Sejam bem-vindos ao outro lado do espelho, onde tudo pode acontecer (e acontece).

Wonderlando é um blog sobre textos diversos, descobrimentos e crescimento. A filosofia gira em torno do acaso, misturando fantasia e realidade de dois amigos que se conheceram também por acaso, Alice - que tem um país só seu -, e Yuri - chapeleiro e maluco nas horas vagas.

Leia, comente e volte sempre... Ou faça como a gente e não saia nunca mais.

11 de setembro de 2014

Out of season

Não sei se ela te amava. Gostaria de dizer que sim, sei que te faria feliz, mas juro que não sei. Ela era diferente, demonstrava as coisas de outra forma. Pode ter sido amor, pode ter sido carinho, pode não ter sido nada disso, só a convivência, usando as táticas do dia-a-dia. Pediu sinceridade, não foi? Sei que você a amou por muitos e muitos anos, sua devoção sempre ficou clara, nas ações e nas palavras. Importa mesmo se ela te amou de volta? Agora, que ela já se foi? Acho que você nunca vai saber a verdade, ninguém vai saber. Nem ela saberia, se perguntassem, tenho certeza. No começo, acho que sim, foi difícil, você exigia muito dela, mas aprendeu com seus jeitos e sua independência. Confesso que se alguém sabe lidar com pessoas solitárias, você é uma que me vem à mente. Não sei como você faz, eu não conseguiria. Talvez ela tenha reconhecido isso... ela fez suas concessões, no final. Aposto que não foi fácil pra ela, não que tivesse muita escolha, pois dependia de você, mas acredito que ela apreciou o carinho – pode até ter repensado atitudes do passado. Você precisa acreditar também no que os outros dizem, no que viram. Seus braços eram claramente os preferidos dela. Nem tudo que você sente é a realidade, sabia? Por vezes você pode se ver preso numa teia de pensamentos derivados de detalhes e esquece de olhar o todo. Sei que os outros não importam agora, que cada amor é um,  mas você tem amor agora. Cada um ama de um jeito. Veja hoje a companhia que você tem, tem coisa melhor? Não era isso que você sempre sentiu falta? Agora encontrou. O amor se transforma, ressurge, reaparece, sempre. Porque metade depende de você. A outra metade acho que é sorte. Você sempre teve sorte nesse quesito. Talvez agora seja diferente, mas por enquanto não está sendo. Não sei mais o que te dizer. Sua questão, sua dúvida, seus medos... queria poder ajudar mais. A queda no outono, a morte, o frio do inverno, o abandono, não podem deixar que você não perceba os frutos da primavera. Eles virão. Sim, é só algo que falamos, como a resposta automática para o “tudo bem?”. Mas pode ser verdade, não pode? Porque as coisas acontecem... enquanto isso, estarei aqui. Não sou o chão que te amparou no outono, nem fui alguém para te abraçar e aquecer no inverno. Muito menos sou as flores e frutos da primavera. Mas posso ser a esperança do verão.

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26 de junho de 2014

Tuti

“Recordação, nostalgia, saudades do passado, do que se foi”. Para mim, saudade é futuro do nunca mais: nunca mais um beijo, nunca mais um abraço, um colo, uma foto. Não tenho saudade do que tive, tenho saudade do que eu nunca mais terei... ela nos meus aniversários, ela me chamando, ela no meu casamento. Não quero o passado de volta, só quero ela, envelhecendo comigo, me ensinando a viver bem, a ter paciência, amor e carinho.


Ela mudou o rumo da minha vida. Choro todos os dias pensando em tudo que vou deixar de aprender agora que ela se foi. Dezoito anos nunca seriam suficientes, nem 100, para sentir tudo o que o relacionamento entre eu e ela poderia ser. Se sua presença moldou quem eu sou, sua ausência também moldará. Tento não ter medo desse futuro, já que tudo no meu passado com ela é doce. Então acho que tudo tocado por ela será igualmente doce. Mas eu seria mais forte com ela ao meu lado, é difícil confiar que o que tenho dentro de mim bastará.


27 de março de 2013

Eu costumava rir dos meus Yuris, mas hoje eu vou chorar

Irônico.

Eu achava graça de como Yuris cruzavam meu caminho, um tanto vazio, com alegria. Meu primeiro amor, meu melhor amigo e meu grande amor. Agora, só des-graça. A felicidade de um, o terceiro, encobria qualquer pesar passado. Até o presente pesar também.

Um dia, achei o nome abençoado. Não tenho mais certeza. Quando a gente repensa, com olhos cheios d'água, os remendos do passado não parecem tão bem feitos assim. Não chega a ser uma ferida reaberta, mais uma constatação de negligência, da realidade que se passou. De certa forma, não deixa de ser uma versão da realidade.

Fui apaixonada por todos e todos me quebraram o coração.

Meu primeiro amor nunca me notou. Foi um grande amigo, talvez nem tão grande quanto o que eu considerava. Um Yuri que se foi numa adolescência solitária que, apesar de resolvida como adulta, sempre será um período problemático.

Meu melhor amigo tinha muito carinho por mim. Mas a gente nem sempre resiste às pressões de afastamento da vida e de opiniões. Brigamos algumas vezes, que me machucaram muito, não quis mais vê-lo ou falar com ele, por um bom tempo. Mas o carinho existe, ainda bem.

Meu grande amor foi o que todo grande amor é. Logo, a marca que deixa quando vai embora é grande igual. Às vezes eu penso que o buraco que ficou é tão grande que deixa de ser buraco e vira o todo, como se o resto que ficou não bastasse pra se sustentar. Um erro, claro. Mas...

Beckett disse que abandonar não é só ir embora, mas deixar o outro partir também. Ele não foi o primeiro a me deixar partir, mas em outras épocas e outras pessoas, eu conseguia cantar que estava indo para sempre e nada mudaria meus sentimentos. Mas acreditava em outros "para sempre" com meus Yuris.

Alice não é nome de princesa, mas de uma garota que sonha e se perde. Não tem para sempre na minha história, só um "acorda, Alice".

20 de fevereiro de 2013

Blue Valentines



Eu sinto a falta. Eu me esgoelava louca para todos que metade de mim tinha sido arrancada e todos diziam que bobinha, não sabe nada da vida. Daí os todos dizem meses depois que é normal eu sentir essa falta, já que metade de mim parou de existir. Então os todos dizem que papel amassado não volta a ser o mesmo e que a tpm é uma medida de tempo, não tomarás decisões nesta data.


A gente faz nossas vidas com os outros e vamos deixando pedaços pelo caminho. Pedacinhos ou não, pra buscar depois... ou não. Os todos dizem que têm coisas que vão ser inacabadas para todo o tempo do sempre e que a gente aprende a viver com isso. De repente os todos gritam “gol”, mas isso não era pra mim, só ouvi no meio de todo o resto.
 
Tem coisas que não são pra mim. Mas a gente vive mesmo assim.

2 de novembro de 2011

Tudo no pretérito imperfeito que tiveram




Por querer apagou a última luz.
- Eu só quero te ver, acostumar os olhos no escuro -, jogou as palavras desordenadas mas conexas. Dando a ideia, aquela ideia, de que ela não saia da sua cabeça.
– Na cabeça não. Coração. A corrigiu quando ainda era só a voz, enxergando com as mãos.

É no passado que se conjugam os verbos de amor. E amaram, cada qual com seu peso, medida e ideal de algo que talvez nem exista. Algo que talvez a gente pensa que, até sentir mais forte e rir daquilo que um dia fora quando um novo acorda. A corda, que amarra, enforca. Faz tirar os pés do chão, torna vulnerável, palpita o peito, faz desejar a morte. Ou a vida plena!

Lembrou que tinha um coração, que não havia enterrado como as outras lembranças. Foram. Eram dois na tentativa de equilibrar aquilo que os faltaram como um. Mas somente se equilibra o dois quando este se torna único, uno em sua totalidade, ou três: positivo, negativo e neutro.
- Do que você está falando?
- De equilíbrio, me deixa. E deixou. Pouco tempo depois, sem tempo para despedidas, sem avisos prévios, sem discussão ou paliativos para a raiva ou esperança. Aquele “eu te odeio” não deu tempo. Só doeu. Sem ódio, sem texto, sem o último olhar...  Deitava com suas peças de roupas para chorar até o cheiro dela acabar. Até o nariz afundar e não encontrar.
– Até quando? O largou menos na esperança de um até mais. Mas esse mais, jamais.  

Ela nunca o amou no presente. “Te amei”, repetia, porque ontem era certeza, era perfeito quando lembrava o sentimento e fazia assim o verbo. “Te amei” quando se despediam porque podia ser a última vez, ela brincava. Ele sempre sério, às vezes sem entender a conjugação dos tempos e a importância das lembranças e das palavras.
- É presente! Se entregava embrulhado num papel estampado.
- Então, já que você é m’eu amo’, conjugava, vai fazer o que eu mandar. Ria e brincava e eram. Porque também foram quando ela dizia “te amei” no pretérito e ele enfurecia em dúvidas e escárnios.

Quando deixava as flores como sempre fazia há alguns meses, relia sempre em voz alta, só pra ele, o “te amava”. Aquilo poderia soar frieza, mas suava emoção. Nunca a perdoara pela traição do abandono repentino, mesmo sem culpados, foi o necessário para mantê-lo são. Transformar a perfeição do passado em amor imperfeito pra tentar esquecer... Pelo menos no verbo. Mesmo sem saber o que é direito amor, se é perfeito, e quem definiu isso. Mesmo ela sendo a “garota atemporal”, como ele dizia, que não vivia o agora, só o antes e o que ainda não veio.

Tudo no pretérito imperfeito que tiveram, que ainda está lá, mas que não dá mais pra ser agora, só quando chegava em casa, apagava a última luz para acostumar os olhos no escuro, para vê-la e tê-la mais um pouco, cada vez menos, sem saber até quando. 

30 de outubro de 2011

25 de outubro de 2011

O velho que não





O barulho do isqueiro anuncia mais um trago. Puxa. O brilho laranja intensifica a cada inspirar. Nos lábios, o gosto amargo se mistura com o ferro que o sangue tem. Se morde, deixa marcas até sentir na língua o gosto. Se machuca por que se necessita.

A fumaça se espalha por dentro. Segura. Fecha os olhos e se lembra do que é. Jogado no quintal, se escondendo da luz do poste que invade amarela. Num canto escuro de suas pálpebras, se vê menino, recorda do que é e do tempo cada vez mais no fim. Se. Solta.

Expele nuvens de seu pulmão que cobrem a lua cheia. Assopra nas primaveras, de um rosa tão forte que é quase vermelho, como se ficasse gastando o lápis numa única parte. Até não ter mais lápis pra apontar. Até não ter mais lugar.  

Sangra, quando ninguém vê, se devora. Desaparece devagar, se mistura na fumaça. Evapora. Porque está pesado demais, inválido, vencido.  Quer chorar e não consegue. Quer gritar e não consegue, tem medo de perder o controle de vez. Basta os cortes, a carne, as depressões, traumas e frustrações. Quis dizer basta. Não disse.

Quando dorme, vai pra longe, porque aqui não basta. Simplesmente não dá mais. Quer dizer adeus, nunca sai. Tentou acreditar que seria diferente, que agora estava mais estável, mais coerente... Mas só ignorava as confusões, ou explicitações que lhe gritavam que aqui não satisfaz. Foi o monstro embaixo da cama, porque é o seu inconsciente inconsequente quem diz quem realmente é. Se sente um velho que não viveu, mas que também não quer. 

17 de outubro de 2011

Pós-rock


Assistia os diferentes tons de cinza das nuvens em um céu que não anoitecia, uma noite que não chegava. Feito eu, que só tem começo, que não tem fim, mas que também não é.  Voltei quando ouvi o Trent Reznor pedindo pra alguém ajudá-lo, que ele estava se afogando, que sozinho ele não conseguiria. Eu também tenho achado que não. Se eu perder o presente, não sobra nada. Se não tem agora, não tem eu pra ser.  

Me olhei. Vermelho como há muito tempo, como deixei que não fosse mais, e agora aqui. Vermelho. Que meu coração expele e me afoga, engole meus gritos e pedidos por socorro, me afunda. Comigo. Sozinho. Pra dentro de mim.

A solidão me ataca, me domina, me desarma, me acompanha, não me deixa, mesmo quando. Minha sombra é duas, porque ela reflete a minha escuridão e não é miragem, me toma, me doma, me amedronta, a ponto de. Ligo pra qualquer um, só pra me ouvir dizer, besteiras qualquer. No violão, um pós-rock minimalista – pra não dizer infantil, de duas cordas. Pra não dizer ruim. É só o que eu sei fazer nessas horas. [Ser ruim]. Nas outras horas que foram, naquelas lá que ainda virão... E mais naquelas e naquelas...  

Vou até a janela. Assopro pra ver se me misturo, pra ver se consigo ir junto com a fumaça, cinza como as nuvens, que vão sem reclamar. Na noite, ainda não há a escuridão que o inverno prolonga, mas há o frio, agora eu. A curva do céu está no vão, assim, eu também fui.



24 de setembro de 2011

Majine ( Máquina de escrever)

Havia semanas que percebia seus passos desajeitados pelo prédio. Em areia movediça, a mais nova se fazia sumir pelo chão no desejo de se desfazer em palavras. Suas mãos inquietas necessitam dizer tudo aquilo que sua mente entende, produz, reluz. 


Em luzes se encontram ideias que inspiram de forma orgânica e natural a minha natureza, como eu vejo e ninguém sabe, porque nem aqui cabe. Já tentou fazer história com sonho? Já tentou sonhar e fazer história?


Se organiza cheia de peculiaridades, é meiga com espírito. A mais velha me surpreende às vezes por dizer segredos que nem sabia que havia espaço. O corpo delgado como caia sobre mim fazendo questão. Abraço. Me fez sentir saudade de qualquer coisa que envolvesse nós dois, não de uma forma romântica. Forma cúmplice, de quem é amiga do monstro. Forma.


Quantas pessoas você é sem que se perceba ser. Quem disse que não, é na verdade ninguém. Todo mundo ninguém. Nunca foi, nunca é. Pode. 


Quando exitou, quis que a mais nova sentisse segurança e refizesse aquilo que nem chegou a fazer. Estava feliz porque enfim conseguiria expressar tudo que não lhe cabia, mas que a mais velha já me tinha. O sorriso era maior que o espaço que ocupava, para compartilhar, enfim. Agradeceu, derreteu. Quer tinta para dar forma à criação.


Pode agora se expressar pela máquina de escrever e pelo abraço como forma de agradecimento, como forma de reconhecimento pela fé a ela dedicada. Escreva. A mais velha tem me desencontrado, mas com a candura com que leva a vida faz tudo mais fácil, mais leve feito a fumaça de nossas conversas. Tenho. A escrevo.