Sejam bem-vindos ao outro lado do espelho, onde tudo pode acontecer (e acontece).

Wonderlando é um blog sobre textos diversos, descobrimentos e crescimento. A filosofia gira em torno do acaso, misturando fantasia e realidade de dois amigos que se conheceram também por acaso, Alice - que tem um país só seu -, e Yuri - chapeleiro e maluco nas horas vagas.

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19 de dezembro de 2009

Mar Morno

Uma tesoura grande e pontuda encontrou meu corpo. Terminou em meus pálidos punhos vestindo-me de sangue. Minha veia azul chorava e umedecia a camisa escura de manga comprida. Sentei acuado, repousando meu corpo de guerra vencido, sentindo a desistência e covardia causando mais remorso. É um labirinto sem saída, minha vida. Fugir é covardia, ficar não faz sentido. E tudo causa um remorso e uma culpa incurável.

Comecei sabendo onde estava pisando, mas qualquer coisa seria mais firme que meus passos naquele momento. Foi o que me salvou de tantas coisas e me fodeu em outras. Se eu pudesse voltar atrás, faria tudo outra vez, eu não tinha opção. Deixo para agonizar quando ninguém está vendo. Não divido com ninguém minhas intermitências venenosas mais sérias. Durmo o sono dos condenados quando já é cedo. E a insônia me tira dos sonhos mais quentes. Para mim é sempre tarde porque estou sempre atrasado nesse lance de viver, ainda não me acostumei com a ideia.


Bate primeiro na parte de trás das pernas, depois atrás do pescoço, espalhando uma onda de relaxamento que descola a pele dos ossos, de modo que sinto flutuar sem gravidade num mar morno. Chove quente em mim, e tranquilidade igual a essa só no ventre de minha mãe. Se não fosse a perturbação de sentir a presença de alguém que não está presente. Uma sombra no canto da visão que desaparece toda vez que corro os olhos para ver. Move-se quando eu mexo a cabeça, então nunca a vejo. Causa medo, talvez seja a solução.


Vi a medida da vida em gotas. Experimentei a agonizante privação da doença da droga, e também o prazer do alívio, quando as células sedentas beberam da agulha. Talvez seja só isso e nada de mais. Talvez todo prazer seja alívio. Então chorava mar morno de lágrimas psicodélicas e fermentava meu alimento na colher queimada. Eu não queria, mas me salva. E pelo desespero, ando fazendo qualquer coisa para ser salvo, para tapar os buracos de meus defeitos, medos e inseguranças. Tentando me convencer de que eu sei o que estou fazendo, ou que viver vale a pena.


Um comentário:

Au Revoir disse...

Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo e ninguém suspeitar dos traumas, das quedas, dos medos, dos choros.