vez mais forte.


a dança,


o cheiro,


a sombra,


o cabelo,


o transe,


a transa,


tudo.


toda,


em


movimento.


Ela então finalmente surgiu – sabendo que já o tinha – maior do que os prédios, com as presas de fora, um sorriso. Por um instante o caçador se assustou e seu instinto fez suar músculos tensos. Recuou sem saber para onde ir. Depois pensou se teria realmente que correr. 


Cerrou as pálpebras encantado com a dona, com seu cheiro, seu pêlo... Hipnotizado, ficou estático esperando ser devorado, encarando o coelho em seu olhar felino penetrante de luas. Seu próprio reflexo. Tsuki-no-Usagi.


Noite em preta e branca... A brisa.
Virou onça com pele de céu e pintas de estrelas. Misturou.


O lambeu.




---

*Brisa da Noite é mórfica e atemporal. Escreverei mais sobre ela aqui, ela é muitas e toda. Espero que gostem.*

2 de julho de 2011

À Deriva

Sob o sol de outono, claro e morno, ele vestia apenas uma camiseta azul marinho com um arco-íris em forma de "U" ao contrário, cueca branca e todos aqueles pelos indicando a direção do vento. Ela usava boina vermelha, cachecol xadrez e óculos escuros. Sentou na proa para admirar umas libélulas que brilhavam mesmo não estando escuro. Ele teve que ficar mais atrás, tinham que se equilibrar para não virar o pequeno veleiro de folha de caderno.

No mar de indagações e pensamentos ele veleja à deriva em seu barquinho de papel. Nunca soube aonde ir e nunca entendeu porque deveria saber, ou o que fazer ou porque ter que escolher. Assim, atirou o único remo ao mar, por entender que aquilo não fazia sentido. Não se rema quando não se tem para onde. Em troca, o mar devolveu um canivete de pirata, que ele conferiu se estava afiado. Sentiu o gostinho de ferro do sangue no dedo, manchando o barco - mas só um pouco.

Ela o acompanhava por crer estar à deriva, porém queria aportar numa praia deserta e virgem, mas ele a lembrou que nada podiam fazer. A abraçou tentando aliviar a frustração da jovem marinheira que queria descer a todo custo, mas está tudo cercado de água gelatinosa. Então começa a chorar.

O sol está anunciando o começo do fim da tarde, ela chora levando as mãos aos olhos, refletindo aquele crepúsculo. Espelho de lágrimas. E tudo aquilo é simplesmente lindo. Ele a coloca em seu peito antes que ela suma em choro e molhe todo o pequeno veleiro de folha de caderno.

O mar irritado e enciumado por não ser dono daquelas águas não os quer mais ali e empurra com ondas fortes para qualquer lugar. Até o silêncio, quem em troca permite que se ouça a bússola no peito dela – mas agora já é tarde e as estrelas tão distantes brilham sem razão. Cansados, deitam e sonham o mesmo sonho.





(Até afundar... Ou quem sabe aportar em algum paraíso natural que os dê razão.)

26 de junho de 2011

These days of confusão




Dias de confusão
Se estendem
Além do seu são.
Compreensão
Que se faz necessária conforme as horas passam,
Lentamente.

Porém não

– alegam que ele está doente.
- Ainda?
- Não, dessa vez é da cabeça, ele está pior –
Ouvia as conversas pelas finas paredes a seu redor.

Há muito tempo não sentia
O sol de uma forma harmoniosa.
Saiu depois de muitos dias
Trancado em casa,
Andando naqueles mesmos metros
Quadrados,
Vivendo um mundo
Quadrado,
Se comunicando
Quadrado,
Apenas com os dedos no
Teclado.

Movimentos atrofiados,
Língua atrofiada. Andou
Em direção a nada,
Encontrou desencontros enquanto

Sentado

Esperava

Na velha escada.
Todas as mudanças em seu caminho,
Desejando se veria novas estradas.

Usou o tempo
Para pensar sobre o que costuma
Esquecer.

Amou.
Ela dizia
- Vou onde você estiver.
- Eu não sei onde estou.
Não vai arriscar outro tão logo.

Seu reflexo era a companhia em
Não tão raros monólogos.
Conversava sozinho sobre tudo o que inexistia,
Pensando haver multidão.

Assim usou
E foi usado
Pelos dias
Que vieram,
Que já vão,
Que seguem
Sem direção

Ele que mal dormia,
Agora passa horas deitado,
Olhando para cima, pedindo
Para deixar recado.
Parou de sonhar para viver
Sem querer ser
A realidade das madrugadas que o acordavam
Dizendo que alguém voava sob efeito de
Ácido.

Ou que se cortava no quarto
Ao lado.

Não o confronte com falhas,
Ainda está quente
O sangue na navalha.

- Canalha!

E aqueles que ainda acreditavam,
Perguntavam
Por onde anda sua mente aflita
– Não minta, como você está?
– Tudo bem.

Grita.

Não fala com quase ninguém.
– Como assim ninguém?
– É isso aí, meu bem...
Maluquinho de dar pena. - Não chega perto que envenena.

Fobia
Enjoo
Dia após
Dia
Nunca pede por
Socorro.

Dói a garganta
E o coração
Os amigos cansam,
Não mais dançam
Estão com medo
De viver a vida que ele canta
Nos acordes de seu violão.

Assim usou
E foi usado
Pelos dias
Que vieram,
Que já vão,
Que seguem
Sem direção

Dias de confusão.

24 de junho de 2011

Triste demais para título




Passou mal e acordou tendo que correr para o banheiro para expelir o que não lhe fazia bem. Enjoado, misturou café em sua boca recém-aberta depois de longas horas de sono e silêncio – para lavar o veludo da manhã, tirar o rachado da alma e tentar despertar os longos dias que se seguem sem razão.

O dia já nasce fracassado quando o Sol queima ao invés de aquecer seu espírito gelado e iluminar retinas desesperançosas. Olhou as ligações perdidas em seu celular e não quis se arrepender de ter ido dormir cedo depois de tantos remédios diluídos em poesias ruins.

As lâminas permaneceram na gaveta, mas suas lágrimas se espalharam na roupa e sibilaram no chão como de costume. A vantagem é que lágrima não é vermelha e some conforme o tempo a esquece. O tempo é impiedoso e racional demais para dar atenção. Ele não, então permaneceu ali mais um pouco... Respirando o ar venenoso daquela casa, ar que o pulmão não consegue filtrar.

Não consegue parar os arrepios, tampouco aquecer as mãos frias no caderninho. Não consegue parar de ouvir e sentir presenças e passos que não deixam pegadas. Segredos que não são seus, mas que guarda como se fossem por não ter certeza. Seus medos estão cada vez mais concretos.

Sem conseguir, decidiu escrever.

21 de junho de 2011

Eriatarka

Saiu do quarto e antes que pudesse terminar as escadas se desembestou a chorar. Ele que nunca havia chorado na frente de ninguém, chorou para as paredes, fotografias, janelas e insetos e vermes invisíveis que havia naquela casa. Desceu parecendo um bebê, chorando e se arrastando pelo chão.

Chão. É um lugar seguro! Do chão a gente não passa, não é mesmo? Se enrolou no tapete e foi chão. Levantou verme, pegou o telefone e apertou os números como se soubesse a quem ligar. O desconhecido atende e te ouve chorar, só chorar... até que desista e te desligue da vida dele. De sua vida. Que coisa feia. Feia é como a coisa vai ficar quando ele pega uma faca na cozinha. Amante.

Amante. É, você sabe – o que ama dores e sabores em adocicadas gotas de sangue saindo dos punhos. Pingou por aí até não ter mais motivo para pingar. Não crendo em nada disso, desfez seus atos para não sujar o jogo de pano de prato, o sofá maldito sofá. Morrer também não vale à pena, no final das contas. Mas a vida pesa conforme as horas diminuem.

Diminuindo,

indo,

iii

sumiu.







They used to have pulses in them
But impulse has made the strong





12 de junho de 2011

[vento na] Rabiola

Meus olhos se fecharam como se nunca mais. Senti o peso do mundo me jogando para baixo do ralo, me misturando com o que preferimos esconder. Aquela sensação de voar em direção ao infinito e desconhecido foi muito mais forte do que na maioria dos dias. A sensação do vento é muito mais frio do que na maioria dos dias. Corta e dura pra sempre. Fez lacrimejar. Senti o caminho gelado se formando até os ouvidos que não ouviriam mais a sua voz pra me dizer. Não aprendi a começar quando se está no fim.

Você sabe dançar, e me ajudava a não embaralhar as pernas para andar sem regredir. Meus passos agora são só dois, e não quatro pés como de costume - só quando me ajoelho porque é o que tenho vontade sem exatamente me questionar a procura de respostas justificativas. Motivos que não.

Meus versos quebrados em meu violão desafinado não te disseram. Faltou sorriso pra me ensinar o caminho. Me faltou pra te guiar... Mesmo sem saber. Te machuquei pra me ferir, é algo que eu.

faço,
embaraço.








Afasto.

Quando se abriram, as lágrimas eram só sujeira que a gente limpa sem nem querer ver. Quando se abriram não enxergaram. Não quiseram ver. Pensei estar do outro lado, porque assim eu quis. Quando tive, perdi. E perdido, não sei mais querer. Descrente, lá fora está tudo bem, porque eu aprendi como se faz quando ninguém.

Minha vontade é de rasgar meu peito e jogar o coração pra bem longe, chorar todas as lágrimas do corpo e pular. Pra sentir voar, o vento a chorar os olhos que negam assistir sua ausência tentando enganar. Quando o colchão não afunda do meu lado porque você é presente de algo que forço passado.

Enquanto tudo acontece, aguardarei que suas forças me ergam. E se nunca mais vier, nunca mais irei. Até partir de vez como rabiola que luta para se desprender do fio e acabar morrendo na calçada.



“Para ficar sozinho é preciso abrir os olhos, segurar firme no que nos manterá desperto e suportar os olhos bem abertos dentro de todos os estragos que o tempo faz. Que o tempo fez. Que o tempo fará.”

10 de junho de 2011

Grizzly


Um momento me abate, depois de outro me tirar a franja dos olhos. Andei por outros e desejei o que já tinha. Voei de volta, outra eu, para o mesmo de antes. Vi tudo que ansiava nas nuvens e, tola, imaginei que o tinha. Esqueci que isso eu não tinha. Então não pousei, despenquei. E vi de novo a visão das nuvens e vi que sonhei. O final não era feliz. Chorei e me desesperei, não sabia onde tinha ido tudo para o que ansiei voltar. E assim, tão rápido quanto as coisas mudam nessa história, meu choro fez tudo ser o que era antes, e fiquei confusa e com medo. Vi novamente o delírio das nuvens, e o final triste agora não era tão triste, tinha esperança ali e o prólogo alegre compensava a incerteza que se seguia. Valia a pena, pensei.

Mas, quase sem pontuação e num só fôlego, a visão se tornou música e o final veio antes do esperado. O meio mais breve não avisou que o impacto do triste fim estava logo ali. Por horas e dias ouvi sem parar a trilha do sonho e tudo ficou azul, triste, com tanto espaço e sem esperança. Fui jogada de um lado para o outro da trama, enquanto piscava, e perdi todo o meio. Não sei mais qual visão tive, se a linda e esperançosa, ou a triste e fatalista.

Sinto, porém, que neste frio, um urso cinzento me abraça e esquenta.


9 de junho de 2011

Lugares

Querida Lígia,

Tenho pensado muito naquilo que conversamos informalmente, jogando conversa fora, sobre ir a lugares que a escrita permite. Lugares que nem sempre queremos ir... Tem um tempo já em que eu me pego desviando de meu Sonhar, lugar em que as respostas aparecem com clareza e me expõe de uma forma na qual me despreparei para encarar. Tenho tido muitos flashbacks e devaneios e deja vus – como quiser chamar – no qual misturo sonho em minha realidade e minha realidade invade o mundo de Morpheus, e isso tem me preocupado muito. Não sei bem dizer por quê, às vezes só acho que estou perdendo.

Sei que fiquei pensativo com a nossa conversa e reflexões sobre escrever. Você pode até estranhar por ter sido uma conversa tão rápida e cotidiana. Eu estranho. Percebi que é por isso que não tenho escrito tanto. Tanto como escrevia, de forma compulsiva, doente, passional. Tenho me boicotado entre pessoas e passeios que me levem a qualquer lugar longe de mim. Longe DAQUELE lugar. Só hoje percebi minha tentativa de fuga, meus atos falhos para não ser.

Tenho buscado estabilidade em minha vida, sempre achei que fosse assim, mas nunca quis que fosse assim e agora que percebi estava tentando algo que. Isso na minha adolescência era coisa de adulto, pros meus pais se preocuparem. Atualmente eu continuo achando que isso é coisa de adulto, mas quem é adulto por aqui? Muito mais importante é - quem é estável por aqui? Desde ontem te procuro, não de forma pessoal, mas do jeito em que meu medo avançou. Aqui.

Nessa busca percebi a fuga. Em nossa conversa percebi que eu concordei com o que disse, mesmo quando discordei sem perceber. E isso tem me tirado as noites de sono, noites de sonho, meus lugares. O escuro pra mim sempre foi curiosidade e agora causa medo, não pelo desconhecido, mas pelo que eu já sei. Antes eu não queria saber de nada, fazia e acontecia e acabou. E agora o que restou para acabar?

Eu quero meus lugares de volta, minha coragem de volta, minha curiosidade de volta. Meus gritos e cantos, meios e fins. E foi numa dessas conversas que a gente não dá nada que vi os falsos labirintos que construí – pra eu não ter fim. Que caiam todos dentro de mim, para que eu possa reconstruir e explorar onde me sinto melhor. Meus lugares instáveis, sem mapa e sem portão. Lugares entre a mente e o coração. Lugares que eu não.



Nos falamos.
yK.

31 de maio de 2011

Sem sentido




Foi só quando eu acendi um banza que eu percebi que estava na frente da casa de um amigo de infância. E que tinha crescido ali. Um amigo que eu não via há pelo menos treze anos. A polícia passou por mim e o giroflex girava em câmera lenta. Percebi que tudo estava em câmera lenta. E que ali estava minha infância. Mas agora os muros não eram mais tão grandes assim, as casas mudaram as cores, as famílias, as rugas. Eu aprendi a ler pixação e fiquei pesado demais para aqueles galhos de amora. Para qualquer árvore. Para qualquer um. Pesado demais.


A última vez que eu pisei naquela rua não tinha nem pelo, um girino, um menino lobo. Agora tenho pelos em lugares desnecessários e não sei mais se ainda sou menino... Se só o que sobrou para ser foi lobo. O que sobrou para ser além do que sou, além da matéria. Vermelha sombra vermelha sombra vermelha sombra – o quê? A luz.


A polícia passou e nem percebeu a minha pala. Ou não quis perceber. Ou viu meus olhos mareados e não saberia resolver. Preferiu fugir a ter que me encarar. Encarar minha torrente de pensamentos e lágrimas de um olhar fosco de sonhador cansado. Sonhador cheio de insônia.

Não terminei o cigarro, nunca soube se meu amigo ainda morava ali – ou se ainda era o meu amigo. Não teve geral da polícia. Não cresci, tampouco sou menino ou lobo. Desisti de ser ou pular qualquer muro que me prendia e só continuei andando sem pontos para ligar. Sem.

Não teve espera. Teve passo. Para longe do meu passado, para onde eu não existo e sou feliz. Sou feliz nos momentos em que eu não existo. Quando os vejo sorrir sem mim. Capturados em fotos com alma, como quem tem muito a perder. Eu não tenho nada a perder, por isso sou perigoso. Mas me sinto maior. Maior que o ar. Minha mãe se contenta e sente saudade do que eu não fui e se recorda do que não vivemos. E nos encontramos quando não somos. Porque temos tanto e quase nada.


A mulher evita meu beijo no sexo, pra sonhar com outro sexo. Goza em silêncio pra não me acordar, sem perceber que ali sou eu. Alguém que não. Talvez eu é quem não tenha percebido que ali eu não existo. E minha matéria é fruto da imaginação de alguém. Um sonho triste. Que nunca.

8 de maio de 2011

Lágrimas de mãe

Seus olhos estavam lacrimejantes, sua voz falhava, o nariz começou a ficar corado e logo estava tremendo em lágrimas. Ouvidos ao telefone, só chorava a perda de si mesma refletida num doce brutamontes, seu marido. Morto. Mensagem recebida por uma linha - ligação. Filho, também baleado, passa bem... Todos, na verdade passam mal, "sobraram".

É difícil passar por ela e vê-la assim, derrubada, pisoteada pelo desgosto. Uma mulher de vida e costumes simples, humilde e generosa. Viva, não te deixava abaixar a cabeça sem que viesse com algum conselho ou um abraço maternal. Viva, agora só sobrevive.

Outra mulher vive quase diariamente a mesma situação, não aguentou a traição do marido junto com a papelada do divórcio - esse caso aí os advogados devem atender igual fast-food, é um Nº1 com fritas média e coca light... "plus". Passa horas do dia dando ouvido às asneiras dos programas da tarde na TV aberta, isso sim é decadente. Conversa com a TV, sozinha, ao telefone sem parar, só por não ter o que falar, com quem.

Tenta se recompor por meio de uma personagem forçado, se maquia para esconder e sorri em fotos, só em fotos, para quando se rever no futuro tentar se lembrar de felicidades que não existiram. Sai com homens fúteis que completam seu papel fútil de imitação barata de novela. Os filhos aguardam sua morte, ela também.

Teve um outro caso de uma mãe que, mas ah, por aí vai...

Feliz Dia das Mães!

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Esse texto não tinha intenção nenhuma de ser para dia das mães, era sobre mulheres que eu conheço, casos verídicos que eu comecei a escrever em março sem saber direito aonde ir e resolvi postar.

4 de maio de 2011

Treinando Pra Ser Chuva (Lágrimas Psicodélicas parte 1)

Me ouvi chorar naquele mar de lágrimas psicodélicas que era o fim do último dia. O sol se despedia vermelho e sincero enquanto a lua surgia bem alimentada pela luz. Navegava para lugar nenhum procurando um recanto para meu sonhar infinito...

O gosto de chumbo indicava o quão longe eu estava a caminho do centro da Terra, para nadar nas lavas ferventes da desgraça. A felicidade é aquarela fresca que se mistura e escorre da tela. Até manchar tudo, sujar tudo, bagunçar tudo, para deixar nada. Uma arte falha.

No fundo imundo escuro não me vi sozinho, um monte de outros eus, vocês, nossas mães, nossos filhos, semelhantes, amigos... Todos nós desatados...

Mas você dançava a beira-mar as batidas de um coração que não cansa de ter esperança, enquanto que meu descompasso desajeitado me fez afundar cada vez mais nos oceanos do meu mundo. Afundei sorrindo pra você e sumi.




Me acabei em sal e
c
h
o
v
i
...

30 de abril de 2011

Peixes do Absurdo (Lágrimas Psicodélicas Parte 2)

A areia branca deu forças pro meu ódio social, porque não arriscar tudo quando não há nada mais pra se perder? Todo dia acordo passando mal, corro pra qualquer lugar sem direção pra tentar fazer sumir, fazer fugir, essa dor que há em mim.

Eu sempre estou a seu encontro, porque nado pra parte segura e lá te vejo, e se nado pro fundo quando não te alcanço, a tempestade me faz surfar em nuvens carregadas de lágrimas psicodélicas. Chove sem parar no mundo inteiro. Alaga tudo, todos somos peixes do absurdo.

De tanto arriscar, acabou toda riscada sem conseguir nada. Nadar.

- Tô no fundo do poço e tô cavando, até a puta que pariu, tô cavando! – ela gritou sete palmos abaixo da terra, enquanto tirava os vermes de sua pele ainda fresca. Escrevo sobre sua vida sem nem ao menos conhecê-la direito, não nos conhecemos em vida. Isso em que vivemos não é vida, é uma pseudo vida, uma matrix artificial na qual vagamos como vírus sem motivo pra existir.

No final, ela sempre diz que estou certo, por mais que queira estar errado. A realidade é um liquidificador com um buraco negro infinito dentro do copo.

todos somos peixes do absurdo















Alaga tudo, a tempestade
De lágrimas
Psicodélicas.








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parte 1 no próximo post.

21 de abril de 2011

Enter the Void

As letras se embaralham e se escondem na ponta da caneta e na ordem das teclas, o peso do sorriso derruba minha cabeça e as lágrimas escorrem no meu rosto de cinzas, transformando tudo em lama.

Na maioria das vezes a anestesia não me permite sempre sentir, tentei ver de uma maneira diferente, mas meus olhos doentes só enxergam o meu horror espelhado no brilho de seus olhares vazios. Sem as armadilhas da morte não há motivo algum para viver.

eu sinto saudade de um tempo que não foi, de onde eu não existi, do que não aconteceu. A inércia deste instante me incomoda, ele se estende eternamente no passado e no futuro, me deixando divagar no agora. Eu vi o futuro e tudo estava morto, eu também estou e fico aqui, me perguntando sem saber de quem eu sou o erro.

Vejo e sinto coisas que não são daqui, que são de mim.
Eu sou a dor infinita do meu próprio fim.