Sejam bem-vindos ao outro lado do espelho, onde tudo pode acontecer (e acontece).

Wonderlando é um blog sobre textos diversos, descobrimentos e crescimento. A filosofia gira em torno do acaso, misturando fantasia e realidade de dois amigos que se conheceram também por acaso, Alice - que tem um país só seu -, e Yuri - chapeleiro e maluco nas horas vagas.

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8 de março de 2010

Babel

A chuva de miçangas pretas e vermelhas confirmava a zica. O ciclo que estoura sem esforço e se espalha aos meus pés. Me ajoelhei para recolher aquelas contas de massa vitrificada espalhadas por todo o chão, escondidas pelo meu corpo. Quem me ajudou, não me ajuda mais. Se eu estivesse sozinho, teria engolido a guia inteira para satisfazer meus estranhos anseios, assim como fazia ao beber os vidros de perfume em segredo - o gosto ácido me lembra vida. Mas ela estava comigo, não quis assustá-la.

Na igreja vazia da Santa Cruz foi onde encontrei o silêncio absoluto para as tormentas da minha cabeça, enquanto perambulava a pé o caminho até em casa. Circulei pelos santos, toquei nos símbolos proibidos às mãos, quis confessar. Atravessei a cortina e o breu tomou conta dos meus olhos. Não tinha ninguém do outro lado do confessionário, continuei falando. Melhor assim, sem ninguém para eu arrastar para o meu inferno.

Na saída, roubei o que achei ser um escapulário, mas descobri depois que era um terço azul clarinho. Na rua, olhei mais atentamente para o meu novo troféu a fim de conhecer os detalhes do que agora era meu. Quando meus olhos encontraram a cruz, ela escapou e caiu no asfalto escuro. E desapareceu. Procurei Jesus em vão. Guardei o souvenir me sentindo mais derrotado do que quando entrei.

Os caminhos que escolho são tortuosos, por mais paraíso que pareça. Consigo transformar as mais belas pinturas da Natureza em monstros. Consigo transformar os mais belos acasos em perfeitas desarmonias ruinosas, graças ao meu infinito pensar. Meu corpo é Babel e toda vez que cresço, comino ao fracasso. As veias são caminhos cheios de sangue. No peito bate algo que a razão não compreende. Os olhos enxergam o que não é tido como real. Vejo o coração como uma flor que não cuidei, deixei tudo rachar e morrer. Eu sou o mau. Eu sou a destruição.



De tudo e todos à minha volta.

2 comentários:

Fazendo a phina... disse...

Adoro vir aqui e ver as coisas que vc escreve. Na verdade fico toda boba, cheia de orgulho de vc, de ter um amigo que mesmo estando tão longe fisicamente se torna tão perto em cada texto, em cada palavra cheia de intensidade, delicadeza e sentimento escrita aqui (ou até mesmo nas nossas raras conversas por msn).
Adoro vc e sinto sua falta.
Bjo menino! ♥
Vans

Lucas Zecchin disse...

tremendo.