Sejam bem-vindos ao outro lado do espelho, onde tudo pode acontecer (e acontece).

Wonderlando é um blog sobre textos diversos, descobrimentos e crescimento. A filosofia gira em torno do acaso, misturando fantasia e realidade de dois amigos que se conheceram também por acaso, Alice - que tem um país só seu -, e Yuri - chapeleiro e maluco nas horas vagas.

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13 de maio de 2009

It Never Entered my Mind (Sinnerman)


vermelho.
Tudo vermelho, quando acordei. Tudo do jeito que eu havia deixado, mas eu não havia mexido em nada ali, nem era meu lugar. Pedaços de livros, pensamentos espalhados e cartas rasgadas era só o que me havia restado. Uma sala de tacos soltos e empoeirados que eu brinco as vezes, uma janela para eu olhar para dentro e fumar uns cigarros amassados largados pelos cantos, uma vitrola Phillips 460 caindo aos pedaços tocando “A change is gonna come”, de Sam Cook.

"It's been too hard living, but I'm afraid to die".
Conseguia ver sua morte como se fosse a própria Bertha Franklin.


Azul.
Conforme andava a sala ia aumentando e os tacos flutuavam a ponto de me enganar que era o fundo do mar, a ponto de não enxergar o final escuro daquele salão agora de um azul tristonho. A janela virara um espelho que não me refletia, só mais da mesma sala, não importa quantas vezes eu entrasse, dava sempre no mesmo lugar. Aquele espaço morto e frio. A vitrola era só os berros e sussurros de Nina e Billie; saxofones de Charlie Parker, Coltrane, George Coleman; o piano de Hancock, os trompetes de Armstrong e do cortante e insano Miles Davis.

“Não toque o que está lá, e sim, o que não está”.

As paredes eram todas rabiscadas de frases. E quando dei por mim, eu também estava todo rabiscado. E elas mudavam de acordo com o meu temperamento. Minha voz não saía, mas minhas letras tomavam forma aonde fosse. A única sonante era a música que vinha de todos os lugares, não mais da vitrola, que estava desligada. Não havia tomadas ou portas em meu vazio.

Preto.
A parte escura era uma floresta morta de árvores carecas e galhos retorcidos, um cemitério abandonado, de lápides partidas pelos chãos com fotos de todos que já magoara. Mas a terra pulsava. Andava pisando em ossos de animais enquanto via minha pele derretendo e se misturando a carne, que escorria de meus ossos sem eu nada poder fazer. O som dos ossos se partindo aos meus pés era ensurdecedor. A única vida era um bode que me encarava como se identificasse em mim, até eu abraçar sua cabeça e fazê-la explodir em meus braços. Sujo, sozinho e cansado, me vi aos prantos com meus favoritos do jazz, me perguntando como posso pensar tanto em algo que nunca entrou na minha mente, mas que foi direto para o coração?

Eu nunca consegui morrer porque já estava morto.





*Aqui jazz, uma homenagem aos jazzistas e uma viagem interna (...) porque o mundo me cansa e eu desencanei dele e de mim. Esse texto, em especial, gostaria de saber sobre o que vocês, leitores, imaginaram ao ler. Gostaria que comentassem, mesmo que não se identifiquem.

2 comentários:

Brunna S. disse...

Na minha humilde opinião, faltou o Charles Mingus...

Sobre o resto, vc já sabe.

Au Revoir disse...

Nas duas primeiras partes me lembrou as fases de Picasso.
Na última já me lembrou um poema de Manuel Bandeira.
Afinal, seria a transição da vida até a morte de um 'quasimorto'?
Ou seria as várias formas de morrer aos poucos, quando já não há tanta vida para se lamentar?

No mais,creio que não entendi de todo errado, só que poderia ter entendido melhor. Entenderei,numa releitura, num horário normal.

Quanto ao novo layout do meu blog, obrigada pela sinceridade,você é tão exigente! Mas eu estava cansada do preto de sempre(Foi de um ano e alguns meses), blasé, se eu quisesse ser não conseguiria.