Sejam bem-vindos ao outro lado do espelho, onde tudo pode acontecer (e acontece).

Wonderlando é um blog sobre textos diversos, descobrimentos e crescimento. A filosofia gira em torno do acaso, misturando fantasia e realidade de dois amigos que se conheceram também por acaso, Alice - que tem um país só seu -, e Yuri - chapeleiro e maluco nas horas vagas.

Leia, comente e volte sempre... Ou faça como a gente e não saia nunca mais.

9 de dezembro de 2009

Life in a Glasshouse

Um pequeno som me destrói. É mais um ruído constante, sonante. Segurei meus braços até não senti-los mais e me estapeei como outro alguém. Ecos devolvem minhas palavras distorcidas. Será que é assim que soo?, penso. Não sou levado a sério.

A casa é de vidro e espelhos lisos sem penduricalhos para distrair. E mais uma vez eu estou perdido aqui com meu único amigo. Ele tenta fazer um papel de parede de tom pastel, um marrom apagado que não é bege e é fraco demais para ser marrom. É triste... porque não é nada, combina com a gente. Allan desenha um sorriso na esperança de sorrir. Eu gostaria de estar no papel de parede da casa mais verde para poder enfeitar. Brincar de correr, me esconder e cantar. Mas o conhecimento me destrói. Eu e ele ficamos ali, sentados no chão vazio da casa de vidro. O único cuidado paliativo ali pra ele sou eu – ele pra mim. Esperamos ansiosos pela Morte, ou pelo final de algo que já começou, o fim.

Nos olhamos multiplicados nos reflexos, nus e sem cuidados. Tenho feridas que não se curam porque insisto em arrancar sempre a casquinha. É inconsciente, prazeroso, quando percebo, já foi. Allan mastiga e engole minha pele morta e me devolve seu sangue em troca. Somos nosso próprio alimento, nos consumimos. Em nossa multiplicidade, somos mais, assim como nossos anseios, nossa fome, nosso desejo e desespero. Mas não o desejo mais do que o já tenho. Por ele, digo o mesmo. Claro que eu gostaria de sentar e papear, mas me ouviria e não agüentaria. Desespero.

Um pequeno som me destrói. É mais um ruído constante, sonante. Algo que não consigo controlar. Minhas fraquezas são muito fortes. Ecos devolvem minhas palavras distorcidas e racham as frágeis paredes. Será que é assim que soo? Mais um pouco os cacos se espalham pelo chão, e então mais um estranho erro a cometer. Allan e eu, sozinhos, cada qual em sua solidão. Não nos dizemos, mas ouvimos o pequeno som que nos destrói. Evitamos pela vida. Na casa de vidro. De Espelhos.




*imagem de Adriana Peliano

Um comentário:

Milla Pupo disse...

Ao menos as fraquezas tem intensidade e as cascas continuam crescendo.

Pelos vidros vc vê além e no espelho vc vê aquém...

;)