Sejam bem-vindos ao outro lado do espelho, onde tudo pode acontecer (e acontece).

Wonderlando é um blog sobre textos diversos, descobrimentos e crescimento. A filosofia gira em torno do acaso, misturando fantasia e realidade de dois amigos que se conheceram também por acaso, Alice - que tem um país só seu -, e Yuri - chapeleiro e maluco nas horas vagas.

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17 de janeiro de 2007

Histórias do Apto. 12

Fotografia
Minha mãe odeia minhas fotos. Elas não tem pose ou formato "padrão". Elas têm línguas e caretas. São muito obscuras e ela só consegue conviver com a obscuridade dela, bloqueando todas as demais. Minha mãe só gosta de tirar fotografia sorrindo em pose familiar. Ela sempre sorri para as fotos com se quisesse guardar na lmbrança a alegria daquele momento que nunca existiu. Ela sorri para que as pessoas olhassem pra ela e visse o quanto ela era feliz e satisfeita. Ela sorri porque é a forma que encontrou para que pudesse ser feliz em algum lugar, nem que seja numa memória inventada. Mentiras que são aceitas porque são melhores que a realidade. Minha mãe não usa drogas, não bebe, odeia cigarro. Às vezes eu penso que ela deveria usar. Seu único vício é procurar em remédios a cura de sua amargura. Assim, ela sorri às câmeras para mostrar o quão perfeito tudo está. Sorri para esconder a realidade e enxergar no futuro, o belo passado que teve e ter saudade de tudo aquilo que não aconteceu. A não ser naqueles breves segundos de sorriso. Minha mãe teve uma vida sofrida, não teve muitos motivos ou tempo pra dar risada. Quase não conversamos, vivemos essa guerra fria onde o acordo de paz é o silêncio. Ela merece seu sorriso, mas está muito desgastada pra correr atrás. Sei porque ela gosta tanto de foto com toda família reunida, abraçada, sorridente. Porque aquele papel eterniza um momento único, raro, passageiro como a luz do flash que ilumina a cena. Minha mãe gosta tanto de fotografia porque elas são coloridas, cores que ela nunca pôde enxergar...
Eu não quero enterrar minha mãe, mas deixo a sugestão de quando acontecer, que coloquem uma foto dela sorrindo. Nunca entendi aquelas poses sérias e mesquinhas em crípitas como se dissessem: "eu sou herói de guerra", "eu morri com uma vida honrosa e com orgulho", quando na verdade ninguém foi nem teve nada disso. Quando ela morrer, sei que vai sorrir através das nuvens, vai se permitir ser leve e exilar todo o medo que a acorrentava nessa casa. Espero poder vê-la sem que ela me perceba, e tirar fotos de uma felicidade sincera.
Talvez minha mãe sorria à todos e sou eu que não percebo ou não mereço. É um sorriso lindo. Um sorriso sincero que ela só me dá quando não pode olhar através dos meus olhos.

2 comentários:

.H.deLata. disse...

fiz uma retrospectiva de todo o blog. Postávamos com muito mais frequência!

primeiro post do ano!! aeeeeeee

vamos tentar ter mais assunto aqui?! pelo menos 1 texto por semana?!

=**

Alice, in hopes of finding that damn rabbit disse...

Não é que ficamos sem assunto... é que nos conhecemos melhor, então os assuntos ficam mais complexo por vezes. Complexos e sérios.

Por que será? Já que nenhum de nós é complexo ou sério? hahahaahah

Sim, sim! Mais frequência!